Relato de viagem

O primeiro dia em Londres, o intercâmbio e a minha quase prisão por terrorismo

Assim como em voos, para embarcar no trem europeu é solicitado ao passageiro que chegue com uma hora de antecedência para fazer o checkin e por isso tivemos de acordar bem cedo. Como já conhecíamos o percurso que seria feito (estávamos voltando para Londres), decidimos dispensar o táxi e ir de tram (para quem não leu o relato anterior é tram mesmo). Fizemos check-out rapidamente (na verdade era só a entrega da chave, já que tínhamos pago tudo na noite anterior) e fomos para o ponto do tram que ficava quase na frente do hotel e aos poucos começamos a ficar um pouco preocupados .

Embarcando no trem internacional europeu

Alguns tempo depois o veículo leve sobre trilhos apareceu. Desta vez não tivemos problemas para pagar, como da primeira vez, e em poucos minutos chegamos em frente à estação internacional de trem e nos dirigimos à área de check-in.

Indo para o embarque Indo para o embarque

Depois de fazer check-in seguimos para a região de embarque, mas tivemos certa dificuldade para encontrar o local exato de acesso, que era no segundo andar. Apesar disso conseguimos chegar com alguma antecedência que me permitiu ficar tentando decifrar as notícias de um jornal local escrito em dutch.

Era praticamente impossível ler alguma coisa para um leigo no idioma. Era possível deduzir algumas coisas pelas fotos e por algumas poucas palavras inteligíveis. Toda aquela ginástica de linguística estava bem engraçada até que chegou o nosso trem e embarcamos rumo à terra da rainha. (os preços do trem europeu estão no relato anterior).

Passagem pela imigração européia

Apesar de não termos passado pela imigração quando entramos na Bélgica vindo de Londres, dessa vez passamos pelos oficiais de imigração do trem europeu na conexão que fizemos no trajeto Amsterdã-Bruxelas-Londres.

Nesta parada tivemos uma espera de quase uma hora até pegar a segunda parte do trajeto, mas foi tudo tranquilo, inclusive a reentrada em Londres. Apesar do receio na entrada inicial sabíamos, por lógica, que seria muito improvável que negassem a nossa entrada dessa vez, já que já tínhamos entrado a três dias atrás e saído do país, o que demonstrava claramente que não tínhamos intenção de ficar ilegalmente por lá. Além disso, estávamos vindo de outro país europeu, o que é também é um fator positivo, do ponto de vista dos funcionários da imigração.

Entrada da estação St Pancras Entrada da estação St Pancras

Da bélgica para a sala de aula

De acordo com nossa programação não daria tempo de ir à casa da família onde nos hospedaríamos como estudantes de intercâmbio, já que nossa aula começava às 15:00 e o nosso trem chegaria em Londres às 13:30. Assim, o plano era ir de mochilão mesmo direto para o primeiro dia de aula, no The Studio english Studio, que ficava em Holborn, bem no centro da capital do Reino Unido.

Usando o sistema de metrô de Londres

Chegamos pela estação St. Pancras e tivemos certa dificuldade para usar o sistema de metrô. É incrível a cidade que existe embaixo da cidade da superfície. Inúmeras estações, conexões, escavações e trens. O tube, como é conhecido o metrô de Londres, foi o primeiro metrô do mundo e entrou em operação em 1863!

Atualmente tem 400km de extensão, 270 estações e 4070 veículos. É um sistema moderno, muito organizado e sinalizado, mas é natural pra quem chega se assustar um pouco com a pujança de tudo aquilo.

Depois de aprendemos os detalhes compramos nas máquinas de venda os tickets por £ 4,00 cada um (mais tarde descobriríamos que era bem melhor usar o oyster card, mas isso é para outro relato). Estávamos com todas as bagagens (uma mochila grande nas costas, uma pequena na frente e no meu caso ainda carregava o capacete adquirido em Amsterdã)  e por isso a locomoção era difícil. Pior ainda era entrar e sair do trem, com tanta gente. Se nos virávamos, podíamos bater em alguém e era difícil encontrar um lugar com espaço suficiente.

todo mundo está com pressa!

Em Londres a vida é muito agitada e você não pode nem pensar em ficar parado no meio do caminho. A movimentação frenética determina que se você, subitamente, parar de andar é bem provável que as pessoas esbarrem em você. Se você está subindo na escada rolante e fica parado do lado esquerdo é bem possível que alguém reclame.

Há em toda parte sinalização indicando "stand on the right"  (fique parado do lado direito). No metrô as pessoas andam bem rápido e é regra fundamental respeitar a esquerda livre.  Lembro que precisamos tomar uma informação e nos dirigimos a um dos funcionários e a primeira atitude dele foi nos indicar para sair do caminho e ficar bem no cantinho, para não atrapalhar a passagem.

Meio perdidos Meio perdidos e olhando o GPS

Perdidos no centro de Londres

Chegando à estação Holborn, subimos e ficamos meio baratinados. Segundo havíamos pesquisado a escola ficava pertinho da estação, mas não a encontrávamos. Liguei meu GPS mas estava demorando muito pra captar o sinal. Já estávamos em cima do horário e mais um pouco e não daria tempo de chegar no horário.

Sabendo da fama de pontualidade da cidade da rainha isso os preocupava ainda mais. Depois de rodar um pouco terminamos encontrando e descobrimos o por que da dificuldade. A escola ficava no segundo pavimento de um prédio e só havia uma pequena plaquinha vermelha da mesma, um pouco difícil de ver.

Primeiro dia no intercâmbio

Subimos as escadas estreitas e quando entramos os quatro na recepção praticamente ocupamos todo os espaço, com todas as bagagens. Apesar de ser apertadinha a escola parecia organizada. Fizemos nosso cadastro e depois partimos para o teste de nivelamento, que determinaria o nível de inglês de cada um, definindo em que turma cada um ficaria. Eu fiquei no 6 (eram sete níveis sendo "1" o inicial), Wesley ficou no 1 e Júlia e Junior no 2. O teste era automatizado e feito no computador e por isso foi feito de forma bem rápida.

Após o teste já seguimos para a sala de aula. Como ficamos em níveis diferentes obviamente as turmas eram diferentes.

Cada aluno de um canto do mundo

Na minha entrada na sala de aula percebi que surpreendi as pessoas, de mochilão e com o boné de Amsterdã na cabeça. Pedi desculpa pelo atraso e expliquei brevemente o ocorrido e que estava vindo da Holanda, apesar de estar meio óbvio devido ao boné. Parece que Amsterdã exerce um certo fascínio nas pessoas. No imaginário popular reside a ideia de que lá é a terra da diversão, das orgias e das drogas. Não é bem assim. Talvez pra quem procura isso sim, mas sempre existe várias realidades dentro de uma cidade.

The English Studio The English Studio

Na minha sala havia gente de todo lugar do mundo, e isso era ótimo! Adoro conhecer gente de lugares diferentes, e ter como colegas pessoas da Bulgária, Rússia, Japão, Espanha, Quirguistão, Croácia, México, Colômbia, Itália, Turquia e uma do Brasil era algo animador.

Essa mistura é muito rica e há uma troca interessante de informações, até por que o professor Gil fazia questão de não colocar pessoas do mesmo país ou de idioma semelhante juntas, como português e espanhol, para evitar que nos comunicássemos em algo que não fosse inglês. O professor era muito bem humorado, ainda mais para um londrino, já que os britânicos tem fama de serem frios.

 

E agora, como a gente chega em casa?

Depois de uma aula interessante nos encontramos os quatro na saída da escola, como havíamos combinado e seguimos para o metrô para finalmente ir para a casa da família que nos hospedaria. Infelizmente não conseguimos ficar os quatro numa mesma casa e acertamos com a agência para ficarmos Wesley e eu numa casa e Junior e Júlia em outra e as casas ficavam em bairros diferentes. Mais uma vez saímos com as mochilas nas costas e muitas dúvidas na cabeça.

Não tínhamos ideia de como chegar nos nossos destinos e teríamos de usar a capacidade de perguntar. Entramos na estação e nos dirigimos a um funcionário. Disse nossos destinos e sinceramente não entendi bem o que ele respondeu. Decidimos perguntar a outra pessoa e não obtivemos muito sucesso. Parecia que as pessoas não tinham muita paciência com a gente :-(. Foi então que encontramos um funcionário que parecia ter uma função mais inferior na escala de hierarquia e ele foi o mais atencioso e prestativo, inclusive anotando o nome das linhas e estações, pois teríamos de fazer conexões.

Minha quase prisão por terrorismo

Depois dali fomos ao guichê comprar os tickets e dali a alguns instantes dei falta da minha mochila menor. Nossa, fiquei muito preocupado. O meu notebook e todos os documentos estavam na mochila. Por sorte eu lembrei que tinha deixado no local onde o segundo funcionário nos deu atenção. Subi correndo as escadas rolantes e quando cheguei perto do local onde estava a mochila havia dois policiais britânicos com a minha ela.

Eu pensei que eles simplesmente iam me devolver, mas não foi isso que aconteceu. Perguntaram por que eu tinha deixado a mochila ali. Eu disse que havia esquecido mas parece que eles não acreditavam. Naquele  momento eu me lembrei que a todo momento no sistema de som do metrô houvia-se a mensagem: "mantenha todos os seus pertences consigo, o tempo todo. Se avistar algum objeto abandonado notifique imediatamente um funcionário ou policial".

A situação era tensa assim por que já ocorreu atentado terrorista no metrô de Londres. Lembrando disso e fazendo uma associação lógica logo percebi que os policiais estavam achando que eu era um terrorista!! Perguntaram de onde eu era, o que tinha na mochila (e nesse tempo todo não me deram a mochila). Disseram que eu não podia abandonar nenhum objeto e eu disse que tinha esquecido! Me deram a maior bronca e disseram que me levariam para uma delegacia. Nossa, fiquei muito assustado. Acho que nunca fiquei tão assutado na vida.

Ser brasileiro foi minha salvação

Foi então que  eu disse que era brasileiro e que estava estudando inglês em Londres e que aquele era meu primeiro dia. Pedi desculpas várias vezes dizendo que não sabia de toda essa preocupação com objetos abandonados. Foi então que eles viram uma etiqueta na mochila com meu nome e endereço, e abaixo escrito "Brazil". Acho que isso foi minha salvação. Acho que eles perceberam que eu era realmente brasileiro e sabem que não há histórico de conterrâneos meus envolvidos com terrorismo.

Há sim muitos que ficam ilegais no Reino Unido, mas terrorismo praticado por brasileiro é algo nunca registrado na história. Diante de minhas inúmeras desculpas e de minha nacionalidade eles disseram que dessa vez deixariam passar, mas que eu nunca mais deixasse minha mochila. Ufa! Já pensou eu preso por terrorismo em Londres e ainda sozinho? Ia ser péssimo.

Escadaria da estação de metrô Escadaria da estação de metrô

Tensão para chegar ao subúrbio

Depois desse momento tenso desci, encontrei o pessoal, contei o ocorrido e começamos nossa jornada rumo à zona 3, que é um pouco afastada. Londres é organizada de forma circular, sendo o centro a zona 1 e a zona 7 a mais distante. Para chegar à zona 3, especificamente em Streatham, que é onde ficava a casa onde nos hospedaríamos (Wesley e eu) teríamos de fazer algumas conexões, segundo o funcionário nos disse.

O primeiro passo, era ir para a estação Bank, pela linha Central Line. Depois pegar a linha Northern Line com destino à estação London Bridge. De lá pegaríamos o trem de superfície que nos levaria até a zona três, Streatham. Descrevendo assim parece muito longe. E é, mas conhecendo bem o sistema era possível fazer tudo isso em 45 minutos.

É bem verdade que tínhamos de andar um bocado, pois cada estação é imensa e nas conexões atravessávamos longos túneis e muitas escadas rolantes. Neste primeiro dia foi tenso, pois a sensação de vulnerabilidade era grande. E se pegássemos um trem errado? E se não conseguíssemos chegar à casa onde dormiríamos? E se nos perdêssemos e ficássemos na rua? Tudo isso eram hipóteses que passavam pela minha cabeça. Ao mesmo tempo eu focava em prestar bastante atenção para tentar não errar, pois o serviço de metrô pára depois de um determinado horário e essa era a grande preocupação.

Chegando à superfície e a Streatham

Fizemos todas essas conexões e chegamos na última estação, onde pegaríamos o trem de superfície (semelhante a um metrô, mas que anda na superfície). Nessa estação ficamos em dúvida sobre onde exatamente pegar o trem. A estação era muito grande e os portões eram marcados com números. Nos informaram que seria no portão 14 mas que também poderia ser em outro.

Como assim? É, nem sempre é fácil ser turista. Ainda para piorar só passaria mais um trem para Streatham e depois só na manhã seguinte. Ficamos ali, Wesley e eu ligados em todos os trens que chegavam e depois de uma espera angustiante entramos num trem verdinho que seria nosso companheiro diário por quase um mês de intercâmbio.

Tomado o último trem a dificuldade final seria saltar no lugar correto. Pelo que tinha pesquisado no GPS a estação mais próxima que deveríamos saltar ficava a 1,3 km da casa de Miss Martin, que seria nossa anfitriã. Saltamos já a noite e percebemos que era um bairro mais popular. Claro que não se compara aos bairros populares do Brasil, já que apesar de estarmos na periferia parecia que estávamos num bairro nobre de Salvador, mas percebia-se que não era tão rico quanto o centro de Londres.

Havia mais negros e mais imigrantes e as ruas eram menos movimentadas. Mais uma vez o GPS nos salvou e nos levou exatamente na casa de Miss Martin, que surpresa pelo horário nos recebeu. Ela nos disse que nos esperava desde as 6 da tarde, que era o horário previsto de nossa chegada. Explicamos a ela as dificuldades do primeiro dia e ficou tudo bem.

Nosso quarto na casa de Miss Martin Nosso quarto na casa de Miss Martin

Conhecendo a casa da família do intercâmbio

Miss Martin era uma senhora de uns 70 anos ou mais, tinha cabelos bem brancos e uma casa antiga, mas bem ao estilo britânico. Eram dois andares numa espécie de condomínio aberto, com várias casas coladas uma nas outras. Entramos, ela nos mostrou a casa, nosso quarto e nos explicou sobre o café da manhã e a lavadoura de roupas.

Era a primeira vez na vida que eu fazia intercâmbio e era muito interessante chegar em outro país e ficar na casa de um morador local, convivendo e aprendendo os hábitos e costumes. Em muitos aspectos os britânicos são parecidos com os americanos e eu me sentia numa casa de filme americano, com todos aqueles eletrodomésticos e comidas que vemos nas telonas.

Um quarto para chamar de nosso

Agradecemos tudo e fomos para o quarto que seria nosso habitat por vários dias. Ficamos aliviados por ter dado tudo certo mas eu ainda estava preocupado com Júlia e Júnior, se eles tinham chegado ao destino. Júlia conseguia se comunicar em inglês, mas o nível dela ainda não estava tão fluente e ela não compreendia algumas coisas e essa dificuldade na comunicação podia ser um problema na hora de pegar informações ou até mesmo entender algo errado.

Tentamos por muito tempo falar com eles via internet (para nossa alegria havia wifi na casa da velhinha!)  mas eles não respondiam. Bem mais tarde é que conseguimos a confirmação de que estava tudo bem e pudemos dormir com tranquilidade.


Informações:

Passagens para o trem europeuhttp://www.raileurope.com.br

Informações sobre o metrô de Londres, inclusive preços: http://www.tfl.gov.uk (em inglês)

Agência de intercâmbio que usamos: http://www.turismarviagens.com.br

Escola de inglês em Londres: http://www.englishstudio.com

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