Relato de viagem

Trecking no Monte Roraima: de Santa Elena ao Acampamento Base

Nós partimos de Santa Elena cerca de 10 da manhã. O guia Gregory Lanz chegou cerca de 8 horas na pousada Michelle e disse que estava providenciado os mantimentos que levaríamos na expedição e o transporte. Cerca de 10 da manhã um Toyota chegou com um motorista venezuelano que parecia um armário (mas muito simpático) e com um indígena sentada no banco de trás. Nos surpreendeu a quantidade de mantimentos. Era umas três sacolas grandes, que no total devia dar uns 40 quilos de comida e utensílios. A partir daquele ponto tivemos um certeza: fome não passaríamos! Veja todos os detalhes de como chegar em Santa Elena e no Roraima e o índice geral dos relatos do Roraima.

Trajeto de jipe de Santa Elena até Paraitepuy Trajeto de jipe de Santa Elena até Paraitepuy

 

Entramos todos no Toyota e de Santa Elena seguimos para Paraitepuy. Um primeiro trecho foi 65 km de asfalto pela Routa 10 e depois pegamos um estrada de barro, ou carretera rústica, como eles chamam, por 25 km até Paraitepuy. No trajeto de asfalto passamos por uma barreira policial onde foram pedidas as autorizações para entrada no parque Canaíma e foram conferidos os vistos.

O guia, quando ainda estávamos no Brasil, havia pedido cópia dos nossos passaportes para poder tirar a autorizações de entrada no parque. Além disso vale lembrar que apesar de ser possível passar pela fronteira e entrar na Venezuela sem carimbar o passaporte essa liberação só vale para quem vai até a cidade de Santa Elena. Se você não tiver o passaporte carimbado e for pego além de Santa Elena (como por exemplo nessa estrada que passamos) pode ter problemas e ser mandado de volta ao Brasil. Veja mais detalhes sobre como passar pela fronteira.

1º DIA: PARAITEPUY AO ACAMPAMENTO TEK

Distância: 12 km | Esforço: moderado
Temperatura: 14-19 graus | Tempo: 4,5 horas

Chegando em Paraitepuy o Toyota parou ao lado de uma espécie de bar, mas bem simples. O chão era de barro, tenhas de metal e paredes de tábuas. Gregory, o guia, providenciou um lanche com pães brancos e um suco extremamente açucarado. Eu fiquei só com o pão e logo ele me perguntou se eu queri refrigerante. Eu então esclareci que não tomava essas coisas açucaras e preferia um suco natural. Como não tinha fiquei tranquilamente com minha água.

 

Base de saída em Paraitepuy Base de saída em Paraitepuy

 

Em quanto comíamos o lanche um carregador (que eles chamam de porteador) chamado Augusto começou a arrumar uma parte dos mantimentos numa espécie de mochila indígena. Era feita de fibras de madeira, num estilo bem rústico. O mais surpreendente, no entanto foi a carga que ele colocou. Tinha uns 20 km e de mantimentos e considerando que nas mochilas modernas, que são anatômicas e confortáveis, 15 kg já é uma carga exagerada me pareceu bem desafiador carregar aquilo tudo.

Enquanto Augusto preparava sua carga nós fomos colocar nosso nome e assinar uma planilha de controle de entrada no parque. O funcionário do parque aparentemente era um morador da comunidade, mas estava com uma farda marrom, bem velhinha. Pude perceber também que o nosso guia deu algum dinheiro para ele. Não sei se foi um pagamento de uma taxa ou uma gorjeta mesmo.

Mochila indígena Mochila indígena

 

Estava calor mas de vez em quando chovia rápido e voltava a ficar quente. A partir desse ponto lembre-se de deixar uma roupa de chuva leve e fácil para tirar e colocar várias vezes durante o percurso. Quando acaba a chuva fica quente e é bem desconfortável continuar com a roupa de chuva. Outra dica importante é ter uma capa de chuva também para a mochila. Gregory, como pensava em tudo, levou grandes sacos plásticos para cobrirmos as mochilas. Eu já tinha uma capa mas achei melhor mantê-la seca e também usei.

Iniciando a trilha para o Monte Roraima Iniciando a trilha para o Monte Roraima

 

Nesse primeiro dia andamos 12 km até o acampamento Tek. É um trecho mais ou menos plano, com poucas subidas e descidas no início.

A temperatura durante a trilha ficou entre 17 e 19 graus. A vegetação é de savana e a vista quase sempre alcança longe, sendo possível as vezes ver lá longe o Monte Roraima. Como a trilha era bem larga e visível e nós estávamos andando num bom ritmo o guia disse que poderíamos ir na frente se quiséssemos e marcou um ponto onde podíamos parar e esperá-lo bem à frente.

O guia estava andando um pouco lento para acompanhar a indígena que havia vindo no Toyota conosco e que descobrimos que ele seria a cozinheira da expedição. Ela se chamava Santiaga e andava bem devagar.

Parque Nacional Canaíma  - acampamento Tek Parque Nacional Canaíma - acampamento Tek

 

Chegamos no acampamento Tek 17:30, tendo ainda meia hora de sol para armar a barraca. O Tek é um acampamento é fica numa área plana, bem pertinho do rio de mesmo nome e tem algumas construções rústicas. São casas de tábuas ou pau-a-pique e chão de barro. Essas instalações são de propriedade de uma moradora local e ela cobra para acampar por lá e usar as instalações. No nosso caso esse custo já estava incluso no que pagamos ao guia.

Acampamento Tek Acampamento Tek

 

O guia e a cozinheira chegaram cerca de meia hora depois de nós. Armaram acampamento e logo foram cuidar de preparar a janta. Eu não estou acostumado com ter alguém preparando comida para mim e trilha. Normalmente eu mesmo faço isso. Mas o esquema lá é assim e mesmo oferecendo ajuda o guia não quis. Nesse primeira refeição quente foi servido um peixe frito com macarrão. O sabor estava bom mas estava um pouco oleoso demais. Além disso a quantidade deixou um pouco a desejar.

2º dia: Acampamento Tek a acampamento base

Distância: 11 km | Esforço: intenso
Temperatura12-14 graus | Tempo4 horas

No segundo dia na trilha acordamos no Tek e a primeira coisa que fiz foi ir no rio escovar os dentes e tomar um banho. Estava um pouco frio e como os mosquitos também atacavam bastante fui de calça e segunda pele. No acampamento Tek estávamos a uma altitude de 1400 metros e de manhã estava fazendo 12 graus.

Café da manhã no acampamento Tek Café da manhã no acampamento Tek

 

Logo depois do asseio o café estava pronto. Foram ovos mexidos, pães e um café com leite. Os pães eram de algo parecido com puba feitos na hora por ele! Estava tudo gostoso e logo depois da refeição desmontamos a barraca e zarpamos.

Saímos 9 da manhã do Tek e chegarmos no acampamento base às 14:00. Esse trecho é bem diferente do anterior. Há muito mais subidas no início e do meio para a metade se converte em ascensão quase constante, sendo necessário parar com certa frequência. Não são, em geral subidas extremamente íngremes, mas exigem esforço e água no cantil.

Chegando ao Acampamento Base do Roraima Chegando ao Acampamento Base do Roraima(vídeo)

Cerca de uma hora depois do início da trilha passamos por uma igrejinha e depois cruzamos dois braços do rio Kukenan. em seguida passamos pelo acampamento chamado Refúgio Kukenan. O rio Kukenan é bem largo e o segundo braço tem um volume de água bem grande. Há cordas para auxiliar a travessia mas é necessário cuidado, especialmente se estiver com a mochila nas costas.

Travessia do Rio Kukenan na Venezuela Travessia do Rio Kukenan na Venezuela(vídeo)

Não há perigo de morrer, mas se você cair e molhar todas as coisas na mochila vai passar por um grande perrengue nos próximos dias de trilha. A dica é tirar o sapato e atravessar de meia, pois escorrega bem menos do que se estiver descalço. Separe uma meia reserva para isso.

Encontro com o paulista Carlos no Roraima Encontro com o paulista Carlos no Roraima

Nesse trajeto encontramos as primeiras pessoas que vimos descendo do Roraima. O primeiro contato visual foi com um rapaz. Cerca de uma hora depois encontramos um três pessoas. Dois alemães e um paulista chamado Carlos. Eles nos contaram que estavam fazendo a trilha de 6 dias, sendo que tinham ficado 2 dias no topo e nesses dois dias tinha ficado o tempo todo nublado, sem possibilidade de tirar boas fotos.

Continuamos caminhando por mais uma hora e meia e passamos por outros visitantes descendo com cara de morto. Estávamos com disposição e refletimos se quando voltássemos, na descida, estaríamos como eles. Eu achava que não, mas teria de esperar para ver.

Acampamento Base Militar no pé do Monte Roraima Acampamento Base no pé do Monte Roraima

 

Chegamos então ao acampamento Base. Esse acampamento recebe esse nome por ser um ponto de parada criado pelos militares venezuelanos que constantemente fazem essa trilha para patrulhar a tríplice fronteira existente no platô do Roraima. Há no acampamento algumas estruturas de madeira onde os guias colocam suas lonas e assim criam um abrigo para poder cozinhar. Esteja atento que não há muito espaço bom para acampar no acampamento e se você for em alta estação poderá ter de armar sua barraca um pouco mais afastado.

Timelapse - Acampamento Base do Monte Roraima Timelapse - Acampamento Base do Monte Roraima (vídeo)

No meio do acampamento há um córrego bem caudaloso de onde se pode beber água, mas para tomar banho há um outro cerca de 3 minutos adiante do acampamento. Nesse segundo há um poço onde é possível mergulhar. A água é gélida (marquei e estava 7,6 graus) e por isso, apesar da coragem, tive de tomar um banho bem rápido para não ficar com hipotermia. Esse banho foi mai gelado do que o mais gelado que eu já tinha tomado: numa praia de Dover, no Reino Unido.

Banho com água a 7,6 graus no Acamapmento Base Banho com água a 7,6 graus no Acamapmento Base

 

Depois do banho armamos nossa barraca e logo em seguida Augusto nos trouxe, a pedido do guia, chocolate quente e pão com ovos. Humm, estava um delícia e era tudo que queríamos naquele frio. Estávamos a 1835 metros e com 12 graus de temperatura. A noite prometia ser fria mais confortável,  pois armamos a barraca em cima de uma moite que parecia bem macia!

Cozinha improvisada no Acampamento Base Cozinha improvisada no Acampamento Base

 

 

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