Relato de viagem

De ônibus de Ushuaia para Punta Arenas passando pelo estreito de Magalhães

O receio de perder o ônibus era grande, e por isso tínhamos solicitado ao Marcelo (funcionário da pousada Fin del Mundo) para nos acordar as cinco para pegarmos o ônibus às 05:30. Coloquei o alarme para 05:00, mas acordei várias vezes antes disso para ver a hora.  Levantamos rápido, e em poucos minutos o minibus que nos levaria por um trecho de três horas já estava lá fora buzinando. Já estávamos todos prontos, foi só o tempo para abrirmos a porta e embarcarmos.

Estava escuro e eu estava preocupado com a possibilidade de o motorista dormir. Consegui ficar atento  por cerca de meia hora, mas depois peguei no sono. Acho que todos dormiram também.

Ônibus para o Chile Ônibus para o Chile

 

Embarcando para Punta Arenas

Três horas depois desembarcamos numa estação onde pegaríamos o ônibus no qual faríamos o trajeto durante 8 horas. Estávamos um pouco tenso por que no Chile é proibida a entrada no país com produtos alimentícios de origem animal ou vegetal. Como não tínhamos conseguido cambiar nenhum peso chileno não teríamos nenhum dinheiro para lanche durante  a viagem, e por isso compramos várias coisas ainda em Ushuaia para nos alimentarmos durante todo o dia. Tínhamos comprado leite, chocolate, queijo, frutas e várias outras coisas. Ficamos preocupados então em comer tudo antes da fronteira, para não ter de jogar fora.

Sempre que estamos para entrar num país novo ficamos um pouco apreensivo, pois serão outras leis, outra cultura e outra moeda. Entraríamos num país sem nenhum centavo da moeda corrente, e sem um hotel confirmado. Era uma situação no mínimo atípica de se cruzar uma fronteira de ônibus.

Apesar desta apreensão, nos divertíamos, ríamos e dormíamos.  Comissário de bordo do ônibus era muito atencioso e simpático, dando sempre umas risadinhas contidas e sempre se colocando ao dispor quando precisávamos. Logo no início do percurso nos deu dois formulários que deveríamos preencher para entregar quando cruzássemos a fronteira. A partir desse momento surgiram várias dúvidas quando às declarações sanitárias. Depois de chegar a um consenso, preenchemos todos da mesma forma, para manter a uniformidade.

Passando pela imigração do Chile

A primeira parada foi na imigração. Onde entregamos um dos formulários informando nossos dados, nossa procedência e destino. Todos saltaram do ônibus e entraram numa fila dentro do posto de imigração. Dois dos integrantes da nossa viagem, Cris e Junior estavam sem passaporte, somente com a identidade. Como o Chile não faz parte do Mercosul onde existe o acordo de livre circulação somente com o documento de identidade, havia a remota possibilidade, apesar de não ser comum, de não ser autorizada e entrada deles. Graças a Deus tudo ocorreu bem, e todos entraram sem problemas.

Imigração Chilena Imigração Chilena

 

Após isso, já com o ônibus em movimento, o comissário do ônibus veio recolher o formulário da declaração aduaneira, e quem tinha marcado a informação de que trazia consigo produtos de origem animal ou vegetal in natura, ele perguntava qual o produto, e se fosse realmente um que era restrito, ele sorridentemente dizia que tinha de comer. Perguntamos quanto tempo tínhamos para comer, ele disse: “diez minutos” com um sorriso. Tratamos de rapidamente tirar as peras das mochilas e enfiar goela abaixo. Cris preparou um exuberante sandwich com quatro fatias de queijo, e fiquei responsável por comer, para eliminar o produto suspeito de nossa bagagem.

A aduana com regras rígidas

Chegando à aduana, todos tiveram novamente de saltar, pegar suas bagagens e levar para passar num scanner. Todos fizeram fila indiana, esperavam pacientemente. Cris de última hora lembrou que carregava consigo duas beterrabas (até hoje não sabemos para que!), e tratou de jogar na lata de lixo. Júlia ainda guardava na mala um queijo, e ficou numa dúvida extrema se jogava fora ou não. Eu insistia que sim, ela terminou fazendo isso.

Uma resenha imensa e piadas uma atrás da outra começou depois que Marcelino lembrou que tinha na mochila pólen e mel. Na aduana tinha vários panfletos mostrando que pessoas que escondem frutas e outros produtos podem ser presos pela lei do país. Marcelino fazia uma cara de assustado e Wesley perturbava-o dizendo que ele ficaria preso no Chile por contrabando de mel. Eram risadas de todos o tempo todo. Mais uma vez tudo ocorreu de forma tranqüila, e ninguém teve problemas.

A próxima parada seria para fazer a travessia numa balsa do estreito de Magalhães. O histórico estreito mudou a história das grandes navegações, ao ser descoberto por Fernão de Magalhães, numa jornada incansável muito bem narrada no filme da Família Schürmann, onde morreram muitos tripulantes.

Posto de fronteira Argentina-Chile Posto de fronteira Argentina-Chile

 

A travessia do Estreito de Magalhães

Neste ponto que seria feita a travessia do nosso ônibus era a menor largura de todo o estreito. Cerca de 1000 metros. Era uma balsa pequena, que conseguiu levar três carretas, o ônibus e mais alguns veículos menores. O comando da balsa era lateral, e havia um pequeno espaço para os passageiros sentarem. As condições de conservação  da mesma eram muito boas, muito diferente dos ferry-boats de Salvador. Não havia terminal, a balsa baixava uma rampa de ferro que permitia o acesso dos veículos.

Ficamos do lado de fora para tirarmos várias fotos, apesar do frio. A travessia durou cerca de 15 minutos e logo estávamos dentro no ônibus de novo. Dalí para frente seria mais algumas horas de cochilos e fotos através da janela.

Chegamos a Punta Arenas, Chile cerca de 17:30. Era frio da mesma forma, mas os gelos das calçadas eram bem diferentes, facilitando acidentes urbanos. Mais uma vez ao saltarmos do ônibus, fomos abordados com oferta de hotel. Como já tínhamos um mais ou menos certo, o Hostal Oro Fueguino, seguimos para ele. Logo do caminho, encontramos um câmbio aberto e aproveitamos para ter em nossos bolsos nossos primeiros pesos chilenos. Assustamos-nos como a moeda é desvalorizada. Com um real, comprávamos 265 pesos chilenos. Dinheiro na mão, seguimos para nosso hotel, depois de pedir informações. Ficava, por nossa sorte, cinco quadras dali.

Travessia do Canal de Magalhães Travessia do Canal de Magalhães

 

A nossa reserva (que eu tinha feito por internet) não tinha sido confirmada, e tivemos de negociar no balcão. Como não aceitavam cartão, por pouco não fomos para outro. O que nos motivou a ficar foi que fizeram um preço muito interessante se pagássemos em espécie. Dez mil pesos por noite por pessoa, o que equivale a cerca de R$ 37,00.

Calçadas escorregadias em Punta Arenas Calçadas escorregadias em Punta Arenas

 

Saímos para conhecer a cidade. Trata-se de um município com cerca de 120.000 habitantes. Aparentou ser uma cidade organizada e com uma boa qualidade de vida. Compramos algumas lembranças do Chile, e também comprei uma boina. Uma curiosidade interessante é que quando fomos fazer um lanche pedimos um sandwich americano que constava no cardápio, e, quando chegou, era algo mais parecido com cachorro-quente (com um molho por cima e tudo). Apesar de estranho estava saboroso. Vinha servido numa espécie de prato específico para o sandwich. Refeição feita foi hora de voltar ao hotel para escrever e descansar para a jornada do dia seguinte.

Encontrou erros nesse post? Comunique!

Roteiro e Localização

Último local: Salvador - Bahia + detalhes
RBBV Código Criativo