Relato de viagem

Passeios pelo Parque Nacional los Glaciares em El Calafate e o majestoso Perito Moreno

Quando compramos o passeio para o Perito Moreno (para o dia seguinte), fomos informados que o veículo nos pegaria no hotel às 09:00 da manhã. O café da manhã, ao contrário da estrutura do hotel, nos decepcionou. Mesmo assim não podíamos e nem tínhamos motivo para reclamar, devido ao excelente preço que estávamos pagando. Basicamente o desayuno era composto de torradas, geleia, manteiga e café com leite.

O local do café da manhã era amplo, envidraçado e tinha uma temperatura confortável. Todo o hotel era de madeira muito bem tratada. Este ambiente era bastante envidraçado, permitindo que observássemos bem o que se passava do lado de fora. Além de local de café da manhã este ambiente também servia de sala de estar, pois tinha uma TV com um sofazinho e a internet funcionava relativamente bem.

Cozinha do hostel de el Calafate Cozinha do hostel de el Calafate

Pontualmente o ônibus da agência chegou e a guia entrou na recepção e chamou por Santana. O voucher havia sido preenchido no nome de uma pessoa – Marcelino, com a informação de que era um grupo de seis. Entramos no ônibus e percebemos que o mesmo estava vazio. Percebendo que só haviam entrado cinco, e guia perguntou sobre o sexto, que nesse caso era Junior, que após alguns minutos chegou.

Devido à baixa estação e a cidade parecer estar vazia, pensamos que só nós seis participaríamos do passeio. Essa idéia logo foi abandonada quando a guia informou que ainda passaríamos por outros hotéis. Considerei este fato como positivo, pois daríamos uma volta pela cidade por setores que provavelmente não conhecíamos, e poderíamos interagir com outras pessoas no passeio.

Aos poucos o ônibus foi enchendo, até ficar praticamente lotado. Cerca de 30% era de brasileiros, e o restante outras nacionalidades, mas o que mais se ouvia no ônibus era um português. El Calafate todo ano recebe muitos turistas. Mais de cinqüenta por cento de todos os turistas da cidade vêem do Brasil, e isso ficava evidente nesse passeio.

A distância a ser percorrida até o parque nacional onde ficava o glaciar Perito Moreno era de quarenta quilômetros, e levaria cerca de uma hora e meia, devido à neve e às paradas para foto. A primeira parada foi cerca de dez quilômetros da cidade, de onde se tinha uma vista maravilhosa de montanhas e um lago belíssimo. O micro-ônibus parou, todos desceram, e logo outros ônibus de outras agências também pararam, formando um grande aglomerado de turistas, todos com uma câmera na mão e sedentos para capturar a paisagem tão bela. Tiramos muitas fotos, umas das quais foi para a página inicial do site. Fazia cerca de -2 graus, e devido às baixas temperaturas que havíamos pegado, estava confortável. Já havíamos nos acostumado.

Micro ônibus com guia indo para o Perito Moreno Micro ônibus com guia indo para o Perito Moreno

A parada durou cerca de 10 minutos, e logo seguimos nossa viagem. A guia continuou explicando, pausadamente tudo. Falava sobre a história, curiosidades, e dados sobre o parque e a região. Ela falava em espanhol, e depois em inglês, pois havia turistas que não entendiam o espanhol no ônibus. Seu falar era muito claro, pausado e tranqüilo, tornando fácil a compreensão, mesmo para aqueles que tinham dificuldades com o idioma do país.

Ela avisou que a entrada no parque era tarifada pelo governo, e que o custo do ticket era de AR$ 75,00 pesos para estrangeiros e se não me engano AR$ 15,00 para residentes. Junior então fez uma brincadeira dizendo que seu coração era argentino, e a guia rindo disse que isso não era suficiente para conseguir o desconto.

O processo de cobrança da entrada era facilitado, pois o funcionário do parque entra no ônibus e vai cobrando de um a um e dando o bilhete, evitando que todos saltem e tenham de formar filas. Como muitos  já estavam sem dinheiro em espécie, eu paguei a de Júlia, a de Junior, a de Wesley e emprestei AR$ 50,00 pesos para Cris. O dinheiro estava trocado e a cobrança foi rápida.

A próxima parada foi a poucos minutos da entrada, numa curva que tinha um mirador, de onde pela primeira vez se podia ver o famoso glaciar. A vista era lateral, um pouco distante, mas todos sacaram fotos sem parar, afinal não é todo dia que se vê um glaciar, ainda mais o terceiro maior do mundo fora da Antártida. A posição era perfeita pra se tirar fotos com a paisagem e o Perito moreno no fundo. Tiramos várias individuais, em subgrupos, e decidimos como sempre tirar uma dos seis juntos. Marcelino então pediu a um outro turista se podia tirar uma de nós. Ele gentilmente sacou a foto, e depois Marcelino perguntou: “Quer que eu bata uma pra você?”. Nossa, foi aquela gozação. Rimos muito, muito mesmo. Wesley então pegou no pé pra tentar uma revanche das outras gozações que sofrera. Por algumas horas aquela foi a piada do dia.

Ao entrarmos no micro-ônibus a guia perguntou quem desejava fazer um passeio de catamarã pelo lago sul, tendo a oportunidade de chegar a cerca de duzentos e cinqüenta metros do glaciar e tirar lindas fotos. O passeio era opcional, durava cerca de uma hora e meia e custava AR$ 45,00 pesos.  Cerca de 70 por cento do ônibus topou, incluindo nós. Podia se pagar com tarjeta, o que facilitou pra quem não tinha em efetivo.

Marcelino e Amon no barco navegando em direção ao Perito Moreno Marcelino e Amon no barco navegando em direção ao Perito Moreno

Desembarcamos próximo ao cais, pagamos o passeio e já embarcamos. Era um catamarã de cerca de 60 pés, com ambiente externo e superior para vista e interno com calefação. Estava bastante frio, cerca de -8 graus, e muitos foram logo para a parte interna. Wesley que nesse dia estava friorento também foi pra dentro logo, e Cris, Marcelino e eu ficamos na parte superior, onde a vista era melhor.  Conforme o barco se movimentava a sensação térmica era de mais frio ainda, deixando muitos turistas desconfortáveis. Alguns chegaram inclusive a usar o capuz que cobria todo o rosto. Nesse momento conversamos um pouco com um pessoal do Brasil. Eles eram do Rio, e estavam com um amigo que era mexicano. Ele comentou que estava frio, e que achava que estava cerca de dois graus positivo. Eu disse que não, que estava bem menos, cerca de -5 e ele duvidou. Eles tinham vindo direto para El Calafate, e por isso acho que ainda não estavam com muita noção. Eu disse então que mediria, e tirei o meu relógio que estava no pulso, embaixo do casaco e coloquei pra fora, segurando na mão. Expliquei que demoraria vários minutos pra mostrar a temperatura ambiente, pois dentro do casaco, colado no corpo estava aquecido, mostrando a incrível temperatura de 22 graus, deixando claro que a nossas vestimentas funcionavam bem. A temperatura no mostrador foi caindo rapidamente e cerca de 20 minutos depois, o relógio marcava -7.

Panorâmica da navegação no lago do Perito Moreno Panorâmica da navegação no lago do Perito Moreno

O trecho da navegação era curto, cerca de 3 quilômetros ida e volta, mas era feita devagar, parava em vários momentos para tirarmos fotos e mudava o barco de posição também. A cor da água era de um cinza pastoso, dando a sensação que estava prestes a congelar. Conforme nos aproximávamos do glaciar o frio aumentava. Em muitos momentos incomodava, pois com o barco em deslocamento o vento gélido passava pelo rosto levando nosso calor e muitas vezes doendo um pouco as orelhas e o nariz.

O glaciar era lindo. Uma maravilha da natureza, impressionante e imponente. A Altura do nível do lago até o topo é de cerca de 60 metros, equivalente a um prédio de 20 andares e para baixo, submerso o dobro. É um paredão de gelo, Branco e azul, com pontas parecendo navalhas e muitos pedaços que continuamente se depreendem. Infelizmente nesta época que fomos não estava se fazendo o nosso sonhado trekking no gelo, e nossa única opção era admirar essa maravilha de longe. Segundo nossa guia, o glaciar vem  mantendo seu tamanho há 80 anos, passando sempre por um ciclo de perca e reconstrução natural de gelo. Isso foi uma notícia muito boa, pois significa que provavelmente ele vai estar ali por muitos anos ainda, ou até para sempre.

Ainda no ônibus a guia nos explicou que o Perito Moreno é famoso por tempos em tempos apresentar o fenômeno chamado de ruptura. Isto acontece quando o glaciar cresce tanto ao ponto de tocar o continente, isolando o lago norte do lago sul. Então o lago norte começa a aumentar de nível e a fazer pressão sobre o gelo. A pressão chega até um valor que começa a cavar um túnel no Perito Moreno, formando uma ponte de gelo com uma volumosa corredeira por baixo. Vimos alguns vídeos na internet mostrando esse fenômeno e imaginávamos poder presenciar isto aqui, mas nos foi explicado que não há todo ano, e não há uma periodicidade para esse acontecimento.

O barco se aproximou, deu um lado e  ficou com as hélices paradas. Tivemos a oportunidade de tirar muitas fotos com aquele lindo pano de fundo. Não eram todos os locais dos quais podíamos bater boa fotos, e por isso as pessoas se espremiam pra ficar nos melhores cantos. O frio era intenso, mas mesmo assim a maioria das pessoas estava do lado de fora. O catamarã então virou de lado, permitindo que as pessoas que estavam do outro lado então ficassem mais próximas do glaciar. Todos tentavam também capturar o precioso momento de um bloco de gelo se desprendendo, mas parece que ninguém teve essa sorte.

A sensação naquele momento é que estávamos navegando na Antártida, no meio da mais gélida região do planeta, lembrando as navegações polares do Amir Klink. Havia blocos de gelo menores flutuando, que haviam se soltado do glaciar e que flutuando seguiam em direção ao lago sul, semelhante ao que acontece em Torres del Paine, no Chile.

A imponência do Glaciar Perito Moreno A imponência do Glaciar Perito Moreno

Após muitas e muitas fotos, o barco iniciou seu retorno ao cais para desembarque. Neste momento quase todos desceram e foram para a parte abrigada, onde era servido um disputado café quente. Todos repetiam a dose, para tentar aplacar o frio que se impregnara quase nos ossos nos momentos das fotos. O trajeto de retorno era curto, e cerca de 10 minutos depois já estávamos desembarcando. O micro-ônibus da agência já nos esperava, e nos levou para as passarelas que permitem que tenhamos uma vista de pontos diferentes, tendo uma visão mais abrangente do glaciar. Há uma infinidade de passarelas, com vários caminhos, níveis e paradas. Podemos caminhar tanto no sentido sul quando no sentido norte, tendo sempre uma visão panorâmica do Perito. A guia fez questão de enfatizar que todos deveriam estar listos no estacionamento às 15:30. Disse que havia um restaurante, mas que quem tinha trazido lanche também poderia consumi-los nas passarelas sem problemas. Essa passarela eram muito bem construídas, com uma base sólida e infinitos pilares de sustentação. Os corrimões eram de madeira e o piso de metal. No total devia haver alguns quilômetros daquela estrutura que permitia que o turista tirasse lindas fotos.

Primeiramente pegamos uma passarela que ia no sentido sul. De trecho em trecho havia alguns locais para paradas, com banquinhos, e alguns com coberturas. Paramos no terceiro e ficamos ali por algum tempo. Fizemos nosso lanche conversamos e tiramos fotos. Esperamos pacientemente para tentar capturar um bloco de desprendendo, mas não obtivemos sucesso Nesse meio tempo quem veio nos visitar foi um passarinho, que parecia pousar para nossas câmeras, e que foi muito fotografado. Em certo momento pedimos para uma turista que passava para tirar uma foto dos seis, que ficou muito bonita e terminou indo pra capa do site.

Após bastante tempo de espera e sem conseguir registrar um bloco caindo, decidimos voltar e ir no sentido norte. Teríamos outra perspectiva, e de repente de lá talvez conseguíssemos registrar um desprendimento. A vista desse novo ponto era diferente, permitindo tanto ver a face sul quanto norte do glaciar, o que nos dava mais possibilidade de registrar o acontecimento. Em vários momentos ouvíamos o estrondo de um pedaço de gelo rachando e se saltando, mas muitos eram internos, não ficando visível pelas faces. Visualizamos alguns pequenos, mas não conseguimos registrar.

Descida para a observação do Perito Moreno Descida para a observação do Perito Moreno

Naquele novo ponto conversamos com alguns brasileiros. Havia uma menina que viajava sozinha e que aparentemente estava buscando fazer amizades. Junto dela havia um casal com uma filha, que também eram brasileiros. Conversamos todos sobre a viagem, surpresas, o que valia a pena e tudo mais. Nós éramos quem estava fazendo a maior viagem, com mais pontos visitados. Todos ficavam admirados quando explicávamos a rota completa. Infelizmente muitos não sabiam muito sobre Ushuaia, que não é tão famosa quando Bariloche, por exemplo. Explicamos que até ali era o lugar mais bonito que havíamos visitado, e que deviam conhecer.

Já estava quase no horário estabelecido pela agência para estarmos no ponto de encontro. Seguimos então o caminho de volta pela passarela e em poucos minutos estávamos lá. Como ainda faltavam alguns minutos para entrar no ônibus, entramos numa loja de souvenires e ficamos ali matando o tempo. Havia muitas vans, micro-ônibus e veículos de agências em geral. Apesar de ser inverno, o movimento parecia razoável. Fiquei imaginando que no verão aquilo ali deveria ser um formigueiro de gente.

Durante o retorno, a guia também veio explicando algumas coisas, apesar de muitos estarem pouco preocupados em prestar a atenção, pois estavam quase pegando no sono. Ele falou novamente sobre o lago Argentino, que ficava na beira da estrada. Explicou que era o maior lago do país, sendo inclusive maior do que a cidade de Buenos Aires, que é imensa. No caminho mostrou que grande parte do lago no inverno estava congelado por ser pouco profundo (cerca de 1 metro), que era considerado então a maior pista de patinação no gelo natural do mundo. Perguntei então se por ser natural, a superfície não era irregular, dificultando a patinação. Ela disse que era um pouco, mas que mesmo assim dava para patinar.

Como fazíamos o sentindo inverso, o micro-ônibus foi parando de hotel em hotel, e nós fomos os últimos a serem deixados. Ele disse que se alguém desejasse ficar no centro da cidade para passear, era só avisar. Como estávamos com mochilas, decidimos ir primeiro para o hotel e descansar um pouco. Ao chegar à nossa hospedagem, a moleza deu sinal de vida. Júlia e Junior desistiram de sair para passear pela cidade, e fomos em quatro perambular. Nosso local de passeio se resumia normalmente à avenida principal, que era onde se concentrava quase todo o comércio e as principais lojas. Olhávamos preços, víamos lembrancinhas e comprávamos lanches. Algumas lojas tinham preços muito caros, enquanto algumas tinham preços atraentes, normalmente em promoções.

Refeição em el Calafate Refeição em el Calafate

Cristiane estava sempre à procura incessante por canecas para dar de presente e Marcelino por camisas manga larga (risos). Eu não procurava algo específico, mas sim por bons preços e oportunidades de compra. Já Wesley estava sempre a procura por RedBull, que por algum motivo em toda a Argentina eram bem baratos, custando o equivalente a R$ 2 reais e cinqüenta centavos. Após o passeio compramos alguns lanches num mercadinho voltamos para o hotel com o intuito de esquentá-los no micro-ondas da cozinha coletiva do hostel. Já as bebidas eram colocadas do lado de fora da janela para gelar.

Comemos, descansamos, vimos fotos e atualizamos o site. Queríamos agora, pela primeira vez usufruir das instalações da hospedagem, que quase em toda a viagem era usada somente para dormir e nada mais. A noite seria quentinha, com a calefação já funcionando. A dormida foi gostosa.

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