Relato de viagem

O Parque do Catimbau, as trilhas, pinturas rupestres, o vale belíssimo e a comida deliciosa

Nessa etapa da viagem sairíamos do litoral, cruzaríamos a zona da mata e o agreste e avançaríamos até o sertão, onde fica o Parque Nacional do Catimbau, a 320 km de Maragogi. Além de ser um lugar lindo (apesar de seco) lá poderíamos visitar o sítio arqueológico, ver as pinturas rupestres e um pouco da história geológica do continente.

Partindo de uma pousada mal humorada

Wesley nos acordou antes das seis da manhã para pegar a chave do carro, parecendo que tinha caído da cama. Como estávamos com o sono atrasado desde a noite anterior eu dormi mais um pouco, e levantamos 8 horas. Viviane estava sentindo dor, com bastante cólica e eu sai para procurar uma farmácia para comprar remédio de carro e tive de ir em três diferentes para encontrar.

Seguindo para Catimbu Seguindo para Catimbu

 

Depois disso voltei e tomamos o café da manhã, que estava incluso no valor da diária. O café era farto, com pão (infelizmente branco e não integral), ovos, queijo, suco natural, cuscuz e podia pedir carne, uma opção não aproveitada por aqueles aqueles que não são vegetarianos como eu.

Diferente do que ocorre na maioria do Brasil (inclusive da Bahia), no sertão é comum comer carne no café da manhã. Apesar do café farto as funcionárias do restaurante (que também faz parte da pousada) eram mal humoradas e o ambiente  não era um dos mais limpos. Como disse no relato anterior essa foi a única hospedagem viável que conseguimos encontrar, já que a cidade estava cheia. Definitivamente eu não recomendo a "Pousada Familiar" de Maragogi a não ser que, como no nosso caso, você não encontre outra opção.

Os mapas errados e os pedidos de informação

Terminamos de comer e saímos em direção a  Catimbau. Segundo nossa rota seguiríamos pela BR-424 , BR-232 e passaríamos por cidades como Garanhuns, Arco Verde e Buíque. Novamente tivemos problema com os mapas do GPS. Dava erro na plotagem da nossa posição sobre os mapas que continham problemas. Já na saída, quando passávamos novamente por Jandaí o nosso "guia eletrônico" nos mandou entrar num canavial e logo percebemos o erro e começamos a ignorá-lo.

Depois desse trecho seguimos por quase 300 km e só voltamos a ter problemas em Arco Verde. Parece que tinha sido construído um novo acesso com novo sistema de acesso à cidade e o mapa do GPS ainda não estava atualizado. Como tínhamos andando quase 300km seguindo o GPS tínhamos voltado a confiar nele recentemente.

A a moça de voz doce nos disse "siga à direita" no entrocamento de Arco Verde e terminamos dando uma volta imensa, sendo que aparentemente era possível seguir direto pela esquerda para ir em direção a Buíque, sem fazer o longo retorno. Como só descobrimos isso depois seguimos o GPS e passamos por dentro da cidade para fazer o retorno e isso pelo menos nos permitiu  dar uma olhada na cidade, bem rapidinha.

 

 

Dentro da cidade de Arco Verde passamos por uma situação constrangedora. Pedimos informação algumas vezes e uma das pessoas, um rapaz (que dizia estar indo para o quartel), nos deu a informação bem explicadinha e no final pediu uma carona. Por mim daríamos a carona, mas o carro estava cheio (além das quatro pessoas havia muita bagagem) e por isso o pessoal fez sinal que não. Eu estava na direção e "transmiti" o recado meio sem jeito. Ao receber a negativa o rapaz ficou visivelmente indignado e deu dois tapinhas no carro.

Parque Nacional do Catimbau

Saindo de Arco Verde pegamos a PE-270 e chegamos em Buíque. Esta é a cidade que dá acesso ao Parque Nacional do Catimbau, mas dali até o parque é necessário percorrer 11 km de estrada de barro.

A incrível vista da Igreginha no Catimbau A incrível vista da Igreginha no Catimbau(vídeo)

Paramos em frente à Pousada Flananda e como já era 3 da tarde resolvemos saltar  e perguntar o preço da hospedagem, para o caso de não haver hospedagem viável no parque. O proprietário da pousada, David, muito simpático, nos disse que o valor da diária, para cada casal, era R$ 70,00 e ainda podia pagar com cartão de crédito. Entramos, vimos as instalações confortáveis e dissemos que íamos ao parque e voltávamos no final do dia.

Lagarto de pedra 2 Lagarto de pedra

Os 11 km da estrada de terra que separa Buíque do Parque Nacional estão relativamente bons. Conseguimos manter a média de 40 km/h com a pista seca e em 20 minutos chegamos na Associação de Guias do Catimbau que fica na praça principal da Vila do Catimbau. O Parque Nacional do Catimbau foi criado em 2002 e tem 63.300 hectares, todos dentro do estado do Pernambuco. Abrange os municípios de Buíque, Ibimirim e Tupanatinga e ocupa uma área que vai do agreste ao sertão. Esta é uma área de extrema importância geológica, biológica e arqueológica, já tendo sido encontrados 30 sítios arqueológicos que contam muito da história do homem na região, especialmente as pinturas rupestres de até 4.ooo anos.

Pegando a trilha

Para fazer trilhas do parque é obrigatório a contratação de guia. A princípio achei isso ruim, mas depois fui compreendendo que sem eles seria difícil ir nos pontos interessantes, além do fato de estar ajudando no desenvolvimento da região, que é bem pobre.

A associação de guias trabalha num esquema de revesamento, para que todos os guias tenham a oportunidade de trabalhar. Quando chegamos era a vez de Enéas, um guia sorridente e engraçado. Inicialmente ele queria R$ 80,oo para nos guiar pelas 2 horas restantes (até antes do anoitecer), mas depois terminou fazendo por R$ 50,00 (para os quatro) e seguimos para o Canyon e a Igrejinha. Essas são as duas atrações mais acessíveis e que podem ser visitadas rapidamente.

O Canion oferece uma vista espetacular além da observação de diversas rochas milenares com formatos super curiosos (umas parecendo tartarua, outras gaviões e jacarés) e com uma superfície diferenciada, com a aparência de casco de tartaruga, parecendo que foram esculpidas. Essa caminhada foi bastante divertida e brincávamos muito com Enéas, que só fazia rir.

Canion do Catimbau e a história da formação geológica Canion do Catimbau e a história geológica(vídeo)

Depois do Canion seguimos para a Igrejinha, que é um conjunto de formações rochosas que se parece com uma igreja. Além disso há outras rochas altas, que podem ser acessadas com um pouco de esforço e que oferecem uma vista espetacular de toda a região. ganhamos de presente um pôr-d0-sol de cima das rochas, mostrando um vermelho intenso que banhava a região seca e bela do agreste do Catimbau.

 

Os momentos famosos do Catimbau

Durante nossas caminhadas Enéas nos contou dos filmes que foram gravados no Catimbau. Contou que participou como figurante e que esteve perto da atriz Giulia Gam no filme Árido Movie e que observou de perto outros filmes gravados no parque, como "O Amor e a Compensação da Morte" e também a matéria do Globo Repórter sobre o parque, que teve tomadas de helicóptero.

Trilha do Canion no Catimbau Trilha do Canion no Catimbau(vídeo)

Ficava visível na fala de Enéas que ele sentia orgulho dessas filmagens terem sido feitas no Catimbau, além é claro de divulgar o parque para que mais visitantes o venha conhecer.  Nesse trajeto da igrejinha encontramos vários turistas, a maioria de pernambucanos. Quando estávamos saindo do "pátio" da Igrejinha o carro atolou um pouco nas areias e tivemos de usar folhas de palmeiras para ajudar a liberar o veículo e livres seguimos de volta para a vila, onde tivemos a melhor refeição da viagem (e a melhor em muitos meses).

A deliciosa comida do catimbau

Perguntamos sobre uma recomendação de Enéas para comer e ele nos disse que ao lado da associação havia o restaurante da Tia, que fazia uma comida caseira. Famintos aguardamos pacientemente e pelo preço de R$ 12,00 por pessoa comemos até dizer chegar uma comida gostosa, natural e acompanhada de suco. A mesa, que era grande, ficou pequena de tanta coisa que foi colocada à nossa disposição.

A Tia também oferecia dormida, podendo ocupar quartos dentro da casa dela, entretanto a necessidade do WIFI falou mais alto no grupo e como não tinha internet por ali decidimos ir dormir na pousada Flananda, a 11 km dali, já que a tia disse que o valor da dormida seria R$ 35,00 por pessoa, o mesmo preço cobrado pela Flananda. Apesar da escolha nos sentimos muito bem acolhidos pela simpática senhora e ficamos até com vergonha de dizer que não dormiríamos na casa dela. Camila foi  incumbida de dar a "má" notícia à tia e enquanto esperávamos no carro Camila fazer o tenso comunicado a gente brincou, levando em conta que ela estava demorando, que a tia tinha colocado a grande faca que estava em suas mãos (que ia usar para matar a galinha) no pescoço de Camila e dito que  ela tinha de ficar.

 

Em Buíque não se come à noite

Voltamos para Flanada, fizemos checkin e depois saímos para comer uma pizza. David (o dono da pousada) nos disse que provavelmente estaria tudo fechado, que era difícil encontrar comida em Buíque aquele horário (9 da noite). Disse que a dias atrás outros hóspedes saíram para comer a noite e não encontraram nada aberto e diante da situação ele ficou com pena e preparou um lanche para os famintos.

Ele então nos fez três indicações de  lugares que talvez estivessem abertos  e eu brinquei dizendo que se tivesse tudo fechado ele ficaria com pena da gente também. Achamos uma pizzaria aberta e pagamos R$ 27,00 pela pizza grande e voltamos para a pousada. Ao voltar, quando conversei com David ele me disse uma coisa surpreendente: em Buíque não tem água encanada, e toda a água é comprada de carro pipa.

A noite serviu para planejar o nossos passos seguintes. O nosso objetivo era evitar problema de hospedagem em Xingó, o nosso próximo destino. Para isso procurei pela internet, mais uma vez, camping por lá. Achei somente um, ligamos e surpreendentemente, a funcionária me disse que não sabia o preço. Como a internet era instável e não pegava bem no quarto de Wesley e Camila ele veio até o nosso quarto e foi então que conversamos sobre o dia seguinte.

Wesley defendia a ideia de que havia mais coisas para conhecer no Catimbau, enquanto Camila não queria ficar de jeito nenhum. De minha parte eu achava que havia sim mais coisas interessantes mas que seria mais interessante passar mais tempo em Xingó e no Canyon do São Francisco, que pelos relatos que eu tinha lido era fantástico. Com uma votação apertada, tendo 1 para Catimbau, dois para Xingó e uma abstenção o grupo terminou decidindo por partir direto para a região do São Francisco na manhã seguinte.

 

Catimbau, queremos mais

Paredes de arenito Paredes de arenito

 

Quando estávamos de saída, já de manhã, eu percebi que Wesley tinha ficado chateado com a decisão da noite anterior, mesmo sendo democrática. Eu então resolvi mudar de ideia e sai da abstenção, o que gerou um empate e a partir disso Viviane topou também e repactuamos que iríamos fazer mais uma trilha para conhecer os sítios arqueológicos de Catimbau e seguiríamos para Xingó no início da tarde. Voltamos para a Vila do Catimbau e devido ao rodízio de guias não conseguimos ir de novo com Enéas. Dessa vez quem nos acompanhou foi o Luiz, um rapaz muito mais calado e introspectivo e a guiada custou R$ 100,00 para os quatro.

Fizemos a trilha que percorre os sítios arqueológicos mais ricos do parque, podendo ver pinturas rupestres incríveis, muitas com 4 mil anos. Fomos de caro até uma fazenda que dá acesso à Trilha das Conchas e tivemos de subir um trecho íngreme, mas curto. Passamos pela Casa de Farinha, onde já visualizamos algumas pinturas rupestres, mas na Pedra da Concha foi onde vimos uma grande quantidade de pinturas, muitas bem elaboradas e outras enigmáticas e até com conotação sexual.

Tiramos várias fotos para registrar essas pinturas que estão no segundo mais importante conjunto de pinturas rupestres do Brasil (um sítio no Piauí é o mais importante). Seguimos caminhando e subindo, até atingirmos o ponto mais alto da trilha, onde pudemos visualizar vários morros que lembram animais (como morro do cachorro) e ter uma vista panorâmica do vale. Dali seguimos um pouco mais devagar por que Viviane estava com cólica e alguns minutos depois pegamos a Trilha das Torres e chegamos no conjunto de paredões de arenito, com  cor alaranjada forte. O conjunto de formações rochosas belíssimo lembra muito o visual apresentado no filme 127 horas.

Pinturas rupestres do Catimbau Pinturas rupestres do Catimbau(vídeo)

 

O atalho e o velho linguarudo

Terminando a trilha nós voltamos para a vila, almoçamos  novamente na casa da tia (e mais uma vez a comida estava maravilhosa e farta). Depois de almoçar voltamos na Flananda para pegar o vasilhame de água de 5 litros que havíamos esquecido lá e pegamos a estrada. Seguimos sem  usar o GPS (eu estava dirigindo e só olhava o mapa, sem seguir as instruções) e andamos por mais de uma hora pela PE-270. Passamos por Tupanatinga, e quando estávamos em Itaíba entramos errado e voltamos.

O GPS se sentindo desprestigiado disse que era para entrar por um atalho, em Caraíbas. Já desconfiados do equipamento resolvemos confirmar a informação com uma senhora e ela disse que sim, por ali era mais perto. Entramos e logo o asfalto sumiu e começou o barro. Achamos estranho e resolvemos perguntar de novo, dessa vez a um velhinho que passava numa caminhonete.

O atalho do velhinho linguarudo O atalho do velhinho linguarudo(vídeo)

Ele disse que tínhamos errado, que devíamos voltar e entrar numa esquerda que tínhamos passado. Seguindo as instruções do senhor que parecia conhecer a região fizemos isso e terminamos saindo numa estrada pior ainda. Andamos alguns metros, descendo uma ladeira escabrosa e encontramos um grupo parado ao lado de um carro. Quando fomos encostando, antes mesmo de pedir a informação uma senhora logo gritou: "aí, eles levam a moça par dar socorro!".

Foi então que entendemos que eles estavam dando socorro a uma pessoa que estava se sentindo mal e o carro deles tinha quebrado. Ao se aproximar ela viu que o carro estava cheio e desistiu do socorro. Dissemos então que estávamos meio perdidos. Foi juntando gente perto do nosso carro e um senhor logo disse: "siga aí por uns 25 km que você vai sair em Ouro Branco, mas a estrada está ruim".  Foi então que explicamos a ele que estávamos indo para Xingó de São Francisco e ele então espantado  disse: "Puta que pariu! O que vocês tão fazendo aqui!".

Ele disse isso de forma tão espontânea que foi muito engraçado. Ele estava achando que estávamos indo para algum lugar ali pertinho, mas quando compreendeu que íamos para bem mais longe soltou essa frase, demonstrando que estávamos no caminho totalmente errado. Eu percebendo a situação curiosa comecei a filmar e consegui pegar o "puta que pariu". Diante das instruções deles decidimos voltar tudo e pegar o asfalto, dando a volta por Águas Belas para então passar perto de Ouro Branco, entrar em Alagoas  e seguir pela AL-130. Chegamos em Piranhas, na região do São Francisco, no final do dia.

 


Informações úteis:

Os contatos da Associação de Guias do Catimbau são: 
Tel.: 87 3816-3052

E-mail: agturccatimbau@gmail.com

Tem ainda o blog deles, mas está desatualizado e com pouco conteúdo:

agturccatimbau.blogspot.com.br

Pousada Flananda: fica na Aveida José Emilio de Melo, 34. Tel.: (87) 3855-1459. email: flananda.hpf@gmail.com

Uma opção para quem quer acampar é no Paraíso Selvagem, uma reserva indigina adminsitrada pelo índio Jurandir. Se informe na associação de guias sobre o Jurandir.

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