Relato de viagem

Visita ao impressionante parque das Torres del Paine em Puerto Natales no Chile

Às nove horas, embarcamos numa van Hyundai bem nova com destino a Torres Del Paine. Percorreríamos 270 quilômetros para ir e retornar do parque por um custo de 20.000,00 pesos chilenos (equivalente a R$ 80,00 reais). Haveria também o custo de 8.000 pesos para a entrada no parque. Todos esses valores por pessoa.

Indo para a Torres del Paine Indo para a Torres del Paine

Diferentemente do que aconteceu em Punta Arenas, o guia não foi nada bom. Era calado, não entendia o que falávamos, apesar de entendermos o que ele falava. Como havíamos contratado um mini city-tour na cidade, antes de ir em direção ao parque ele passou em alguns pontos da cidade, inclusive num mirante onde tiramos algumas fotos. A cidade era bem pequena, e aparentemente sobrevive em grande parte do turismo, principalmente no verão.

Ainda quando estávamos saindo da cidade, o guia-motorista nos perguntou se queríamos passar na “Cueva del Milodon”. Como não sabíamos o que era e ele não se prontificou a explicar, dissemos que sim. Tratava-se de uma caverna onde havia resquícios de ossada e animais de outras eras, e aparentemente também uma preguiça gigante foi encontrada lá em escavações. Ao saltarmos na estrada desta caverna, recebemos a informação que havia um custo de 150,00 pesos por pessoa. Decidimos não entrar, e seguir para a atração principal, as torres. Íamos sempre fazendo brincadeiras e dando risadas. A paisagem era bem bonita, e tirávamos muitas fotos. Após cerca de quarenta quilômetros, paramos em Cerro Castillho. Havia um entreposto turístico, com muitas lembranças, roupas e livros. A construção era bem bonita e relativamente nova.

Ainda faltavam cerca de 90 quilômetros, mas já começávamos a ver partes das montanhas que compõem o conjunto das torres. Estava bastante frio, e por isso a van seguia com todos os vidros fechados, e as fotos eram tiradas desta forma, correndo o risco de algumas ficaram com reflexos ou embassamentos. Além do trajeto até o parque, percorreríamos dentro do mesmo cerca de cem quilômetros, pois ele é bem brande, tendo 242.000 hectares. A vegetação é bem rala, sem árvores e raríssimos arbustos, semelhante à encontrada no Gerais da Chapada Diamantina. Paramos algumas vezes ao visualizar lhamas, ouguanacos, como eles chamam em espanhol. Não conseguíamos nos aproximar muito, pois eles rapidamente levantavam as orelhas e davam uma carreirinha.

Visualizando a primeiras montanhas do Parque Visualizando a primeiras montanhas do Parque

Depois de mais alguns quilômetros, paramos na queda d’água do parque. Uma cachoeira muito bonita, com um mirante e um vento fortíssimo, que inclusive era destacado numa placa de aviso. O vento era muito frio, dando uma sensação de aproximadamente -13 graus Celsius.

Gelos azuis Gelos azuis

A van estacionou a cerca de 500 metros da queda d’água, e fomos andando. Imaginamos que se alguém caísse naquela água com aquela temperatura, com certeza morreria em poucos minutos de hipotermia, e não de afogamento. Toda a paisagem dentro do parque era deslumbrante, com montanhas imponentes, com muita neve e muito altas. Esse conjunto que foi  erguido devido a movimentos das placas tectônicas a muitos e muitos anos atrás fazia com que o vento fosse canalizado e soprasse com muito mais força do que em outros pontos  A última parada deste passeio foi justamente no ponto mais bonito, onde podemos chegar muito perto de glaciares que boiavam num gélido lago. A cor dos gelos impressionava, pois era num azul reluzente, que se destacava na paisagem. O frio nesse ponto foi intenso, chegando a nos forçar a usar os gorros que cobrem todo rosto só deixando visíveis os olhos. Caminhamos por uma praia de pedra que mais parecia um cenário de filme da época dos dinossauros. Dalí podíamos ver as Torres del Paine toda de pedra e sem gelo do meio para cima. Isto deve acontecer por que elas são muito íngremes, dificultando a fixação de qualquer gelo. Essas duas torres de pedra se destacam na paisagem justamente por serem todas descapadas, em contraste com as outras que eram praticamente todas cobertas de gelo. Os imensos icebergs que víamos próximo à praia eram pedaços de um glaciar que estava no pé das montanhas  que se desprendiam e vinham boiando chegando à pré-histórica praia de pedra.

Para ter acesso a esta praia passávamos por uma floresta que com as árvores todas sem folha, e muitas delas caídas, deixando claro que os ventos eram fortes o suficiente para derrubar esses centenários seres.

Ponto do parque TDP Ponto do parque TDP

A caminhada de ida e volta deve ter sido de cerca de seis quilômetros, que mesmo não sendo longa nos deixou com fome, pois não tínhamos almoçado. Durante nosso retorno pelo bosque de árvores caídas ameaçou chover, inclusive precipitando partículas que estavam na transição entre água e gelo, o que nos fez dar uma corrida, pois se molhar com um frio daquele seria crítico.

Retornamos à van e sentamos, doidos para naquele momento saborear uma deliciosa comida. Mas ali, naquele lugar, não tinha nada. O que nos salvou foram alguns lanches que alguns haviam trazido na mochila, e que foram compartilhados entre todos. De barriga cheia, o retorno foi mais descanso e alguns cochilos do que apreciação da paisagem.

No meio do trajeto pedimos para o motorista nos deixar num restaurante onde pudéssemos comer um salmão, que é característico de locais de águas frias, especialmente na época da desova desta espécie. Sabíamos que devido à abundância da produção local o preço deveria ser muito bom, além do produto ser extremamente fresco. Parece que dessa vez acertamos na comida, pois o prato era muito bem servido, o sabor era delicioso, o preço era bom, e ainda aceitavam tarjeta. A comida deliciosa era composta de um salmão na chapa acebolado, com ovos, purê de batatas e arroz. Uma comida extremamente saudável, que deveria fazer parte do cardápio de todo cidadão no mínimo uma vez por semana. O único inconveniente que só descobrimos  na saída do local é o nome do restaurante, que se chamava La Picá de Carlito, que mais tarde viemos descobrir que significava “A mordida de Carlito”. O polêmico nome foi motivo de muitas risadas, principalmente por que Marcelino durante a degustação fez questão de ressaltar que estava muito saboroso, gostoso, delicioso. Wesley e todos  tentando nos aproveitarmos o gancho fizemos  piadinhas sobre isso até o dia seguinte.

Flamingo em El Calafate Flamingo em El Calafate

O restaurante ficava a poucas quadras do hotel. Fomos andando, e neste retorno percebemos que o local que desembarcamos quando chegamos à cidade ficava nada mais de uma quadra do hotel. Incucados, fomos ao terminal, e perguntamos se na cidade havia outro local de desembarque dos ônibus oriundos de Punta Arenas, e o funcionário nos disse que não. Chegamos então à triste conclusão que tínhamos sido enrolados. O taxista tinha nos pegado no terminal, deu algumas voltas em algumas quadras, e nos deixou no hotel que ficava do outro lado da rua. Como era de noite e não conhecíamos a cidade, não percebemos. Indignados, pedimos à responsável do hotel que chamasse o taxista que havia nos trazido, e demos uns bons esporros nele, que pressionado chegou a perguntar: “Queres tu plata?Recusamos, pois não era uma questão de dinheiro, afinal tinha sido somente seis reais por taxi, mas sim a desonestidade.

Voltamos então para nossa hospedagem fria, e nos encarregamos de acessar a internet que não cooperava,  e ficar um pouco perto da lareira da sala, que era o único lugar quente  hotel.Depois de cerca de duas horas fomos dormir, no gélido quarto que parecia uma caixa de fósforos, e que se chamava Maria José.

No dia seguinte, às 08:30 embarcamos num ônibus com destino a El Calafate, na Argentina. Seria a segunda fronteira que cruzaríamos  via transporte rodoviário. Wesley que tinha ido dormir tarde teve de se esforçar para acordar, e o fez  no último momento, chegando a nos preocupar se não perderia o ônibus. Tínhamos deixado tudo pronto na noite anterior, e praticamente foi somente o tempo de levantar, escovar os dentes e pegar as coisas. Não tomamos café, pois como já sabem não era bom, e havíamos comprado lanches no dia anterior para essa viagem. Diferentemente de todos os outros deslocamentos de ônibus da viagem, dessa vez o veículo não era muito novo, o que nos preocupou. Para aumentar a insegurança,

Quando sentamos eu e Cristiane num par de assentos, no dela o cinto de segurança não funcionava. Tentei de todas as maneiras, e nada. Resolvi então avisar ao motorista e para nosso espanto ao contatar o fato o mesmo disse: “no hay problema!”. Como assim não há problema, pensei. Estamos nesse ônibus  meia boca e você me diz que o fato de um dos elementos que podem evitar acidentes fatais está quebrado simplesmente deve ser desconsiderado? Essas palavras também não puderam ser externadas, pois o motorista não nos compreendia bem, e nem falava inglês, como era de se esperar.

A fronteira que marcaria a saída do Chile seria logo no início deste deslocamento, o que nos fez manter acordados. Foi incrível como já próximo ao território da Argentina a paisagem mudou sensivelmente, com muita neve e a volta da incrível paisagem toda branca. A passagem pelo posto de controle de entrada da Argentina foi tranqüila e sem nenhum destaque, exceto pelo fato que todos entregaram os documentos no guichê com o dizer “Saída”, quando em fato estávamos entrando.

Glaciar Perito Moreno Glaciar Perito Moreno

Poucas horas depois estávamos em El Calafate, que prometia ser uma grande atração da viagem devido a seus famosos glaciares. Esta é uma cidade pequena do sul da Argentina, com cerca de vinte mil habitantes.  Seu maior destaque é o internacionalmente conhecido Perito Moreno, que reúne uma combinação de fatores que o tornam único.

Logo no nosso desembarque na rodoviária, fomos abordados por uma pessoa que nos oferecia hotel. Como neste trecho de Ushuaia a El Calafate não tínhamos nenhum hotel reservado, prestei atenção na oferta. Inicialmente ele falou que o preço por “habitación” era cem dólares, o que me fez expressar uma cara de desaprovação e completar com a frase: muy caro! Ele então perguntou quantos éramos, e ao saber que eram seis ficou ainda mais interessado. Foi baixando, baixando até que chegou à incrível cifra de vinte e cinco pesos por pessoa. Devido à negociação e ao preço final fiquei desconfiado. Perguntei sobre a qualidade dos quartos, se tinha internet sem fio e se a calefação funcionava. Para todas as perguntas ele fez que sim, o que nos animou. Ele acrescentou então que nos levaria de van até o hotel numa van, o que logo me fez perguntar se o translado teria algum custo. Para nossa alegria, só faltava uma confirmação: saber se caso decidíssemos não ficar no hotel, se o translado seria cobrado. Depois de receber uma resposta afirmativa, embarcamos no veículo.

Hotel em El Calafate Hotel em El Calafate

O hotel era surpreendentemente bom, e decidimos ficar na hora. Realmente ficamos muito surpresos em conseguir um hotel tão bom, por míseros doze reais. O que uma baixa temporada não faz.

Deixamos nossa bagagem, e logo fomos perambular pela cidade. O centro era muito bonito, bem arborizado e com ótimas lojas. Tiramos muitas fotos, e seguimos para um restaurante, pois estávamos famintos. O hábito local é bem diferente do Brasil, pois os estabelecimentos abrem as 09:30, fecham ao 12:00 e reabrem às 04:00 da tarde. Por isso, tivemos dificuldade em encontrar um local para almoçar. O único que encontramos  aberto entramos. Os preços não pareciam muitos caros, e logo estávamos comendo.  O que nos surpreendeu foi quando veio a conta, já que além dos pedidos, nos estavam cobrando cinco pesos de serviço de mesa por pessoa, o que perfazia 30 pesos, somente de serviço. E olha que a mesa que sentamos ficava a um metro e meio do balcão de onde a garçonete recebia os pratos da cozinha.

Ficamos um pouco indignados, mas levamos como sempre com bom humor. Afinal, viajar e conhecer é justamente aprender e descobrir as melhores opções e as furadas.  Nossa falha foi não perguntar, mas também seria difícil imaginar um serviço tão caro. Depois de sair do restaurante, decidimos passar num mercadinho e comprar lanches para o dia seguinte, que seria o dia todo na excursão. Encontramos uns pasteizinhos deliciosos e sucos de durasno que juntos formavam uma combinação perfeita.

Vimos preços de passeios e fomos num câmbio que já estava fechado. Depois da terceira agência, concluímos que a segunda tinha o melhor preço para conhecer o Perito Moreno. Este foi o único passeio que compramos, pois a maioria estava suspenso, devido à condição da neve.

Ao chegar ao hotel, nos informaram que os quartos que estávamos tinha tido um problema no sistema de água quente, e que por isso seríamos transferidos para outras habitaciones. Entretanto ao invés de serem duas triplas, seriam três duplas. Essa nova configuração gerou mais uma vez muita piadas, pois Wesley e Marcelino dormiriam juntos num quarto.

A mudança que tinha sido feita para evitar que tivéssemos de tomar um banho impossível numa água gélida nos trouxe outro problema: a calefação desses novos quartos não funcionava corretamente.  Percebemos isso, e reclamamos com a encarregada do turno, que logo chamou um funcionário para averiguar. Ele entrou no quarto, mexeu nuns fusíveis e num termostato que estava oculto, e em menos de cinco minutos disse que estava tudo resolvido. Entretanto disse que só começaria a calientar depois de uma hora e meia. Fomos então para a sala de estar acessar a internet, eu escrever e Wesley colocar umas fotos no site.

Depois de cerca de duas horas, voltamos par ao quarto e verificamos que os mesmos continuavam frios, o que gerou uma nova reclamação nossa. A encarregada que novamente chamou o funcionário e visivelmente se mostrava constrangida por não conseguir resolver, mas ao mesmo tempo era muito gentil e solícita, o que de certa forma amenizou a situação.  Fomos dormir de forma razoavelmente confortável.

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