Relato de viagem

Chegada em Ushuaia, a cidade mais ao sul e perto da antártida do mundo

Para nossa surpresa, os táxis que havíamos agendado para o dia anterior chegaram às 07:15, apesar de termos marcado 07:30. Através do telefone do local onde tomamos o “desayuno”  no hotel, recebemos e informação de que já estavam nos aguardando. Um era um spacefox, e outro um Renault Clio. Os motoristas estavam muito bem vestidos e tinham uma expressão bem séria. Foram gentis, como se espera, ajudando com as malas.

Eu e Cristiane fomos os primeiros a descer, e entrarmos no taxi. Um dos motoristas parecia um pouco preocupado com o horário, e depois de cerca de 5 minutos aguardando os outros descerem me perguntou se ainda faltava alguém, como se quisesse dar uma indireta que estava com pressa. Afirmei que sim, e ele aparentemente um pouco contrariado aguardou pacientemente. Cerca de mais cinco minutos depois os outros desceram, e seguimos para o aeroporto. Nos dirigíamos para o aeroparque, um segundo aeroporto de Buenos Aires. Ficava cerca de 20 km do nosso hotel. Nosso vôo saía às 09:10, e por segurança nos programamos para chegar às 08:00.

O aeroparque é antigo, com um design ultrapassado. O teto baixo, dando uma sensação de aperto, diferentemente do que acontece em  construções com o pé direito alto. Estava bem cheio, e tinha filas imensas. Assustamos-nos, e pensamos  que passaríamos horas ali. Como vem acontecendo em quase todo o lugar, encontramos brasileiros. Muitos deles. Felizmente, a fila andou rapidamente, e cerca de vinte minutos depois estávamos fazendo check-in. A atendente teve  certa dificuldade para encontrar as reservas de Wesley, e minha (Amon), mas depois tudo foi resolvido.

Fomos informados que o embarque ocorreria em poucos minutos, e logo seguimos então para a sala de embarque. O piso superior era bem mais aconchegante e belo.  Ao ter acesso à sala de embarque e passarmos pelo raio-x, Marcelino teve der ser revistado, e demos muitas risadas disso. Não deu tempo de sacar a câmera para tirar uma foto dele sendo apalpado no aeroporto.

DSC00414 Aeroporto Ezeiza em Buenos aires

O avião que nos levaria para a Tierra del Fuego era um  McDonnell Douglas MD-80.  Tiramos muitas fotos durante o embarque, e ao entrarmos na aeronave nos sentíamos realmente embarcando para o fim do mundo. Para um lugar longínquo, inóspito, deserto e inacessível. Na minha cabeça vinham diversas imagens que vi durante minhas pesquisas para a preparação da viagem, e me sentia muito feliz por estar tendo  a oportunidade durante minha de visitar um lugar de natureza tão exuberante.

Existe toda uma mística em  volta da patagônia e de seus mistérios e encantos, e estávamos prestes a desvendar alguns deles. Dessa fez nossos assentos não estavam todos próximos. Como no final, o avião não ficou cheio, fomos todos para o final do avião onde havia vários assentos contíguos livres. Ficamos muito peto da turbina, e por isso a zuada era um pouco forte, mas nada que incomodasse muito. Pensei comigo mesmo que não era uma boa opção do ponto de vista da estratégia sentar logo ao lado da turbina, pois em muitos  acidentes os problemas começam com incêndio nas mesmas, e nesse caso seríamos os primeiros a sermos atingidos. Não se tratava de um pensamento negativo, mas um hábito de raciocínio lógico e de precaução que normalmente faço para procurar estar sempre atendo. Mania de velejador, de querer ter todos os fatores e possibilidades bem definidas e possíveis saídas pras mesmas.

O vôo foi muito tranqüilo, o tempo estava muito bom e o céu azul. Foi nos servido um lanche, e depois de cerca de duas horas e meia, começamos avistar as montanhas com neve, e foi aquela alegria. Um tal de tira foto pela janela do avião sem parar, se deliciando com a vista. No fundo tínhamos um pouco de receio em relação ao pouso no aeroporto de Ushuaia, devido à pista estar molhada e não ser das maiores. Entretanto, a aterrissagem foi perfeita e macia. Já tínhamos vindo preparados, vestidos com nossas melhores roupas de frio imaginando a temperatura que nos esperava. O aeroporto do fim do mundo é belíssimo, todo em madeira e vidro, e com aquecimento interno, como era de se esperar. Pequeno, aconchegante e bem organizado.

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Pela primeira vez na viagem nos solicitaram (assim como a todos os passageiros) que abríssemos a mochila de mão. Perguntavam se trazíamos algum alimento, o que era proibido. Não mexiam na mochila, somente pediam para que abríssemos, e davam uma olhada rápida. Trata-se de controle sanitário, para evitar que doenças ou alimentos contaminados entrem na cidade.

Ao sair do aeroporto, a temperatura nos impressionou. Era muito frio, e a paisagem era deslumbrante. Algo mais do que digno do cinema. Montanhas muitos altas para todos os lados, com a vegetação toda sem folhas, com os picos todos cobertos de neve. Sentíamos-nos  muito felizes de chegarmos à cidade mais austral do mundo. Daqui saem passeios para a Antártida, e é chamada de cidade do fim do mundo justamente por não haver nenhuma outra mais ao sul depois dela.  É uma cidade muito falada, comentada e recomendada por aqueles que sonham em viver a vida intensamente e conhecer os lugares mais belos, exóticos e desafiadores do mundo. Com certeza  Ushuaia é uma delas.  Apesar de ser tão longe de tudo, é uma cidade de médio porte, tendo cerca de noventa mil habitantes, e uma infra-estrutura muito boa. É uma cidade que vive basicamente do turismo. Atraindo visitantes tanto no inverno quanto no verão, que  reservam paisagens muito distintas nessas estações opostas.

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Entramos na fila de táxi, e quando chegou nossa vez o motorista nos informou que custaria 20 pesos dali até a nossa pousada, que coincidentemente tem o nome de Pousada Fin del Mundo. Pudemos ver nesse momento que a o sensor de temperatura do taxi marcava incríveis -5  graus. É bastante frio pra quem mora numa cidade que normalmente marca 30 graus.

Ao chegar à pousada fomos muito bem recepcionados, por uma funcionária muito simpática, que logo de início no disse que não falava inglês, e que a pessoa que falava, com a qual eu havia me comunicado, chegaria mais tarde. Dissemos que não havia problema, que a conseguíamos compreender bem o espanhol, só não falávamos adequadamente. Ela nos apresentou a pousada, que é muito aconchegante. Tem três andares, sendo que a sala de estar fica no pavimento superior, e é um ambiente muito bem decorado e gostoso.

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Como não queríamos perder tempo, deixamos a bagagem, e logo fomos andar pela cidade. Encantávamos-nos com cada coisa que víamos. Parecia que a câmeras não iam dar conta de tamanha sede de captar aquelas imagens e transformar uma emoção tão especial em algo perene, congelado no tempo, como só as fotografias são capazes. Como somos seis, cada foto normalmente era repetida, pois como tudo era belo, quando um pedia uma foto, todos gostavam e queriam também. Começávamos a ver um cenário para nós apaixonante.

Casinhas toda de madeira, cobertas de neve, inclusive com a água que escorreria do telhado congelado em pleno ápice da gravidade, como se tivesse sido utilizado algum efeito especial, ou dado uma pausa na vida real justamente no momento que a água da chuva deixaria a inclinação do telhado para voltar à terra e continuar seu ciclo. As imagens de carros com os pára-brisas todos cheios de gelo, ruas e calçadas brancas e um frio intenso e algo realmente deslumbrante. Quando mais andávamos, mais nos surpreendíamos, com tamanha beleza. Seguíamos nosso ímpeto de caminhar em direção às montanhas, e nos aproximarmos cada vez mais de um cenário que mais parecia um quadro, no qual se utilizava recursos tecnológicos de realidade aumentada para nos  inserir ali, bem no meio daquela paisagem, que aos poucos nos acostumávamos.

Júlia e Junior começaram a se queixar do frio, e Júlia mais do pé, que estava sendo molhado pelo contato com o gelo no chão. O sapato que ela tinha escolhido não era muito adequado, e segundo ela, já não sentia mais alguns dedos. Combinamos que ela seguiria para um restaurante para se aquecer, e nos encontraríamos lá depois de esticar nossa caminhada. Continuamos nossa descoberta, ficando cada vez mais felizes pelas constantes surpresas. Pela primeira vez tivemos contato efetivo com a neve. Deliciávamos-nos com a brancura, que mais parecia um sorvete de coco. Era completamente branca e fofa. Pisávamos, afundávamos e ríamos. Tirávamos fotos e mais fotos, sempre subindo, procurando as melhores vistas e melhores fotos. Imagino que a sensação seja semelhante a uma pessoa que vê o mar pela primeira vez. Uma sensação indescritível.

Depois de saciar nossa sede pelo novo e belo mundo da neve, voltamos para o centro da cidade e fomos procurar algo pra comer. O que as vezes atrapalha é que os ambientes internos são aquecidos, e então toda hora tiramos e colocamos um monte de roupa e acessórios de frio.

Eu e Cris e meu pai pedimos um spagetti, e Wesley uma pizza. Exceto a pizza, os outros pedidos tinham uma entrada de salada fria que estava gostosa. Meu pai decidiu pedir uma sopa, que se revelaria um completo fiasco. Não sabemos ainda se todas as sopas aqui são assim, mas essa, data pra beber de canudinho, de tão rala..rs.

Nesse mesmo estabelecimento encontramos alguns brasileiros. Um casal, numa mesa ao lado, com o qual trocamos algumas informações. Eles estavam fazendo o percurso inverso, e indo de Ushuaia para Buenos Aires. Depois conversamos com três brasileiras que sentaram numa mesa à frente, e que também tinham chegado neste mesmo dia. Todas muito simpáticas. O casal era do Rio, e as meninas de Ribeirão Preto. É muito bom encontrar conterrâneos em lugares assim.

De barriga cheia, seguimos para a pousada, onde descobrimos que Júlia tinha comprado um pisante especialmente para a neve, para enfrentar a nova realidade que seguiria daqui para frente. Conversamos com Marcelo, um dos administradores da pousada, que nos deu bastante informações sobre os passeios disponíveis na cidade, e as melhores atividades para se fazer. Ficamos na sala de estar da pousada por algumas horas conversando e vendo algumas fotos e depois disso  fiquei  até tarde atualizando o relato. Esse dia foi muito especial, e sentíamos que agora a viagem tinha começado pra valer, e que a partir daqui é que sentiríamos as maiores emoções.  Até amanhã.

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