Relato de viagem

A chegada na Índia, o choque inicial e o trajeto do Brasil até Mumbai

Viajar para a o oriente, especialmente a Índia não é algo tão trivial como viajar para países ocidentais. Existem muitas diferenças culturais e alimentares. No caso especial da Índia há ainda a questão da pobreza extrema em alguns locais e a preocupação com a alimentação e a higiene dos alimentos. Por isso, no planejamento da nossa viagem  adotamos a estratégia de levar alguns elementos essenciais para que pudéssemos nos alimentar e beber nos primeiros dias, ao menos até chegar a Goa, no sudeste do país, onde imaginávamos que esse problema seria menor.

Preparando as mochilas para a Índia em SP Preparando as mochilas para a Índia em SP

Compramos frutas, granola e água mineral.  Após essas aquisições passamos num restaurante onde fizemos uma refeição deliciosa, e a saboreamos como se fosse a última pelos próximos trita dias. Por uma questão de hábito sempre  olhamos em todos os cantos e lugares do quarto para termos certeza de que não esquecemos nada, pois numa viagem deixar de levar algo planejado e importante pode se tornar um grande problema.

Embarcando para a Índia

Seguimos para o aeroporto cerca de 15:10 e chegamos em Guarulhos em meia hora. Além da estratégia dos alimentos, também sugeri que cada um colocasse na mochila de mão os itens cruciais para continuar a viagem caso a bagagem maior  extraviasse, de forma que todos pudessem prosseguir somente adquirindo os itens eventualmente perdidos da bagagem despachada.

Fizemos checkin no guichê da companhia aérea South African que nos levaria até Mumbai, numa viagem que duraria cerca de 30 horas. Com apenas poucos minutos de atraso nosso avião decolou nessa que seria a nossa mais longa viagem, percorrendo no total mais de 40.000 km entre ida e volta. A aeronave tinha uma aparência de nova, bastante moderna mas com espaçamento entre assentos muito pequeno, especialmente para uma vigem com essa duração. Esse é o preço que se paga paa viajar de forma econômica.

Viviane no primeiro checkin internacional na South African Check-in na South African

Já na entrada fomos recepcionados em inglês pelo comissário e Viviane então comentou que a partir daquele momento percebera como seria estranho estar num local onde não falam a sua língua.

A nossa viagem até Mumbai teria uma conexão em Joahnesburg (África do Sul), e por isso seriam  dois vôos, com intervalo de 4 horas entre os mesmos. As refeições servidas a bordo do primeiro voo estavam saborosas, e lembro que que fiquei preocupado com Marcelino  quanto à capacidade de escolha, pois os comissários de  bordo só falavam inglês, e ele provavelmente não saberia o que escolher, com o  agravante de ser vegetariano. Pedi então a Viviane que estava sentada no corredor para ir lá e dizer para ele escolhe "pasta", que é massa em inglês.

Passagem pela África do Sul

Após algumas refeições e 8 horas nos remexendo nas cadeiras pousamos na África do Sul. A impressão à primeira vista foi muito boa, pois o aeroporto era muito bem estruturado. Como só tínhamos uma conexão, pensamos que não precisaríamos entrar 'oficialmente' no país, mas tivemos e recebemos um carimbo de visto de trânsito no passaporte. Ao nos aproximarmos dos scanners de bagagem um funcionário sul-africano gritava num inglês estranho que quem tivesse  água na mochila deveria retirar.  Para ajudar os que não entenderam eu logo traduzi.

 

Refeição no voo para Mumbai Refeição no voo para Mumbai

Quando as bagagens de Viviane passaram um outro funcionário detectou um iogurte e pediu para que fosse jogado fora. Viviane não conseguiu compreender e Júlia que estava do lado ajudou.  Depois de passar pela imigração sul-africana tivemos acesso ao shopping interno do aeroporto. Era um shopping com diversos elementos temáticos, todos com símbolos africanos e bem bonitos.

A nossa preocupação era ficar perto do portão embarque, pois as vezes ocorrem mudanças de portão e o lugar mais fácil de ser informado sobre isso é no portão original, levando em conta que já passei por situações que não anunciaram no sistema de som. Tiramos algumas fotos, olhamos alguns preços e fomos nos toaletes.  Nos surpreendeu a receptividade dos funcionários sul-africanos que ficavam nos banheiros do aeroporto. Quando entrávamos recebíamos logo um "welcome sr" e um gesto de braço nos dizendo para ficar à vontade.

Aeronave da South African Air lines Aeronave da South African Air lines

Voando para Mumbai

No horário marcado uma sul-africana começou a  gritar "Mumbaííi", com um forte acento no "i", bem característico  da forma africana-árabe de falar o inglês. Nesse segundo voo fomos mais afortunados e vários lugares ficaram vazios, nos dando a oportunidade de dormir esticados em várias cadeiras, ficando um pouco mais confortável. Já começamos a perceber que estávamos chegando na Índia pela comida servida, que era típica indiana e bem apimentada. A primeira refeição eu e Viviane deixamos passar por que estávamos dormindo. Após essa primeira tivemos de aguardar várias horas para que a próxima passasse.

Gastamos o resto do tempo da viagem jogando tetris e caveman no dispositivo eletrônico individual que cada assento tinha além de ficarmos atentos a pequenas turbulências  que iam e vinham. Enfim pousamos e tivemos acesso ao aeroporto através de um ônibus.

Os problemas na imigração na chegada na Índia

Visto confuso da Índia Visto confuso da Índia

Já no trajeto no ônibus entre o avião  já deu para ver que o aeroporto não era bem cuidado.  Ao entrarmos, fomos logo para a imigração e já nos veio à cabeça o problema com o visto. Ficamos na fila e na nossa vez nos dirigimos para o guichê juntos, os quatro. Eu então mostrei a carta que tinha preparado e expliquei que apesar de termos o visto duplo tínhamos sido orientados que poderíamos entrar 3 vezes na Índia, segundo a embaixada na  Índia no Brasil tinha dito. complementei que nos informaram que não era possível conceder um visto de triplo, mas que com o duplo e explicando o motivo e mostrando as passagens compradas que não haveria problema em entrarmos três vezes.

Após explicar isso para a funcionária da imigração no guichê que estávamos fomos encaminhados para outro funcionário e esse por sua vez nos encaminhou para um outro numa sala que parecia ser  do chefe geral. Esse chefe, diferente dos outros dois, foi bem rude e disse que não queria ouvir explicações e que não poderíamos entrar a terceira vez e ainda complementou dizendo que não era para nós tentarmos entrar a terceira vez de jeito nenhum. Diante de tal posicionamento e grosseria não havia o que ser dito. Perguntei se eu podia ir e ele respondeu balançando a cabeça parecendo uma cobrinha, bem ao estilo indiano.

Solidariedade de funcionários

Percebendo nosso problema de longe, uma funcionária da companhia aérea sul-africana veio até nós e tentou nos ajudar. Anotou nossos nomes e passaportes e nos deu um telefone para ligarmos e tentarmos transferir nosso voo, para voltarmos direto de Hong-Kong. Para nossa surpresa, além disso, quando chegamos na esteira de bagagens, havia dois funcionários da empresa aérea tomando conta da nossas bagagens. Se por um lado ficamos assustados e decepcionados com a imigração e o problema que agora surgia, por outro nos sentimos cuidados pela equipe da companhia aérea, que naquele instante tentou ser solidária e nos ajudar.

Câmbio e táxi no aeroporto de Mumbai

Depois de pegarmos nossas bagagens fizemos um câmbio com a taxa de 1 dólar para 52 rúpias. A moeda indiana é bem fraca, e trocando 200 dólares recebemos 9.958 rúpias. Logo após o câmbio havia uma guichê de táxi e perguntamos o preço. Para nossa surpresa nos informaram que com ar seria 600 rúpias (12 reais) e sem ar 400 rúpias (8 reais).

Fizemos a conta e daria cerca de 3 reais pra cada pessoa! Muito barato em comparação com os preços do Brasil. Diante de um preço tão camarada fomos do saguão do aeroporto para o estacionamento seguindo do motorista que havia nos oferecido. Diante de todos os problemas estruturais e de pobreza na Índia pensamos que seria um carro bem velho ou talvez um tuk-tuk, mas para nossa surpresa era um veículo bom, um SUV com ar (mesmo tendo pago sem ar).

Apesar de assustar de forma geral a Índia é seguro em relação a assalto e roubos, mas em relação ao táxi a dica é usar o serviço dos táxis autorizados. No nosso caso optamos por acertar o táxi ainda dentro do aeroporto e pagamos o valor antecipado, no guichê da empresa de táxi e recebemos um recibo disso. Acredito que essa seja a forma mais seguro na chegada inicial.

O choque inicial com a realidade da Índia

Ao sair do aeroporto começamos a sentir de perto a realidade de Mumbai. Trata-se da cidade mais populosa da Índia e a quinta no mundo, com cerca de de 50 milhões de habitantes em toda a região metropolitana. Já era mais de uma da manhã e devido ao horário e às características da cidade ficamos preocupados com nossa segurança. No meio do caminho descobrimos que o motorista não falava inglês (só hindi) e por isso não podíamos nos comunicar com ele. Para complicar ele não sabia onde era o hotel. Os endereços em Mumbai são muito informais e confusos, e por isso mesmo mostrando o endereço no papel ele não tinha certeza onde era exatamente mas parecia que estávamos próximo. Fomos então olhando para os lados para ver se avistávamos o hotel.

Pedinte em Mumbai Pedinte em Mumbai

Em determinado ponto Viviane viu o nome do hotel, e nos alertou. Parecia muito ruim o local, e por isso ficamos ainda mais apreensivos. O motorista então parou e foi conversar com outros moradores locais na rua para confirmar se era ali. Apesar de ser muito tarde havia muita gente na rua e isso é muito comum na Índia. Rapidamente juntou um monte de homens ao redor do carro e ficamos assustados, mas logo depois percebemos que todos estavam ali querendo ajudar. Um inclusive pegou o próprio celular e ligou para o número do hotel para perguntar mais detalhes.

Seguimos mais um pouco e alguns metros afrente achamos o hotel, mas um funcionário disse que havia outro prédio onde ficaríamos alojados. Entramos então em outro carro (este já do hotel), uma mini-vam apertadinha, semelhante a uma towner no Brasil, e seguimos para o outro prédio.

Contraste chocante

O hotel Cosmo, onde nos hospedamos ficava numa região muito pobre e feia, ao lado de um viaduto. Apesar da péssima condição da vizinhança, internamente o hotel tinha um acabamento muito bom e com materiais caros, incluindo piso de porcelanato, acabamentos em granito e maçanetas de inox, forro de gesso bem acabado. portas de vidro e um ambiente bem decorado. Era um contraste absurdo entre o que havia do lado de fora e o que havia do lado de dentro. Coisas que só se vê na Índia.

Rua pobre e feia do hotel Cosmo em Mumbai Rua pobre e feia do hotel Cosmo em Mumbai

Apesar do excelente acabamento, os quartos ficavam num nível abaixo do solo mas também tinham um excelente acabamento, inclusive no banheiro. Havia TV de tela plana, ar condicionado que gelava e ventilador, além de quadros de decoração e iluminação decorativa. Apesar disso tudo não tinha janela, e no teto via-se já um pouco de mofo, e por isso havia um cheiro um pouco desagradável.

Quando fizemos check-in o atendente vestia uma saia (é comum homens usarem saia na índia) e nos informou que na nossa reserva constava que eram dois quartos sendo uma pessoa em cada quarto e não um casal em cada quarto. Verificamos nosso comprovante da reserva e ele estava correto, e por isso tivemos de de pagar uma diferença, que não foi muito.

No final o preço para as duas diárias por pessoa ficou 2328 rúpias, o equivale a cerca de 22 reais por noite por pessoa. Cansados, resolvemos essa questão e fomos para o quarto. Tentamos acessar a internamente para planejar o dia seguinte mas sinal do Wifi estava muito ruim e desistimos. Viviane e eu fomos então para nosso quarto, tomamos um banho, ligamos o ar e quando fomos dormir já era 3 da manhã.

Nós havíamos escolhido esse hotel por que ficava perto do aeroporto, já que íamos chegar de madrugada. Nas fotos no site de hospedagem não mostrava a vizinhança, só o interior do hotel e por isso nos assustamos quando chegamos. Apesar disso fomos bem atendidos e depois percebemos que não havia problemas de segurança. Se você procura uma opção para orçamento econômico é e que seja perto do aeroporto pode ser uma opção, mas se procura uma hospedagem mais requintada tenha certeza de verificar pelo google street view a vizinhança. De qualquer forma vale lembrar que esses contrastes são comuns na Índia: vimos vários hotéis luxuosos e caros ao lado de barracos e sujeira.

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