Relato de viagem

Patinação no gelo, queixo quebrado e o último dia na gelada Ushuaia

Depois de algumas fatias de pão integral, leite e ovos revueltos, nos organizamos para irmos patinar numa pista de gerlo natural que ficava na cidade e depois passear no trem do fim do mundo. Junior e Wesley decidiram que iriam um pouco mais tarde. Fomos eu, Júlia, Marcelino e Cris na frente e descemos a Rua Rivadavia até a avenida portuária.

Caminhando pelas calçadas de gelo Caminhando pelas calçadas de gelo

No caminho passamos numa loja de lembranças da patagônia, e adquirimos alguns itens. Comprei um gorro com a palavra patagônia pela bagatela de 10 pesos (R$ 5,00). Comprei também um imã de geladeira, e mais um pingüim esculpido em madeira. Marcelino comprou alguns relógios de parede temáticos, Cris comprou cachecóis e imãs e Júlia se não me engano somente ímãs. A loja fica no meio do caminho, não planejávamos passar por lá, mas foi uma boa oportunidade par levar uma lembrança desta linda terra.

 Ao passarmos perto de uma agregação de vans, uma local simpática veio nos oferecer um passeio para o parque nacional. Disse que saia às 14:00 e que custava 70 pesos por pessoa. Como ainda tínhamos mais de uma hora, decidimos ir para a patinação mesmo, e dependendo do horário que acabássemos iríamos nesse passeio.

Porto congelado Porto congelado

Tiramos muitas fotos na avenida oceânica, da onde podíamos ver alguns veleiros. Imaginávamos como deveria ser difícil a navegação nesta latitude e neste frio. Os barcos deveriam ter calefação interna e deveria ser necessário  roupas secas (dry-suits), que servem para que quando um homem cai ao mar  ele permaneça seco (exceto seu rosto), pois nessas temperaturas, em poucos minutos morreria de hipotermia.

Havia alguns barcos antigos e grandes encalhados e já destruídos pelo mar, dando uma sensação da força da natureza na região. A maioria era de casco de aço, para garantir a estrutura em caso de impacto com pequenos blocos de gelo. Esses barcos ficavam a algumas centenas de metros do local da patinação, e então seguimos para lá.

Manutenção na pista de gelo natural Manutenção na pista de gelo natural

 

Patinando num gelo natural

Avistamos Wesley e Junior já próximo à pista e ao nos aproximarmos eles nos disseram que a pista só abriria às 13:00. Portanto faltavam poucos minutos, pois já era 12:45. Ao chegarmos à pista, verificamos que ainda estava sendo feita uma limpeza. A pessoa utilizava um quadricículo, acoplado numa pá com uma inclinação na dianteira do veículo que fazia que a neve fosse sendo jogada para as laterais. Ele dava voltas e voltas, e aos poucos o gelo duro e plano ia ficando visível, mostrando a qualidade da pista artificial que contava com sistema de resfriamento adquirido no Brasil. Isso se fazia necessário apesar da baixa temperatura do local, pois uma pista de patinação necessita de um gelo compactado e sem falhas, para que o metal do patins não o quebre.

Ingressamos no escritório de apoio da pista de patinação, nos registramos e fomos informados pegaríamos os A$R 15,00 pesos ao término. A pista parecia realmente boa, sem irregularidades. Havia poucas pessoas além de nós, mas aos poucos foram surgindo mais algumas. Havia crianças, adultos mulheres e homens. Alguns eram muito bons naquilo, enquanto outros estavam aprendendo. Eu já tinha andado muito de patins com rodas em linha, então acreditava que não seria tão difícil. O patins parecia confortável, mas Júlia reclamou de um estranho incômodo ao calçar. Marcelino decidiu não tentar para evitar possíveis agravamentos no seu joelho lesionado.

Patinação no gelo natural com vista deslumbrante Patinação no gelo natural com vista deslumbrante

Entramos na pista, e me senti confortável. Apesar de ter muitos anos que eu tinha andado de patins, lembrava bem dos movimentos. Claro que não era a mesma coisa, pois no patins o atrito é maior e a velocidade de deslocamento menor, com a mesma força de impulso. Além disso, nestes patins o final do metal de contato com o gelo é arredondado, o que fazia que eu não pudesse projetar o peso para trás.

O sistema de emergência funciona, eu testei!

Dei algumas dicas do que sabia para os outros, e começamos a brincar. Eu caí algumas vezes, mas estava conseguindo patinar relativamente bem. Como é natural, os que não tinham experiência, tiveram dificuldade. A brincadeira estava boa, todos caíam, inclusive eu - (Amon), mas dávamos muitas risadas. Marcelino ficava registrando tudo, fotografando e filmando. Passados cerca de 20 minutos, eu já estava tentando praticar a realização de curvas com os chamados passos cruzados, quando tomei um tombo feio, e bati com o queixo no chão. Senti o impacto, mas para mim estava tudo normal, já ia levantar para continuar, quando percebi que os outros me olhavam, e logo veio duas funcionárias me dar apoio. Foi então que descobri que eu tinha cortado o queixo. Não parecia nada grave, mas sangrava e me levaram para fora da pista. O proprietário então veio a mim e com muita presteza perguntou se eu estava bem, e disse que iria chamar uma ambulância. Depois da ligação me disse que em 10 minutos estariam ali.

Sendo amparado após cair e cortar o queixo Sendo amparado após cair e cortar o queixo

Ao chegar, o paramédico me examinou e disse que teria de me encaminhar para uma clínica ou um hospital, por que eu precisaria de cerca de três pontos. Perguntou se eu tinha seguro de viagem, e eu afirmei que meu cartão de crédito me fornecia esse seguro. Por ele falar português, o atendimento foi bem mais efetivo e muito cortês. Ele me contou que tinha namorado uma brasileira por dois anos, e por isso aprendera o idioma. Como ele não me explicou como funcionava exatamente o sistema de saúde no país, decidi que seria melhor ir para uma clínica, pois imaginei ser mais rápido o procedimento do que num hospital. Como a cidade era bem pequena o trajeto foi rápido. Eu havia perguntado a ele se a clínica que me levaria aceitava cartão, e ele respondera que sim. Entramos na clínica e logo fui levado para o ambulatório de atendimento. Tudo ocorreu de forma tranqüila, pois eu não sentia dor alguma, e com o frio, rapidamente o sangramento tinha sido estancado.

Um médico argentino que fala português

Ao entrar na sala de atendimento, novamente me surpreendi com  o médico da clínica que faria a sutura. Ele também falava português. Claro que não era um português limpo, era carregado com o sotaque característico de um natural de país de língua espanhola, mas era português. Ele me contou que tinha estudado dois anos português durante o período de faculdade. A sutura foi rápida, com anestesia e tudo ocorreu com tranqüilidade. Ele me perguntou se eu tinha vacina anti-tétano com validade, e eu disse que não. Receitou-me então um analgésico por três dias, um anti-inflamatório e uma vacina anti-tétano. Indicou-me uma farmácia onde eu poderia encontrar, e disse que aplicariam a vacina na farmácia onde comprasse. Somente Marcelino tinha vindo comigo, mas assim que terminei a sutura, todos chegaram.

Alguns pontos no queixo custou caro

A surpresa negativa foi na hora de pagar a conta de clínica. A máquina de cartão estava quebrada, e tudo custava A$R 700 pesos, o equivalente a R$ 350 reais. Eu tinha todo em espécie, mas ficaria quase sem dinheiro. Como não tinha outro jeito, paguei uma parte em dólar (com um câmbio muito desfavorável), uma parte em pesos e Marcelino o restante. No mesmo dia à noite eu reembolsaria a parte que meu pai tinha pago.

Da clínica fomos andando para a pousada, e no caminho passamos em muitas lojas olhando preços e procurado por boas ofertas. Compramos comida para o dia seguinte, pois nosso ônibus rumo ao Chile sairia cinco da manhã, e não pegaríamos o café da pousada. Neste retorno também comprei os remédios receitados, e procurei a vacina. Eu conseguia encontrar, mas não estavam aplicando em nenhuma farmácia, pois era feriado e não havia quem aplicasse. Terminei desistindo da vacina e fomos para a pousada.

Tive de parar num hospital público

Era hora de arrumar as malas e deixar tudo pronto para o dia seguinte, mas a questão da vacina ainda me perturbava. Fica com receio de dar um azar e morrer por uma besteira (tétano mata), e decidi então ir providenciar isto. Pedi para uma funcionária da pousada ligar para o hospital local e perguntar se aplicavam. Ele confirmou que sim, mas repassou a informação de que eu tinha de levar a vacina. Marcelino disse que iria comigo, e achei isso muito bom. Seria uma dez quadras para ir e para voltar, e por isso decidimos ir logo, antes de tirar as roupas de frio. No caminho passamos na farmácia e comprei a vacina. Custou A$R 80, 00 pesos.

Seguimos para o hospital e lá descobri que apesar de ser público, para não residentes, havia uma taxa de A$R 20,00 pesos. Paguei e em cerca de 10 minutos fui atendido. Percebiam-se diferenças entre as instalações da clínica particular que eu tinha ido mais cedo e o hospital público no qual eu estava tomando a vacina. Percebi-se que as pessoas eram muito mais humildes e que, como ocorre no Brasil, quase sempre os serviços e instalações particulares são melhores que os públicos.

Apesar disso, o enfermeiro que me aplicou a vacina foi simpático e educado. Para minha surpresa era boliviano. Perguntou minha origem, e trocamos algumas palavras. A calefação da enfermaria era muito boa que cheguei a sentir calor. Saímos do hospital e seguimos para a  pousada.  No caminho comprei uma luva para  Cris (ela tinha perdido a dela mais cedo). Ao chegar à pousada arrumei minha mala, transferi as fotos para o notebook e tratamos de ir dormir, pois o próximo dia começaria bem cedo. A exceção foi Wesley que já tinha arrumado sua mochila, e saiu novamente para comprar umas lembranças.

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