Relato de viagem

Viagem de trem entre Montreal e Nova Iorque e a entrada nos EUA por via terrestre

A cultura note-americana é disseminada pelo mundo todo através de seus filmes, produtos e idioma e por isso acho que tinha a sensação de já conhecer os EUA, apesar de nunca tê-lo visitado até essa viagem. Pisando em solo estadunidense pela primeira vez eu confirmei alguns conceitos que tinha e revi outros.

AS TENSÕES DA IMIGRAÇÃO AMERICANA

Trajeto de Montreal para Nova Iorque Trajeto de Montreal para Nova Iorque

Entramos nos Estados Unidos pelo Canadá, seguindo nosso roteiro e viajando de trem de Montreal para Nova Iorque (ou New York em inglês). Depois do atentado de 11 de setembro o governo estadounidense reforçou muito a segurança nas fronteiras e alguns relatos de abusos ou constrangimentos começaram a surgir a partir de viajantes de várias partes do mundo que tentavam entrar nos Estados Unidos. As tensões e problemas durante a passagem pela imigração muitas vezes deixam turistas preocupados, mas na nossa entrada nada disso aconteceu. Os Estados Unidos e o Canadá são parceiros estratégicos e como o Canadá também mantém rigorosa vigilância na entrada de viajantes a chegada a partir do Canadá parece ser mais 'relaxada'. Eu já tinha a impressão que seria mais tranquilo do que vindo de avião, mas mesmo assim foi surpreendente.

TREM DE MONTREAL PARA NOVA IORQUE

Fila na Estação Central de Montreal Fila na Estação Central de Montreal

Tomamos o trem na Central Station (ou Gare Centrale em francês) de Montreal. Havíamos comprado os tickts com antecedência no site da Amtrack por U$D 75,00 para cada um.

Chegamos à estação através do metrô de Montreal e não houve nenhum controle de bagagem para entrar na estação central que se conecta com o serviço de metrô. Havia uma fila bem grande que nos assustou, mas na hora definida no bilhete o acesso foi liberado e a fila andou rapidamente. Mais uma vez não houve nenhum controle ou fiscalização de bagagem. Descemos uma escada e fomos direto ao trem da companhia Amtrack. Os assentos não são marcados e escolhemos livremente e colocamos nossas bagagens nos espaços disponíveis. Cerca de meia hora depois do trem partir surgiu um funcionário que foi em cada assento para verificar os bilhetes.

CONFORTO DO TREM AMTRAK

O trem era confortável, com assentos largos e que reclinavam uns 25 graus, o suficiente para descansar um pouco mais longe do ideal para uma viagem de 11 horas. Apesar do assento não ser do tipo leito os vagões como um todo são muito confortáveis. Há obviamente sistema de calefação (já que no inverno é muito frio) e possui banheiros e um vagão refeitório, onde é possível comprar lanches e refeições. Há também no vagão refeitório mesas amplas e cadeiras para comer com mais conforto (as mesinhas em cada poltrona são pequenas como as de avião).

CRUZANDO A FRONTEIRA CANADÁ-EUA

Vagão do trem Amtrack Vagão do trem Amtrack

Depois de algumas horas de viagem chegamos a Rouses Point, na fronteira entre EUA e Canadá. O trem parou e foi anunciado que seria feito o controle de fronteira. Os oficiais de alfândega e imigração viriam a bordo e todos podiam ficar em seus lugares, sentados.

Um oficial dos EUA entrou então no trem e caminhou pelo corredor anunciando que deveríamos deixar à mão o passaporte e o formulário da alfândega preenchido (que nos tinha sido fornecido anteriormente). No formulário, como é de praxe, perguntava sobre bens que estávamos trazendo, valores em dinheiro (se mais de 10 mil dólares) e sobre a existência de produtos alimentícios.

Havia no verso uma informação que achei interessante: “Bagagens podem ser selecionadas para inspeção detalhada. Se isso acontecer você deve acompanhar o oficial até a sala de inspeção. O funcionário e todo o procedimento será realizado de forma educada, respeitosa e cuidadosa”. Observei que a bagagem de um passageiro foi selecionada, mas parece que ocorreu tudo bem. Felizmente a nossa não foi (apesar de estar tudo certo :-))

FORMULÁRIO DE IMIGRAÇÃO E TAXA

Além de recolher a declaração de bagagem o funcionário vinha a cada assento e pedia o passaporte e fazia perguntas típicas de imigração. Para nós perguntou da onde estávamos vindo, para onde iríamos, quantos dias iríamos ficar e qual o propósito da viagem. Ao responder que era a primeira vez nos Estados Unidos a funcionário nos informou que deveríamos ir até o vagão refeitório para preencher um formulário e pagar uma taxa de 6 dólares cada um.

Dirigimos-nos ao vagão que estava funcionando como uma espécie de escritório temporário de imigração e levamos nossos passaportes. O formulário de imigração basicamente solicitava nomes, destino, local de hospedagem e número dos passaportes.

Quando terminamos de preencher a mesma funcionária perguntou onde trabalhávamos. Eu disse então que era engenheiro de software e que neste momento estava fazendo mestrado e era bolsista, com dedicação e integral e disse que Viviane era contadora. Ela se satisfez com a resposta, me deu o troco e voltamos ao nosso vagão. Chegando ao nosso assento vimos que o troco estava errado e voltei lá para pegar os 6 dólares que faltavam. Ele pediu desculpas e disse que tinha se atrapalhado e dado o troco como se fossem 3 pessoas, quando éramos somente dois.

O resultado é que a passagem pela fronteira estadunidense foi muito tranquila e surpreendentemente em nenhum momento nossas bagagens foram verificadas os escaneadas, como acontece nos aeroportos. Isso tornou o processo mais confortável mas por outro lado expôs uma fragilidade da segurança, que pode ser compreendida, como eu falei, pelo fato de estarmos vindo do Canadá.

A ALIMENTAÇÃO E A GORJETA

Lanche no trem Amtrak Lanche no trem Amtrak

Durante o trajeto fomos observando lindas e geladas paisagens. Fizemos duas pequenas refeições (compradas no trem) e fomos atendidos por uma funcionária mal humorada. Ela atendeu tudo que pedimos, mas parecia estar com uma cara de poucos amigos.

Diferente do Brasil, onde se pede uma “caixinha”  somente no natal nos EUA eles fazem isso o tempo todo. Quase em todos os lugares há uma caixinha de acrílico para se colocar a gorjeta. Há a cultura de dar gorjeta no país para quase todos os serviços e não somente em bares e restaurantes como no Brasil. Você não é obrigado a dar, mas eles esperam que isso aconteça.

Como ela estava muito mal humorada eu não dei no primeiro atendimento. Da segunda vez ela atendeu melhor e eu coloquei um dólar na caixinha e ouvi um “thanks”.

Nesse trem havia várias opções de lanches. Pizzas, frutas, sanduíches, sucos, chocolate quente, macarrão no copo (cup of noodles) e várias outras coisas. Apesar das várias opções a quantidade é limitada e por isso logo depois do início da viagem uma fila se formou na lanchonete e as coisas foram acabando. Na nossa vez não tinha mais o sanduíche vegano que eu queria e nem as frutas. Terminamos comendo pizza (U$D 3.00 - estava muito boa), cup of noodles (U$D 2.75) e suco de laranja (U$D 1.75).

OS CONTRASTES DE NOVA IORQUE

Chegamos em Nova Iorque 20:30 na Pennsilvania Station (mais conhecida como Penn Station), que fica na região de Downtown. Assutamos-nos com a realidade da cidade, especialmente por que estávamos vindo de Montreal. O metrô é bem sujo, velho e mal conservado. Podia se ver muitos mendigos e desabrigados (homeless) e percebia-se no ar a malandragem, um clima bem diferente do Quebec. Percebendo isso eu logo disse a Viviane para ficar ligada por que não estávamos mais no Canadá, que é uma referência em qualidade de vida e segurança.

Apesar de estarmos no país mais rico do mundo era nítido que essa riqueza não era para todos. Diferente dos países europeus e o Canadá o governo nos Estados Unidos não oferece um sistema de proteção social e não implementa o conceito de estado social. A mentalidade é mais “cada um por si”. É o capitalismo puro e afiado, que por um lado permite liberdade e oportunidade, mas por outro filtra essa oportunidade de acordo com suas capacidade de conseguir dinheiro para se qualificar e conseguir um lugar ao sol.

Como disse uma amiga que fizemos no apartamento que ficamos hospedados as oportunidades americanas são mais restritas se você for negro, latino ou pobre. Ela completou o pensamento dizendo que os americanos gostam de tirar vantagem e não são muito honestos no dia a dia. Isso me lembrou o famoso “jeitinho brasileiro”.

PEGANDO O METRÔ PELA PRIMEIRA VEZ

Metrô cheio e sujo de Nova Iorque Metrô cheio e sujo de Nova Iorque

Ainda assustados com a realidade forte da maior cidade do mundo nós ficamos meio perdidos na estação, que além de suja era confusa e mal sinalizada, especialmente para quem chega a primeira vez na cidade. Tivemos de perguntar várias vezes a diferentes pessoas para conseguirmos tomar o metrô correto e seguirmos para a estação da rua 96, onde saltaríamos para irmos à hospedagem reservada. Como estávamos meio desorientados compramos a passagem numa cabine, ao invés da máquina e pagamos U$D 2.75 cada passagem avulsa, que pode ser usada em até duas horas (você pode tomar vários trens dentro de duas horas).

Nossa hospedagem ficava em Upper West Side (traduzindo, parte de cima do lado oeste da cidade), perto do Central Park e a Penn Station, por onde chegamos, ficava na Downtown, mais no centro da cidade. Apesar da distância, depois de tomar o metrô em poucos minutos e passadas três estações chegamos ao nosso destino.

SE HOSPEDANDO DE FORMA BARATA E CONFORTÁVEL

viviane cozinhando no apartamento em Nova Iorque viviane cozinhando no apartamento em Nova Iorque

Nós havíamos reservado um quarto dentro do apartamento de uma novaiorquina. Existem alguns sites (como 9flats.com, roomorama.com e airbnb.com.br ) que oferecem o serviço de intermediação para a locação de apartamentos ou quartos em apartamentos de pessoas ao redor do mundo e normalmente essa é uma opção mais barata do que um hotel, além de normalmente oferecer um melhor custo benefício. Nesse sistema geralmente você paga menos e consegue uma hospedagem num lugar melhor.

Nova Iorque é uma cidade bem cara e nessa mesmo optando pelo quarto no apartamento tivemos de pagar R$ 1000,00 para cindo dias para o casal, ficando R$ 100,00 a diária por pessoa. Se fosse num hotel, com o mesmo padrão e localização do apartamento gastaríamos o dobro. Além da vantagem financeira ainda podíamos usar a cozinha, a sala e tudo mais, trazendo facilidades para o dia-a-dia.

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