Relato de viagem

Passeio de bicicleta em El Calafate, caminhada pelo lago congelado e ida para Bariloche

Após o café liberamos os quartos, guardamos as mochilas num local indicado pelo hostel e conversamos para ver os interessados na pedalada. Somente Marcelino, Wesley e Eu desejávamos o passeio. Cris disse que nos acompanharia até a loja de aluguel, e depois ficaria passeando pela cidade. Completou que não gostava de bicicleta. Sinceramente é a primeira pessoa que conheço que “não gosta de bicicleta” (risos).

Alugando bikes Alugando bikes

A hora do aluguel custava AR$ 16,00 pesos, e o fracionamento era cobrado de meia em meia hora. O processo do aluguel foi bem simples. Bastava deixar um documento e pagaríamos na volta. A loja tinha duas filiais, e na primeira só havia duas bicicletas disponíveis, por isso fomos à segunda, que ficava algumas quadras dali. Chegando lá preenchemos uma ficha, e fomos verificar as bicicletas. Para meu azar, a que me caberia estava com problemas. A catraca estava passando, indicando por minha experiência que as pecinhas da mesma chamadas “martelos” que ficam dentro da catraca estavam gastas. Mostrei isso à funcionária que estava calibrando o pneu da de Wesley, e sugeri que podia retirar uma das bicicletas na primeira loja. Ela fez uma ligação, e tudo ficou acertado.

Quando chegamos à primeira loja, encontramos Júlia, que logo foi persuadida por Marcelino a participar do passeio. Mais um telefonema desta vez para a segunda loja, e tudo se acertou. Conversamos, e pensamos que seria legal pegar uma filmadora esportiva que Junior tinha. Ela era resistente a choques, água e neve. Daquelas utilizadas por esportistas que fica presa no capacete. Passamos então no hotel e tentamos fixar a mesma no guidão. A amarração não ficou muito boa, e côo o tempo estava passando, decidimos abandonar a idéia, e seguimos para nosso passeio. Nosso primeiro objetivo era ir ao lago Argentino, ver a patinação na maior pista natural do mundo. Como sempre, todos iam tirando fotos. Para trás, para frente e para os lados. Todos queriam sair nas fotos pedalando ao lado da paisagem. Algumas sairiam tremidas, é claro, pois muitas eram tidas pedalando mesmo, sem ao menos parar.

Caminhando no lago congelado Caminhando no lago congelado

Neste trajeto, antes do lago, paramos numa espécie de mirante e podemos ver flamingos. Rapidamente sacamos as câmeras e procuramos as melhores posições para enquadrar aquela ave tão bela. Dali já víamos o lago, e lá distante as pessoas patinando. Pedalando mais um pouco chegamos à rampa que da acesso ao lago, que nesta época era puro gelo. Totalmente congelado. Não era um gelo quebradiço, fofo. Era totalmente empedrado, como rocha.

Descemos, e ficamos ali observando.  Verificamos que a superfície era muito irregular, exigindo certa experiência do patinador. Havia áreas mais lisas, onde se concentravam mais patinadores. Diferentemente dos gelos das calçadas de Punta Arenas, podia-se caminhar com facilidade, sem se escorregar muito. A sensação de estar “caminhando” sobre as águas do lago era muito interessante.

Seguimos então com destino incerto, somente olhando a paisagem e pedalando. As curvas eram escolhidas ao acaso, conforme a vontade de um de outro, sem compromisso com hora, ou destino. Demos uma boa volta pela cidade, inclusive visitando uma parte, digamos, menos turística da cidade. Algum tempo depois olhamos para o relógio e vimos que em cerca de 10 minutos seriam completadas uma hora e meia, e decidimos seguir em direção à loja para devolver os brinquedinhos. Demoramos mais do que calculávamos, e terminamos pagando duas horas. Mas tudo bem, o passeio tinha sido gratificante.

Natureza exuberante Natureza exuberante

O taxi para o aeroporto já tinha sido acertado no dia seguinte, e custaria AR$ 50, pesos cada veículo. Como nosso vôo era às 19:43, calculamos que chegar às 18:30 no aeroporto seria suficiente. Pontualmente eles estavam buzinando na recepção e seguimos com destino ao ainda desconhecido aeroporto de El Calafate, pois havíamos chegado à cidade de ônibus. Ele ficava cerca de 15 quilômetros da cidade, e tinha sido construído em 2002, se não me engano. Era um aeroporto pequeno, mas moderno.

Devido ao tamanho, a fila de check-in era única. Colocamos as bagagens num carrinho e ficamos aguardando. Enquanto conversávamos, notamos que havia outra fila, alguns metros de onde estávamos, onde no guichê havia a palavra “tax”. Já sabendo que em Montevidéu havia uma taxa de embarque que não fora incluída quando da compra da passagem, desconfiamos que teríamos de pagar mais uma neste embarque também. Junior então se dirigiu ao guichê, e poucos minutos depois voltou com a resposta de estávamos isentos da taxa. Quando chegou nossa vez no check-in, informamos que éramos um grupo de seis informamos o código da reserva. Demorou um pouco e a atendente encontrou no sistema e pediu o documento de todos. As bagagens foram sendo colocadas na balança e colocadas por um funcionário na esteira ainda sem movimento. Quando estava terminado a atendente deu um único comprovante de bagagem em nome de Marcelino, como se todas as bagagens fosse dele. Reclamamos, e dissemos que queríamos cada bagagem individualizada, no nome de cada passageiro. A funcionário retrucou e achou ruim, dizendo que  não tínhamos avisado. Ora, desde quando isso tem de ser avisado, disse eu. Isso é o normal. De cara feia, ela refez tudo de novo.

Aeroporto de El Calafate Aeroporto de El Calafate

Quando terminamos o check-in sentamos um pouco nas cadeiras e ficamos aguardando. Eu aproveitei o tempo para atualizar o relato. Poucos minutos depois ouvimos o nome de Marcelino Santana sendo chamado no sistema de som do aeroporto. A mensagem dizia que ele deveria comparecer ao setor do check-in. Ao chegar lá, uma policial de segurança aeroportuária conversou com ele e disse que haviam detectado algo incomum na bagagem dele, e que gostaria que ele a acompanhasse.

Apesar da situação parecer temerosa, demos risada, pois já sabíamos do que se tratava. Marcelino havia levado na mochila uma daquelas tornoseleiras com de chumbo, pra fazer um tal exercício matinal que o ajudaria a manter seu joelho em forma. O pior é que não contente em levar uma, me pediu antes do embarque em salvador que eu levasse uma segunda pra ele, pois era essencial pra sua saúde! O fato é que em toda a viagem ele nunca pediu a que estava comigo, e que levei uma tornozeleira de chumbo de 1 quilo para passear pela América do Sul! Coisas de Marcelino.

Além do peso, os benditos chumbos toda vez empacavam no raio-X. Os oficiais sempre achavam estranho a conformação e a densidade com que aparecia na tela do scanner, e sempre pediam pra ver o que era. Tudo explicado, ele foi liberado e seguimos para a sala de embarque. Para a nossa surpresa, ao tentar entrar na sala, um funcionário exigiu o comprovante de pagamento da taxa. Eu indignado, fui procurar no comprovante eletrônico da passagem se já não haviam cobrado essa taxa, mas na confusão terminamos não encontrado. Junior ficou indignado, pois há poucos minutos atrás tinha perguntado se era necessário e erroneamente o funcionário tinha dito que não. Além disso, a funcionário do check-in também nem nos avisou anda. Que bagunça.

O pior é que só descobrimos isso na hora de entrar na sala, o que podia nos ter sido avisado antes. Essa taxa era diferente das outras, e não podia ser inserida na passagem na hora da compra. Esse aeroporto tinha sido construído por iniciativa privada, e em contrapartida a empresa arrecadava com a taxa. É até compreensível, mas faltou organização da empresa em avisar os passageiros de forma correta.

Mochilas dos seis Mochilas dos seis

Pagamos a taxa, e entramos na sala de embarque. Eu que estava com o note na mão, assim que encontrei um lugar pra sentar continuei a escrever o relato. Já estava no fim de um dia, e queria terminar logo. Em alguns minutos encerrei o dia, e guardei o notebook. Minha próxima distração seria o tenebroso livro sobre o desastre dos Andes. Mostrei a Junior o livro (ele ainda não tinha visto), e ele se interessou muito por ele. Quando eu ia abrir pra começar minha leitura, o embarque foi iniciado. O embarque foi feito em etapas, de acordo com o número do assento.

Apesar do aeroporto ser pequeno, a aeronave da Aerolíneas era a mesma que nos levou para Ushuaia. Já estava escuro, e logo que sentei comecei a ler meu livro. No capítulo que eu estava, o autor descrevia o desespero dos passageiros depois que o avião colidiu com a montanha, se partiu ao meio e matou várias pessoas. Descrevia o frio infernal a 4.000 metros de altitude em pleno Andes, e que só sobreviveram depois que decidiram comer a carne dos que morreram no acidente, que era o único alimento disponível.

No momento em que lia essas páginas, o avião começou a tremer e balançar um pouco. Pensei que seria coisa rápida, mas persistia. Lembrei que estávamos na Argentina, bem próximo aos Andes. Que era noite como no livro e que o avião pela primeira vez na viagem balançava mais do que o normal, com a turbulência incessante. Normalmente não sou muito supersticioso, mas por algum motivo achei que seria melhor fechar o livro! (risos). Lembrei daquele filme Jumanji, onde quando o livro era fechado tudo cessava, e parece que funcionou, pois poucos minutos depois a turbulência parou.

Rua de Bariloche Rua de Bariloche

 

Cerca de duas horas depois estávamos pousando em Bariloche, a Meca do ski na América do sul. Assim que pegamos nossas malas lembramos que não tínhamos nem mesmo o nome do hotel reservado de cabeça, quanto mais o endereço. Tudo estava no email. A missão então era conseguir acessar o email para pegar os dados e seguir num taxi. Saquei o meu smartphone do bolso, e procurei uma rede wi-fi. Infelizmente a única disponível era paga, e o tempo mínimo custava AR$ 20,00 pesos, ou R$ 10,00 reais. Achamos muito caro, e fui procurar outra opção.

Subimos Wesley e eu no elevador para o próximo piso e encontramos um guichê de informações turísticas. Uma simpática atendente nos recebeu com um sorriso, e expliquei a situação. Ela num gesto de flexibilidade e boa vontade cedeu seu computador de trabalho do aeroporto para eu acessar meu email! Nossa, fiquei surpreso, pois normalmente essas coisas são tão burocráticas e impossíveis, e tudo tinha sido resolvido de forma tão fácil. Ela sentada me viu acessando o email, e viu que eu procurava entre diversas reservas de hotéis. Expliquei então que estávamos viajando por três países, e que havia várias reservas, de vários lugares. Rapidamente ela abriu um sorriso ainda maior, e perguntou: “de todos que visitaram qual o país mais bonito?”. Ela mesma respondeu e pediu a confirmação “Argentina, si?” Eu confirmei o que era verdade, ressaltando que especificamente Ushuaia era o lugar mais bonito.

Aproveitando-me da generosidade e da simpatia em excesso da moça, perguntei se havia como imprimir, ela rapidamente deu um telefonema, e desceu conosco, pois sala de impressão ficava em outro lugar. Entrou e já saiu com nossa reserva no papel. Nossa, nunca vi tanta eficiência, simpatia e presteza numa só pessoa. A impressão de Bariloche já estava sendo a melhor possível. Além de tudo isso, ela mesmo providenciou o taxi, e nos disse que bastava esperar sentados, que nos avisaria quando o taxi chegasse. Serviço cinco estrelas!

Entramos no taxi, informei o endereço e seguimos. Vim conversando muito com o taxista. Perguntei sobre o clima, a população, a economia da cidade, entre outras coisas. Ele muito educado respondia a tudo, com muito afinco. Acho que foi a melhor e mais longa conversação mais próxima do espanhol que consegui manter em toda a viagem.

O hotel não era longe, e em cerca de vinte minutos estávamos lá. Logo que descemos vimos que tínhamos uma escadaria imensa à nossa frente, e que teríamos que vencê-la com todas aquelas mochilas nas costas. Subimos degrau por degrau, e a cada final de lance, descobríamos que tinha mais um a ser vencido. Parece que nunca acabava. Finalmente chegamos à recepção, e mostrei a impressão com a confirmação da reserva. Neste momento vi que estava impresso informando o valor total da hospedagem dos seis, por quatro noites de cerca de 1500,00.

Eu sabia que nessa reserva de início tinha havido um erro, e que depois fora corrigido. Junior que tinha encontrado essa hospedagem tinha feito a reserva e tinha me mandado o link para que eu fizesse o pagamento. Após o pagamento, ele me disse que houvera um erro, e depois de dias de comunicação via email e telefone eles tinham finalmente corrigido a reserva que erroneamente tinha sido registrada para quatro pessoas por seis noites. Eu lembrava que o valor total da hospedagem, depois de corrigido era cerca de R$ 800,00 reais, e por isso o valor na folha impressa me causou estranheza. Argumentação pra lá, explicação pra cá, Junior acessa o email pra conferir, e finalmente identificamos o problema. O valor de 1500,00 era em pesos o que faltava pagar! Agora estava correto.

Bom, resolvida dúvida sobre o preço, ele então coçou a explicar as “regras” do local. Parecia até que estávamos sendo admitidos numa empresa. Disse que não era permitido fumar e beber nas dependências e que tínhamos de pagar um garantia no valor de AR$ 20,00 pesos que seria devolvido no último dia. Achei estranho tal exigência, afinal nada disso tinha sido explicado na reserva. Ele retrucou que cada local tinha suas regras, e que lá funcionava assim. Bom, para evitar discussão pagamos, e fomos recebendo as chaves. Deu uma chave para cada de um quarto para quatro pessoas, no caso Cris, Júlia, Junior e Eu, e disse que Marcelino e Wesley ficariam acomodados em outro quarto. Pegamos a chave e fomos subindo nós quatro, enquanto eles dois foram em outra direção, pois o quarto deles era acessado por outra escada.

Nosso hotel flamingo em Bariloche Nosso hotel flamingo em Bariloche

Subimos e fomos colocando nossa bagagem. Acho que Junior desceu pra perguntar alguma coisa, e de repente voltou rápido dizendo para eu descer que tava rolando uma confusão entre meu pai e o atendente. Ele me adiantou dizendo que o “cara” tava querendo colocar eles num quarto com outras pessoas. Indignei-me na hora e desci rápido.

Chegando lá, perguntei o que estava havendo, e meu pai me disse que haviam discutido e quase brigaram de murro. Que o cara era um grosso e estúpido e que queria que ele ficasse num quarto cheio de gente estranha. Inquiri então o atendente, ele disse que tudo estava normal, pois ali era um hostel, e por isso não havia garantia de que todos ficariam no mesmo quarto, e que as habitações poderiam ser compartilhadas. Foi aquela confusão. Todo mundo exaltado, meu pai já nervoso, e eu tentando acalmar os ânimos.  Pedi para ele então me mostrar no email impresso com a confirmação da reserva onde dizia que poderia ser compartilhado, e ele então retrucou dizendo que só o nome hostel já dizia isso. Até aquele momento, nenhum de nós tinha essa informação, de que hostel significa o mesmo que albergue. Na verdade quando fizemos a reserva, procuramos por hospedagem num site de reservas de vários hotéis. Selecionamos a data, o número de pessoas e pronto, pelo menos assim Junior tinha me dito. Ou seja, estava armada uma confusão.

Realmente depois descobrimos que hostel significava isso, mas durante o processo de reserva isso não ficou claro. Aliado a isso, ele apareceu com a tal taxa de garantia, e o pior de tudo é que ele era mal educado e sarcástico. Lembro que quando meu pai disse que não ficaria num quarto com pessoas estranhas por que tinha coisas de valor, ele absurdamente disse que então não trouxéssemos coisas de valor! Além disso, o atendente disse várias coisas absurdas, sempre com má vontade e arrogância. Mal podíamos acreditar que já próximo ao fim da nossa viagem nos depararíamos com uma situação tão ruim. Por pouco a coisa não fica pior e não saímos todos direto pra delegacia.

A solução encontrada depois de mais de uma hora de discussão foi ficarmos ao menos por aquela noite nós quatro, e irmos todos procurar um local, quase uma hora da manhã para Marcelino e Wesley dormirem. Trancamos nosso quarto, e saímos os seis.  Na mesma rua havia outros hostels e também hotéis, e fomos de um em um perguntando.  Depois de uns dois conseguimos vaga para os dois, o que nos aliviou bastante. A minha maior preocupação durante toda a confusão era justamente essa, que se brigássemos todos com o atendente poderíamos ficar todos sem hospedagem, pois era alta estação em Bariloche, e ainda no Brasil, um mês antes de embarcamos passamos o maior sufoco para conseguir essa reserva que se mostrou problemática.

Depois de deixarmos os dois neste outro hostel, decidimos nós quatro, naquele mesmo momento procurar uma outra hospedagem para os próximos três dias. Fomos andando e de hotel em hotel íamos perguntado. Todos sempre nos respondiam que não tinham vaga, com exceção do primeiro que disse haver uma possibilidade de desistência e que voltássemos no dia seguinte pela manhã pra verificarmos. Percorremos cerca de sete hotéis, até que no último recebemos um sim. O preço era um pouco mais caro que o hostel Inn Bariloche, mas estávamos dispostos a pagar sem problemas pra não ter de ver a cara daquele atendente.

Quando voltamos para nossa dormida tenebrosa já era mais de três horas da manhã. Fomos dormir cansados e preocupados com o dia seguinte. Foi o dia mais tenso da viagem, e todos estavam mal. Nem mexi na mochila e dormi com a roupa do corpo, pois no dia seguinte a primeira coisa que faria seria garantir a reserva do outro hotel, pois o recepcionista do Flamingo nos dissera que haveria vaga, mas só no dia seguinte, após as 10:30, depois do check-out.

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