Relato de viagem

Pé na estrada, de Salvador a Bruxelas, uma longa jornada com passagem pela complicada imigração do Reino Unido

Enfim, o dia de nosso embarque chegou. Nesses últimos dias antes da viagem ficamos um pouco apreensivos por que a carta de aceitação da escola do Reino Unido e a da hospedagem na casa de família não chegavam nunca. Finalmente faltando dois dias para o embarque, todos os documentos estavam em nossas mãos. Meu pai foi nos levar no aeroporto, e lá chegando encontramos Wesley e também Marília, uma funcionária da agência que nos vendeu o intercâmbio. A presença de Marília me surpreendeu bastante. Achei uma preocupação importante da agência, mas no nosso caso eu senti como se fôssemos  criancinhas que precisam ser embarcadas no avião (risos).

Embarcando para Portugal Embarcando para Portugal

Aeronave espaçosa

Nosso voo foi no mesmo tipo de aeronave que tínhamos voado quando fomos para a Europa em 2008, um Airbus A320-200. O avião é bastante grande, com dois corredores e um total de 8 assentos na transversal, mas o espaço entre uma cadeira e outra deixa bastante a desejar, deixando bastante desconfortável quem tem pernas grandes. Mais ou menos no meio do caminho o piloto informou que deveríamos nos assegurar que os cintos estavam afivelados por que passaríamos por turbulência. Entretanto esta passou bem rápido.

A maior apreensão foi na hora do pouso, já que aparentemente o vento não estava de frente par ao avião, e o mesmo pousou meio que caranguejando. Como de praxe, não havia tubo para o desembarque, e seguimos de ônibus do avião para a o terminal.

Streap Tease no detector de metais

Após desembarcar ficamos na dúvida se deveríamos ou não passar pela imigração, e por tanto entramos na fila e eu confirmei com um funcionário que me afirmou que realmente deveríamos pegar a mesma. Após algum tempo de espera, finalmente chegou a nossa vez, e ao ir para o guichê, para nossa surpresa o funcionário da imigração disse que não precisávamos passar por ali, e que deveríamos ir direto para o ambiente reservado para quem fará conexão.

Após caminhar bastante cruzando vários corredores vazios e compridos chegamos finalmente ao ambiente onde esperaríamos pelo nosso voo. Esperamos ali por cerca de duas horas, e então fomos para nosso portão de embarque. Tivemos de passar novamente por detectores de metais, e na minha vez tive de tirar um cinto que tinha uma fivela de metal. Quando eu estava tirando, para minha surpresa e graça, a funcionária do aeroporto que fiscalizava a passagem pelo detector sorriu e começou a bater palma com a mão e se mexer como que rebolando e dizendo: “Tira, tira, tira..”. Achei muito engraçado e fiquei feliz encontrar uma pessoa com tão bom humor.

Entrada em Londres Chegada em Londres, antes da imigração

Pisando na terra da rainha

Seguimos então num voo de duas   e meia com destino a Londres. Finalmente pisaríamos em terras britânicas, que sempre fez parte de meu imaginário, seja pelas inúmeras histórias de cavaleiros, batalhas homéricas, pela tradição milenar que correu o mundo com sua pontualidade e chá das cinco, seja pelos contos de magia, elfos e senhor dos anéis ou pela tremenda opressão e exploração que o império britânico deixou registrado na história.

Apesar de toda civilidade e desenvolvimento deste reino, temos de nos lembrar que seu passado não é tão glorioso, pois os britânicos enriqueceram devido às conquistas e exploração de terras na época das grandes navegações, exploração de colônias pelo mundo, especialmente na América do norte, na África e na Ásia, extraindo as riquezas e levando degradados para estas novas terras.

 

Nervoso na imigração - será que vamos entrar?

Ao desembarcar, fomos para a imigração. Eu estava um pouco nervoso, pois apesar de o Reino Unido não exigir pré-visto de brasileiros, pode negar a entrada, caso o candidato não atenda às exigências, ou caso o agente de imigração não esteja de bom humor ou não simpatize com você. Investir um dinheiro considerável numa viagem como essa, para depois ser barrado na entrada ao país seria realmente um desastre.

Fomos ao guichê os quatro juntos, e foi eu que me dirigi à agente. Forneci a ela o passaporte, e a primeira coisa que perguntou foi: “O que vieram fazer no Reino Unido?”. Eu prontamente respondi: Estudar inglês. Ela então perguntou se tínhamos a carta de aceitação da escola, assim como a passagem de volta para o Brasil. Como tínhamos tudo, rapidamente ela percebeu que o que solicitasse seria mostrado, logo foi carimbando os passaportes e liberando a todos nós. Foi um alívio passar pelo que poderia ser uma grade frustração, como relatam alguns brasileiros que foram deportados.

Para ficar como dica, os documentos que tínhamos em mão que podiam ser solicitados eram:

  • Passagem aérea de ida e volta
  • Carta de aceitação da escola onde estudaríamos inglês em Londres
  • Carta de aceitação da família que iria nos receber como hóspedes no sistema de intercâmbio
  • Passaporte com validade mínima de 6 meses a contar a partir da data de entrada no país
  • 500 libras em dinheiro e mais cartão de crédito internacional com a cópia da última fatura mostrando o limite
  • Declaração da empresa, em inglês, informando onde cada um trabalhava e que o emprego estaria nos esperando na volta
  • Reserva dos hotéis em Bruxelas e Amsterdã
  • Tickets dos trens para Bruxelas-Amsterdã-Londres
  • Roteiro completo da nossa viagem, em inglês

Fica em nós

Havíamos combinado entre nós que não falaríamos sobre nossa ida para Bruxelas e Amsterdã. Ficaria confuso demais para explicar todo o roteiro de ida e volta. Falaríamos somente que iríamos estudar em Londres.

Se por acaso fosse perguntado daí explicaríamos que na nossa chegada iríamos a outros países para visitar e em seguida voltaríamos para iniciar nossos estudos. Durante minhas pesquisas vi alguns relatos de pessoas que tiveram a entrada negada.

Algumas chegaram a dizer que o oficial de imigração perguntou o nome de alguns pontos turísticos de Londres e como o viajante não soube responder o oficial negou a entrada! Por essa e várias outras histórias insisti com todos durante nossas preparações para que tivéssemos tudo, tudo que pudesse ser solicitado. A lógica é simples: tenha tudo que pode ser solicitado e torça para que não seja solicitado quase nada. Foi assim que aconteceu conosco.

Visto de entrada Visto de entrada

DE londres para a Bélgica

Momento de tensão transpassado, fomos pegar as nossas malas, e em seguida nos informamos como poderíamos ir do aeroporto Heathrow para a Estação internacional de trem Stª Pancras, que é onde pegaríamos nosso trem para Bruxelas, na Bélgica. Tínhamos programado a viagem de trem para cinco horas depois do nosso horário de desembarque no aeroporto de Londres, pois caso houvesse atraso no voo, ainda assim seríamos capazes de ter tempo hábil para pegar o trem.

Pagamos cinco libras cada um no bilhete de metrô que nos levaria para a estação. Pegaríamos a linha chamada Piccadilly, que mais na frente seria muito famosa no nosso cotidiano. O aeroporto Heathrow fica fora da cidade de Londres, na zona 6 da chamada Great London. Portanto, levamos cerca de uma hora para chegar até a estação Stª Pancras. Esta estação é o local de onde sai os trens do Euro trem, que liga quase toda a Europa, inclusive no caso do Reino Unido, passando por baixo do oceano. Nesse trajeto da linha Piccadilly já pudemos  observar os cidadãos londrinos. O jeito de se vestirem e o comportamento foram os aspectos que mais prestamos atenção.

Aguardando o trem em Londres Aguardando o trem em Londres

Estação St Pancras e Trem europeu

Saltamos na estação que se integra com o trem europeu, o metrô e o serviço de trem de superfície. A estação Stª Pancras é muito grande e muito bonita. Estávamos ansiosos para viajar no trem europeu, mais teríamos de esperar algumas horas ainda, pois como por segurança colocamos um intervalo de 5 horas, ainda tínhamos cerca de três horas, já que tudo correra dentro do tempo esperado. Aproveitamos então para tirar várias fotos, e para nossa alegria descobrimos uma rede WIFI gratuita da estação.

Ficamos então os quatro plugados na internet postando fotos e comentários nas redes sociais. Depois de algum tempo compramos alguns alimentos e seguimos para a área de embarque da estação. O procedimento de embarque foi muito parecido com um de aeroporto. Passamos então pela imigração  (estávamos saindo do Reino Unido), mas para nossa surpresa não passamos por imigração para entrada na Bélgica, que era nosso destino.

Embarcando no trem europeu Embarcando no trem europeu

Reino Unido permite live circulação

Apesar de o Reino Unido fazer parte da União Europeia, ele não assinou o acordo de Schengen, que implementa a livre circulação de pessoas entre os países signatários. Basicamente, depois que você entra em dos países que fazem parte do acordo, você não precisa passar por imigração para sair e entrar em outros países integrantes do acordo.

Entretanto, como o Reino Unido não faz parte do acordo, tecnicamente estaríamos entrando na chamada zona de Schengen  a partir da entrada na Bélgica, e por tanto se pressupunha que passaríamos por imigração. Imagino que como é sabido que de uma forma geral a fronteira de imigração do Reino Unido é mais rigorosa que a dos países da zona do Schengen, não fazia muito sentido manter financeiramente o custo da imigração para pessoas que estavam vindo de lá. O ruim disso tudo é que ficamos sem nosso carimbo de entrada na Bélgica!

Comprando passagens do trem europeu

Por termos comprado as passagens de trem com muita antecedência (3 meses) conseguimos um preço bom. Poucos dias antes do início da nossa viagem verifiquei o preço e estava o dobro. Então a dica é: se puder compre passagens para o trem europeu com bastante antecedência para conseguir um bom desconto. Há uma versão do site Rail Europe em português no endereço http://www.raileurope.com.br. Os valores também podem ser pagos em reais, evitando o pagamento de IOF de 6,38% que incide em compras feitas no exterior.

Se desejar é possível pagar uma taxa e receber os tickets em casa, via correios. Nós optamos ficar com a versão digital da passagem e imprimir. O trecho Londres-Bruxelas custou R$ 106,00; o trecho Bruxelas-Amsterdã custou R$ 102,00; o trecho Amsterdã-Londres custou R$ 271,00. Esses valores são por pessoa e além disso há uma estranha taxa de pagamento de R$ 24,00 e uma taxa de reserva de R$ 199,00. Como compramos as passagens em conjunto diluímos essas taxas entre as passagens. Ao final saiu R$ 593,00 para cada um para todo o trecho Londres-Bruxelas-Amsterdã-Bruxelas-Londres.

Aguardando o trem em Londres Aguardando o trem em Londres

Inglês mal humorado

Após sair oficialmente do país algumas horas após entrar no Reino Unido, subimos para as plataformas de embarque, e fomos procurar nosso trem. Ficamos na dúvida, por que neste lugar especificamente não havia muita sinalização, e estava praticamente deserto. Tá certo que estávamos um pouco antecipados, mas mesmo assim nos surpreendeu. Havia várias plataformas, e não queríamos pegar o trem errado.

Após alguns minutos finalmente conseguimos encontrar um funcionário inglês (um pouco mal humorado, diga-se de passagem), que nos confirmou que o nosso lugar de embarque era ali mesmo onde estávamos. O trem já estava lá, mas não vimos nenhuma indicação no mesmo sobre seu destino. Após a confirmação, entramos no trem que ainda não tinha nenhum passageiro.

ESPERAMOS QUE vá para a bélgica!

Após algum tempo começou a aparecer outros passageiros, tão ou mais em dúvidas do que nós. O engraçado é que nos perguntavam se o trem ia para Bruxelas, e nós dizíamos: “I hope so!” (risos). Ao nosso lado sentaram um colombiano e um indiano. Começamos a conversar por um assunto no mínimo estranho. O colombiano estava com uma mala gigante, que não entrava no maleiro e nem debaixo do assento, e ficava atrapalhando a passagem no corredor. Começamos a dar risada, e a perguntar o que ele levava ali dentro. Fizemos piadinhas e dizemos que tinha um corpo na mala, e complementamos dizendo “dead”. Nossa! Todo mundo riu!

Depois especulamos que ele colocou a namorada na mala para ela não pagar passagem, e todo mundo riu novamente. Foi muito engraçado. Foi então que o indiano perguntou de onde éramos (estávamos conversando e brincando em inglês, então ele não tinha como saber), e respondemos que éramos do Brasil. Para minha surpresa ele perguntou que idioma falávamos no Brasil, e eu respondi. Depois de algum tempo começou uma discussão besta sobre futebol (já que Wesley gosta de torcer por time e coisa e tal, e nós três não), que não estava nada agradável. Logo depois se encerrou e eu particularmente passei a prestar atenção na paisagem.

 

Embarque no trem europeu Embarque no trem europeu

O trem por baixo do oceano

Apesar do Reino unido ser habitado e ter começado sua urbanização muito cedo, e apesar do desenvolvimento econômico da ilha, é incrível como a maior parte do Reino é ainda rural. O trem andava, e o que eu via era plantações, vegetações e pouquíssimas casas (exceto quando passava por alguma parte urbana).

A maior parte do tempo o trem seguia na superfície, mas em alguns momentos passava por alguns túneis. Dessa forma, não teve como perceber o momento em que ele entrou no túnel para passar por baixo do mar que separa a ilha da Grã-Bretanha do continente europeu. O engraçado é que todo mundo me pergunta: “E então, como foi passar por baixo do oceano de trem?”. E eu sempre tenho de dizer: infelizmente nada de especial, pois não dá para saber quando você tá passando pelo canal da mancha. Além disso, se soubesse tudo que veria pela janela seria a escuridão que há no túnel.

Trem, use sempre que possível

Nossa primeira viagem num trem internacional foi muito boa. Era bem espaçoso, com poltronas confortáveis e com bastante espaço entre as mesmas, bem diferente dos voos de classe econômica. O acabamento interno do trem também era bom, nos dando uma ótima primeira impressão. O que achei interessante foi que as poltronas tinham uma espécie de encosto lateral de cabeça. Assim, quando um passageiro adormecia, a cabeça não ficava caindo para o lado, pois ficava encostada nesse artefato. Muito boa a ideia!

Pegamos o trem 19h30min e chegamos a Bruxelas 22h30min. Entretanto nos confundimos, pois esquecemos que havia mais um fuso em relação a Londres. Como o trem tinha múltiplas paradas e não ajustamos o relógio, quando o trem parou no destino final (que para nossa sorte era Bruxelas) no meu relógio ainda era 21h30min. Como todos desceram, rapidamente percebemos que aquela era nossa estação, já que estávamos na estação Midi Brussels.

Antes da viagem, ainda no Brasil eu já tinha baixado o mapa da Bélgica no meu Nokia (que tinha GPS) e salvo o endereço do hotel em favoritos no programa. Reservamos esse hotel, entre outros fatores, justamente por que ficava perto da estação que desceríamos, já que chegaríamos tão tarde. Eram 1.4 quilômetros, e daria para ir andando tranquilamente.

Vamos a pé

Chegamos a perguntar num táxi quando sairia para nos levar ao hotel, mas para nossa surpresa o taxista nem chegou a dizer o valor e disse que poderíamos ir andando! Parece que ela estava numa daquelas filas de taxi e não queria perder sua posição na mesma para uma corrida tão curta. Graças ao meu Nokia que tem realmente um sistema de GPS que funciona off-line, pudemos chegar ao hotel Scandinávia sem nenhuma dificuldade. GPS com mapas pré-baixados que funciona sem nenhum tipo de conexão com operadora é algo essência para um viajante, e nos foi muito útil nessa viagem. Chegamos ao nosso hotel e fomos muito bem recebidos. Fornecemos os passaportes, preenchemos a ficha, pagamos e fomos para o quarto. As instalações eram agradáveis e limpas. O quarto era bom, com um banheiro amplo e camas confortáveis. Foi um ótimo custo-benefício, pois estávamos pagando o equivalente a R$ 67,00 reais por noite por pessoa, já que conseguimos um quarto quádruplo.

Mais informações sobre a Bélgica

O país que estávamos conhecendo, a Bélgica, tem cerca de 11 milhões de habitantes, é um dos fundadores da União Européia e bem pequeno, mais ou menos do tamanho do estado do Ceará. O PIB do ano de 2010 foi de pouco mais de 300 bilhões, que é cerca de 8 vezes menor que o do Brasil. Entretanto, proporcionalmente a Bélgica é mais rica, já que tem uma população muito menor,  e uma equalização social bem melhor que a do nosso país. Diferente do Brasil, a Bélgica não tem uma unidade linguística, sendo que na região norte fala dutch (também conhecido como neerlandês), na parte sul francês e numa pequena parte a leste alemão. A exceção é a região que engloba a capital, que fala tanto francês quanto dutch. Apesar de não ser uma das economias mais importantes da Europa, é sede da União Europeia, do parlamento europeu, assim como de vários outros organismos internacionais, como a OTAN. Talvez justamente por sua relativa neutralidade.

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