Relato de viagem

Ushuaia: passeio de moto de neve e estação Cerro Catedral no paraíso da neve no fim do mundo

Após um primeiro dia encantador e um bom descanso na aconchegante sala da pousada, acordamos um pouco tarde, até por que o sol nessa latitude (55 graus Sul) só nasce às 9:30. Marcelino estranhou um pouco por que está acostumado a levantar com o sol. Dava sete, oito e nove, e o sol não nascia. Ele chegou a achar que o relógio tava com defeito..rs.

Tomamos um café regado a pão integral, geléia, leite e chocolate. Havíamos conversado com Marcelo, um dos administradores da pousada. Ele havia nos indicado diversos passeios, e informado o valores de cada um. Ficamos um pouco indecisos, mas terminamos optando por logo de manhã providenciar a compra da passagem para nosso próximo destino, Punta Arenas, no Chile, e depois ir para um local chamado Tierra Major, onde poderíamos fazer várias atividades, como andar de moto de nieve, raquetas (tipo de calçado par a neve) e pierros (trenó puxado por cachorros).

Muita alegria Muita alegria

O frio continuava o mesmo, e tivemos de sair bem agasalhados. Desta vez Júlia estava mais confortável com sua nova bota à prova dá’gua, e Junior com seu capuz de ladrão. Descemos a rua Rivadavia algumas quadras, dobramos na San Martin e seguimos para uma agência chamada Comapa. A atendente era muito simpática, e nos atendeu muito bem. Infelizmente para alguns que gostam de acordar mais tarde, só tinha ônibus no dia 10/07 às 5:30 da manhã. Custou 210 pesos, para uma viagem de aproximadamente 600 km e 12 horas, incluindo dois ônibus e a travessia na balsa no estreito de Magalhães.

Após resolver essa  questão, seguimos para um ponto de taxi. Ao entrar no taxi, confirmamos o preço que ficava para nos levar à Tierra Major, e para nossa surpresa o taxista puxou uma tabela e nos informou o preço de 100 pesos. O Marcelo da pousada havia nos informado que seria em torno de 20 pesos. Pensamos rápido, e decidimos seguir mesmo assim, como sempre, em dois taxis.

Estrada gelada Estrada gelada

O comecei a conversar com o taxista, e ele me disse que a distância era em torno de 40 km (bem diferente dos 3 km informado por Marcelo). Parecia que a informação estava desencontrada, mas para mim o taxista parecia muito sincero. Ele então nos falou que existia um outro lugar chamado Las Cotorras, que ficava um pouco depois de Tierra Major, tinha muito mais atrações, e era muito mais bonito. Como era um pouco mais distante, ficaria 10 pesos a mais. Para quem lê esse relato com certeza deve aparentar que o taxista dizia isso somente com o objetivo de ganhar uma corrida maior. Mas para nós que estávamos ali, essa não era a impressão, e o mesmo parecia muito sincero.

Decidimos seguir o conselho e ir para Las Cotorras. Conforme o carro ia avançando, ficávamos estupefatos com a paisagem. Era gelo puro. A pista estava coberta, as montanhas e todas as árvores, assim como a Sibéria na Rússia. Tudo muito gelado, frio e lindo. Em muitos momentos parecia uma paisagem de conto de fadas, com casas toda de madeira, lareira, o telhado todo branco de neve, e as laterais da estrada cheia de neve acumulada pela limpeza do trator passado diariamente. As lindas e imensas montanhas completavam imponentemente a paisagem.

Conforme avançamos, a temperatura caia, pois estávamos indo para o alto das montanhas. Neste momento, fora do carro já fazia -10.5 graus, nos impressionando bastante. Ainda não sentíamos essa temperatura por que dentro do carro havia aquecimento, mas já pensávamos na sensação quando fôssemos deixar o taxi. A vista que tínhamos era algo extasiante, e por mais que eu procure os melhores adjetivos, não serei capaz de explicar e transmitir o que sentíamos. No sentíamos como num reino encantado, onde tudo que nos cercava era especial e fascinante. A pesar da cidade de Ushuaia ser muito bonita, o gelo e neve que tinha nos impressionado no dia anterior era nada comparado a esta nova paisagem. Tudo era branco, pra onde quer que olhássemos.

Deixamos o taxi e pela primeira vez pisamos em montanhas e montanhas de neve fofa acumulada. Parecia sorvete, e a vontade que nos dava era de se jogar na imensidão branca, pegar com as mãos par ter certeza que tudo aqui era mesmo real. Foi exatamente isso que fizemos. Parecia que tínhamos nos tornado criança novamente, e nos vimos jogando blocos de gelo uns nos outros, pulando e jogando neve para cima. Tirar foto era o exercício preferido de todos, em todas as posições, jeitos e poses, para de alguma forma eternizar esse aquele momento em algum lugar além de nossas mentes.

Subida para estação de ski Subida para estação de ski

No local havia uma estrutura interessante, com um restaurante que servia cordeiros assados e outras coisas, um quiosque de aluguel de motos de nieve(snow-mobil), raquetas e  pierros. A cerca de 800 metros dali havia uma estação de esqui chamada Cerro Castor, onde havia um teleférico e toda a estrutura para esquiar e praticar o snow-board. Depois de nos deliciarmos naquela paisagem linda, decidimos antes de alugar qualquer coisa, ir ao Cerro Castor, por que de repente lá poderíamos encontrar melhores preços.

Andamos pela estrada, e acho que foi nesse momento que sentimos mais frio em toda a viagem até aqui. Estava cerca de -12 graus Celsius, e com o vento a sensação térmica devia ser de uma temperatura ainda melhor. Em alguns momentos chegamos até a colocar o capuz que cobre todo o rosto, deixando visível somente o rosto.

Chalé de madeira Chalé de madeira

Apesar do frio, estávamos muito felizes, já que nossa intenção era justamente vim no inverno e sentir toda a força da natureza do local mais próximo da Antártida, assim como apreciar toda  a beleza. Chegamos à estação, e mais uma vez nos surpreendemos. O local era tão ou mais bonito que o anterior, e pela primeira vez víamos uma legítima estação de esqui, com teleférico, pista de descida  e toda a estrutura. Tudo era muito lindo, e todo o equipamento e teleférico eram de excelente qualidade e funcionalidade.  Apesar do preço para subir no teleférico ser mais alto do que nos haviam dito, não pensamos duas vezes. Afinal, chegar a um lugar desses e não aproveitar seria no mínimo um desatino. Pagamos cinqüenta pesos por pessoa, com direito a uma subida e uma descida.

O teleférico tinha uma extensão bem grande, cerca de três quilômetros e tinha uma inclinação entre bastante considerável. Obviamente ele não parava para que as pessoas embarcassem, e tinha uma técnica de como embarcar. Ficávamos no momento certo no local adequado, e na hora que chegava próximo, simplesmente sentávamos, sem que o mesmo parasse, de forma bem rápida.

O movimento na estação era grande, e a todo o momento tinha gente subindo e descendo. A maioria que estava ali subia pelo teleférico e descia esquiando. Como não tínhamos experiência com esse esporte e nem muito tempo, estávamos ali somente para apreciar.

A vista mais linda do mundo A vista mais linda do mundo

Fomos em três cabines, e dessa forma podíamos tirar fotos uns dos outros, tanto no trajeto quanto no embarque. A vista no trajeto era uma coisa deslumbrante e difícil de descrever. Havia um vale com um rio todo congelado que serpenteava a cadeia de montanhas, que nas encostas tinham árvores todas sem folhas e polvilhadas de neve, ficando com uma tonalidade cinza. Na parte mais alta, as montanhas eram todas cobertas de neve, ficando totalmente brancas, como se fosse cobertura de chantilly.

Não cansávamos de tirar fotos, uma atrás da outra, tentando não só capturar a paisagem, mas também enquadrar nosso sentimento de satisfação por sermos seres humanos privilegiados por termos a oportunidade de conhecer um lugar tão belo.

Chegando no final do teleférico, saltamos, e parecia que tínhamos chegado no céu. De forma surpreendente e mágica, cada novo lugar visitado era mais bonito que outro, como se não houvesse limite para a beleza. Era uma ambiente de lazer, onde se via adultos, crianças e jovens todos com seus equipamentos. Havia os experientes, os mais aprendizes e os visitantes como nós. As pistas eram longas, serpenteavam obstáculos, e os esquiadores desciam com fascinante habilidade e desenvoltura uma inclinação considerável. Havia uma estrutura central toda de madeira, muito bela. Servia como restaurante e lanchonete e era muito bem acabada, tanto interna como externamente. Tinha aquecimento central, permitindo que tirássemos todos os aparatos e por algum tempo pudéssemos fechar os olhos e imaginar que entrávamos numa máquina de tele-transporte e pudéssemos nos sentir novamente no nosso clima tropical, o que naquele momento era tudo que não queríamos. Desejávamos sim estar lá fora, sentindo a baixíssima temperatura congelante, geradora de toda aquela beleza.

Entramos para comer um lanche que foi uma decepção. Se é que alguma podia estar ruim naquele momento, era o lanche. Era um sandwich  frio, sem tempero e caro. 35 pesos (R$ 17,50), mas até isso nos divertia, e nos fazia rir, pois nada conseguia diminuir ou anular a nossa felicidade.

Descida no teleférico Descida no teleférico

Apreciamos a paisagem mais um pouco, tiramos muitas fotos e descemos o teleférico, obviamente com as câmeras na mão e fazendo-as trabalhar sem parar, e em baixíssimas temperaturas, num ritmo frenético. Voltamos andando par Las Cotorras rapidamente, para conseguir fazer um dos passeios, pois já era cerca de 16:00. Não havia passeios na estação Cerro Castor, somente a estrutura de esqui e o teleférico.

Chegamos a tempo, e todos foram unânimes em andar nas motos de nieve, exceto Cris, que disse que não iria, para economizar. Conversamos, conversamos, e terminei  decidindo pagar uma sozinho e levar Cris comigo. Era mais uma oportunidade imperdível da minha vida, e não podia ser mesquinho numa situação tão especial. Custava 150 pesos um passeio de 20 minutos, e podiam ir duas pessoas em cada moto. Um guia ia à frente na sua moto, e nós o seguíamos. A temperatura estava bem baixa, e meu relógio que marca temperatura  até -10 já tinha chegado ao mínimo, passando  a mostrar tracinhos, indicando que o frio era pra valer.

Andando de moto de neve Andando de moto de neve

O passeio de moto foi algo mágico. Estava muito frio, e com a velocidade, e o frio era ainda maior. Eu não queria vestir o gorro que cobre a cabeça completamente para poder ser identificado nas fotos. As motos andavam bem e era muito gostosas de pilotar. Funcionam semelhante a um trator de esteira na parte traseira, e na dianteira tem uma espécie de par de esquis, permitindo mudança de direção. Os comandos eram iguais ao de Jet-ski, e como tenho bastante experiências com estes, foi tudo muito fácil. Os outros também não tiveram dificuldades.

Conforme andava, comecei a sentir muito frio no rosto, mas me negava aparecer nas fotos deste momento com um gorro tipo burka..rs. cheguei a vários momentos a parar de sentir as orelhas e algumas partes do rosto, mas prossegui assim, afinal, seriam somente alguns minutos. No meio do caminho onde Wesley e Marcelino  e Júlia e Junior trocaram de lugar (quem estava na garupa passou a pilotar), a moto que eu pilotava não quis pegar na hora de dar partida. O guia tentou, tentou e nada. Parecia que estava afogada. Ele então por rádio chamou um funcionário que trouxe outra moto. Eu nessa situação saí bem, pois a moto substituta era bem mais possante e  bonita. Seguimos o passeio, e as garupas iam tirando fotos e filmando sem parar, registrando todos os momentos dessa aventura inesquecível.

Terminado o passeio, voltamos para a estrutura de apoio da locação e conversamos muito com o proprietário e que foi nosso guia. Coincidentemente ele tinha uma filha que estava estudando capoeira em Salvador, nossa terra. Tiramos fotos com ele e trocamos contatos de email e telefone.

Dirigimo-nos para o restaurante de cordeiro que ficava ao lado, na esperança de comer uma boa comida. Parecia que não dávamos sorte com comida. rs.  A salada não estava ao nosso gosto, o arroz frio e sem tempero e o cordeiro muito gorduroso. Wesley pediu um churrasco, e por um mal entendido, quando perguntado se queria com muito osso, ele respondeu bem passado e parece que o moço (garçom) entendeu bem “ossado’.  Foi motivo de muita chacota e risadas de todos. Ríamos de nossa própria desilusão com a comida que achávamos que seria deliciosa e se apresentou muito ruim para nosso paladar. Coisas de culturas diferentes e gostos diferentes, semelhante ao que aconteceu quando fomos num restaurante árabe numa viagem a Lisboa.

Voltamos de taxi para nossa pousada, e para nossa surpresa os taxis nos cobraram 20 pesos a menos que os taxis que nos trouxeram nos cobraram. Uma surpresa positiva. Vinhemos conversando com o motorista, que era um cidadão argentino bem patriótico e nos relatava seu ponto de vista sobre diversos aspectos políticos e sociais que eu perguntávamos, tanto sobre o Brasil quanto sobre a Argentina. De uma forma geral ele nos dizia que o grande problema atual de seu país e o roubo dos políticos.

Ao chegar à pousada Fim Del Mundo tratamos de atualizar o site, entre outras coisas. Fomos para a sala de estar sempre desejada por todos por seu chá e aperitivos sempre disponíveis e por seu aconchego. O dia seguinte seria de mais diversões.

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