Relato de viagem

A descoberta de Sham Shui Po, o local certo pra comprar eletrônicos em Hong-Kong

O fato de não termos encontrado os preços que esperávamos, mesmo em Mong Kok, nos deixou ainda mais intrigado e resolvi então perguntar a um dos indianos que trabalhava no hotel que estávamos onde realmente estavam as tão faladas coisas baratas de Hong Kong. “E todas aquelas coisas a preço de banana que encontramos no ebay e que são enviadas de Hong Kong, veem da onde?”. Segundo ele, o local onde se encontrava coisas baratas era Sham Shui Po, seguindo na mesma linha que nos levava a Mong Kok, mas algumas estações depois. Mais uma vez a nossa diária vencia ao meio dia, e por isso tínhamos de estar de volta antes disso, para fazermos nossa mudança para outro hotel. Como o comércio em Hong Kong normalmente abre às 10:00 da manhã, teríamos pouco tempo para ir e voltar antes do vencimento da diária, e por isso Junior e Júlia não pareciam muito dispostos a ir verificar ou queriam ficar fazendo outra coisa, então seguimos somente Marcelino, Viviane e Eu. A vantagem é que como metro não atrasa, poderíamos sair de lá cerca de 11h00min que tínhamos certeza que chegaríamos a tempo e além isso não queríamos ficar enfurnados naquele quarto minúsculo.

Ao chegarmos a Sham Shui Po, pudemos nos deparar com uma realidade bem diferente do que estávamos acostumados em Hong Kong. Este era um bairro realmente popular, visivelmente mais pobre, parecia que tínhamos até mudado de cidade. Não era favelado ou coisa assim, mas os prédios eram antigos, com a pintura já vencida, as ruas não tinham o mesmo acabamento que as outras avenidas de Hong Kong, as vestimentas das pessoas eram mais simples e tudo o mais nos dizia que estávamos numa região mais pobre. Quando chegamos quase tudo estava fechado, e pensamos que havíamos perdido a viagem, mas aos poucos as lojas foram abrindo e pudemos perceber que ali se vendia tanto produtos de bons fabricantes (Sony, Samsung, Nokia etc.) quanto os famosos Xing Ling. Ali realmente começamos a ver produtos com bons preços e uma variedade de opções bem maior do que nos outros locais que havíamos visitado. Eu que estava à procura, especificamente de celulares fiquei muito satisfeito, pois encontrei smartphones com cerca de um terço do preço vendido no Brasil. Além disso, havia lojas de quinquilharias onde se podia encontra de tudo e também lojas vendendo eletrônicos usados, com bons preços. É bem verdade que não estávamos encontrando aquela enxurrada de produtos chineses a preços irrisórios, especialmente produtos de menor valor, mas já era um alento o que estava ali, na  Sham Shui Po. Como nosso tempo era curto devido à mudança de hotel corremos mais de uma dezena de lojas e foi possível colher uma impressão geral, até por que muitas ainda estavam fechadas. Ao final da nossa pesquisa entramos no Subway (que vende sanduiches naturais) e comemos, rapidamente.

Bairro popular de Sham Shui Po Bairro popular de Sham Shui Po

Ao retornar fizemos nossa mudança de hotel, dessa vez voltando para o hotel do primeiro dia, no qual já tínhamos reservado o que seriam os últimos dois dias antes da mudança de passagem de retorno. Estávamos de volta ao Day and Night, e mais uma vez tivemos problemas com o pagamento. Novamente eles disseram que não constava que havíamos pagado a reserva (fizemos duas reservas separadas, a do primeiro dia e outra para o quarto e o quinto dia). Não tenho como ter certeza, mas não parecia que estavam sendo desonestos, mas sim que eram desorganizados mesmo, mas mais uma vez tivemos de mostrar a cobrança no cartão de crédito, exibindo a fatura, para poderem validar nosso pagamento. Da vez anterior, no dia de manhã ao dia que chegamos, mostramos a fatura para um indiano que parecia ser o proprietário e usava um turbante branco. Ele parecia muito mal humorado e a gente brincava que ele parecia que estava com caxumba, por causa do pano enrolado na cabeça. Mesmo com esse desgaste em relação ao pagamento eu perguntei a ele se seria possível pagarmos algum valor a mais para que um amigo nosso, Junior, dormisse conosco no mesmo quarto. Disse que não era necessário cama nem nada mais, que daríamos um jeito em relação a isso, mas ele com a cara de caxumba me disse um sonoro não, da mesma  salinha apertada que ficamos no dia que chegamos.

Preços em Sham Shui Po Preços em Sham Shui Po

Depois de acertar tudo e fazer nossa mudança, devido aos relatos sobre Sham Shui Po Júnior e Júlia se interessaram em ir lá, e como não tínhamos outro programa, fomos juntos, até por que, agora de tarde, todas as lojas estariam abertas, permitindo que fizéssemos uma pesquisa melhor. Combinamos que iríamos primeiro no Ocean Center, na zona portuária e de lá seguiríamos para  Sham Shui Po. Seguimos andando para o porto e além dessa vez, após apelos meus, além de procurar produtos estávamos procurando diversão. Eu tinha informações de que havia um ônibus turístico que rodava pela cidade, os chamados sightseeing bus, mas não sabíamos onde eles paravam ou quanto custava. Seguimos então pela rua e em frente a uma agência que vendia passagens perguntei e o funcionário apontou a direção onde eles paravam. Seguido a orientação dele chegamos, duas quadras depois, a um ponto de ônibus convencional e pelo que parecia não era um local de parada de turismo, até por que não havia nenhuma placa e ninguém com cara de turista. Perguntei a uma mulher que vendia algo na rua sobre o ônibus e ela me olhou toda assustada, estranhando a pergunta e disse que não sabia, com uma entonação que dava entender que não gostou da pergunta, como se fosse absurdo perguntar algo assim. Bom, tem gente que não tem paciência com turista! Depois desse momento ficamos um pouco desorientados e terminamos decidindo seguir direto para o porto. Para nossa surpresa, no osso trajeto, já bem perto do Ocean Center nós avistamos o ponto de parada, dos chamados Big Bus (nome dado ao serviço). Ao nos aproximarmos, um local, com roupas com dizeres “Big Bus”, oferecendo a todos “Big Bus Tours”, nos abordou. Parece que ali se encontraram a fome com a vontade de comer, pois ele queria comprar e nós queríamos comprar o passeio.

Admirando a paisagem do Harbor City Admirando a paisagem do Harbor City

Por uma questão de negociação de preço procuramos não demonstrar esse nosso interesse. Ele logo começou, com bom humor, a explicar todo o passeio. Só de o ouvir falando tudo, já cansava, pois era muita coisa para se fazer em um dia. Em resumo, estavam incluídos  a travessia de barco para Hong Kong Island (estávamos em Hong Kong continental), o passeio pelo circuito vermelho, que visitava praticamente toda a ilha de Hong Kong, a visita ao Peak (ponto mais alto da cidade) num bondinho elétrico tradicional e histórico, a linha verde (que percorria outros pontos da ilha), um passeio num barco de madeira tradicional pelo porto de Hong Kong e ainda uma ilha noturna que percorria a região de Kowloon. Em todas essas linhas, podíamos entrar no ônibus e saltar em qualquer um dos pontos de parada e pegar o próximo ônibus, que passava a cada meia hora. Tínhamos 24 horas para percorrer todas as linhas a partir do momento que iniciássemos o passeio. Todo esse conjunto parecia uma ótima oportunidade de conhecer bem a cidade e sua história, já que o ônibus tinha o teto do segundo andar aberto e tinha áudio explicando sobre todo o roteiro em diversos idiomas. Em minha opinião esses ônibus de sightseem são a melhor e mais barata opção de se conhecer razoavelmente uma cidade.

Inicialmente ele disse que o valor era de 330 HKD, mas fomos negociando, negociando e devido a ser um grupo de 5 pessoas terminamos conseguindo fechar por 300 cada um. Ele já ficava com a maquininha de cartão de crédito na mão, já fazia a cobrança, já dava o voucher e tudo se resolveu muito rápido. O funcionário era muito alegre e simpático e rimos muito com os trejeitos e colocações dele, especialmente quando estávamos pechinchando. No meio dessa conversa, aproveitando o ensejo perguntamos para ele se valia a pena ir para Shenzhen, na China continental, para comprar eletrônicos. Se era realmente mais barato. Ele disse que era, mas que os produtos eram de má qualidade e que na opinião dele não compensava. Ilustrando isso, ele contou que uma vez foi a Shenzhen para comprar algumas coisas, com um amigo. Entrou numa loja e escolheu um DVD player. Foi então que ele disse que gostaria um da marca Sanyo (marca japonesa). O vendedor então entrou com o DVD, e voltou minutos depois com o mesmo aparelho, só que agora com o adesivo da marca Sanyo, e disse: “Pronto, agora é Sanyo!”. Ri demais da história dele, mas além da alegria, essa história nos serviu para entender  qual é o espírito da coisa lá por Shenzhen. Marcelino, ainda com a questão do relógio, pediu para que eu perguntasse se ele sabia onde se podia encontrar bons relógios baratos. Eu disse a ele que o cara não ia saber isso, mas ele como sempre insistiu para que eu perguntasse, dizendo que ele era dali e devia saber de tudo! Eu perguntei e ele prontamente disse: “numa relojoaria, como a que tem aqui no Ocean Center!”. Marcelino ficou com a cara de tacho, pois já tínhamos passado em algumas relojoarias do shopping, mas ele achava que o cara do Big Bus ia dizer um lugar específico.

Depois de comprar o voucher para o tour Big Bus e decidir o que faríamos no dia seguinte, já pela manhã, entramos no Ocean Center que ficava ali ao lado e fomos à loja de brinquedos que Junior queria. Ele estava procurando por carros de modelismo e segundo informações que tinha obtido via internet, nessas lojas poderia encontrar. Não encontrou, mas terminou encontrando outras coisas interessantes.

Barraquinha de "petiscos" chineses Barraquinha de "petiscos" chineses

Do shopping seguimos novamente para a Sham Shui Po, de metrô. Diferente de quando fomos pela manhã a rua agora estava cheia, com muita gente comprando. Tivemos também acesso a várias outras lojas grandes que não visualizamos de manhã e, pela primeira vez compramos umas quinquilharias chinesas. Foi Marcelino que entrou na loja primeiro e começou a garimpar umas coisinhas interessantes, todas baratinhas, como lanterna de LED, cadeados de segredo e outras coisas desse tipo. Depois de inaugurar as compras em Hong Kong seguimos entrando em diversas lojas, sempre olhando e anotando os preços. Junior procurava por algumas coisas específicas, que não eram telefones e nem computadores, mas produtos para revender, como câmeras, material de modelismo e outros, e para a necessidade dele, Sham Shui Po não atendia. Ele precisava mesmo era das coisas xing-ling bem baratas e dos auto-modelos. Já Viviane, se empolgou bastante, e já queria comprar tudo. Se deixasse ela enchia uma mochila só de celulares e tablets para revender. Eu dizia a ela que esses celulares chineses baratos não são confiáveis, mas ela dizia que era para vender e que não era problema. Pedia para eu olhar inúmeros com ela, e já até queria comprar, mas eu dizia para deixar para o final, quando tivesse certeza de que tínhamos achado o melhor preço, e felizmente ela me escutava.

Chineses vão a compra Chineses vão a compra

Ao final de mais um bate perna paramos novamente no mesmo Subway que ficava colado na entrada para o metrô e dessa vez pudemos comer com mais tranquilidade. Comer no Subway era sempre uma boa alternativa, pois como é uma rede mundial de franquias, é tudo praticamente igual em qualquer lugar do mundo(sabíamos o que estávamos comendo e gostávamos) e os sanduiches são saudáveis. Enquanto comíamos, pudemos prestar mais atenção em alguns detalhes do cotidiano de Hong Kong. Já havíamos notado que, de modo geral, há muitos fumantes, mas ali, parados e comendo, olhando com atenção notamos uma atitude interessante. Perto de onde estávamos havia cinzeiros públicos, na rua. A todo o momento passava um número incrível de pessoas fumando, mas nenhuma jogava a bituca no chão. Você via muita gente fumando, bem mais do que no Brasil, mas não via bituca no chão e sim os cinzeiros cheios. Por mais que seja triste perceber que a população está se suicidando com a nicotina pudemos perceber que há um senso comum de coletividade e limpeza.

Ruas de Sham Shui Po muito cheias à noite Ruas de Sham Shui Po muito cheias à noite

Voltamos para Tsim Sha Tsui pelo mesmo metrô que viemos. Marcelino, mais uma vez pediu que fôssemos em algumas lojas de relógios com ele, para auxiliar. Ele olhou, olhou, olhou e no final disse que olharia mais. Marcelino sem relógio, seguimos então para fazer nossa única refeição do dia. Inicialmente a intenção era jantar no mesmo local do dia anterior, mas conseguimos encontrar um melhor, o Tsui Wah Restaurant, que era bem próximo do restaurante anterior. No Wah o ambiente era bem melhor, apesar de cheio. Havia um cardápio com melhores opções e tudo parecia mais saboroso. Além da qualidade ais apurada e pratos que eram facilmente identificáveis, nós passamos a pedir em conjunto. Assim, eu e Marcelino pedíamos dois ou três pratos diferentes, rachávamos o custo e o valor, e assim comíamos mais variadamente e por um custo acessível.

Quando retornamos para o hotel, eu conversei com o funcionário do hotel que havia ajudado Júlia a carregar as malas no dia que fomos para Macau e depois de muito questionamento, dizendo que não estávamos encontrando os preços e produtos que imaginávamos e ele nos disse que o que procurávamos só os encontraríamos na China continental, especificamente em Shenzhen. A questão toda é que para irmos à Shenzhen precisávamos de visto e não sabíamos como tirá-lo.  Muitas vezes a dificuldade maior para o viajante é a informação e não a burocracia em si, e esse era o nosso caso. Não sabíamos como conseguir o visto, o que era necessário, quanto tempo demorava e qual era o valor. Nessa situação normalmente muita gente quer se aproveitar do turista e por isso nem sempre as respostas fornecidas são confiáveis. O funcionário do hotel, quando questionado, disse que podia providenciar o serviço de visto, mas que custaria 150 dólares por pessoa. Além do custo caro o pior é que ele nos disse que teríamos de dar os passaportes a ele, e que depois de 24 horas ele os devolvia, já com o visto. Para quem lê esse relato desde o início sabe que isso não é algo seguro, e de minha parte jamais optaríamos por essa alternativa.

Foi então que mais tarde, já no quarto eu comecei a pesquisar e juntando várias informações consegui chegar à conclusão que havia uma alternativa mais viável. Havia a possibilidade de se tirar um visto que era específico para a zona econômica de Shenzhen, e não para toda a China. Custava mais barato, valia por um dia, e, o melhor, podia ser tirado na hora, lá na chegada. Nessa mesma dica a matéria no site gohongkong.about.com dizia que Shenzhen e Hong Kong são conectados por metrô. Ou seja, bastava pegar um metrô que, em menos de uma hora chegaríamos lá. Tudo parecia muito fácil, e a dica inclusive detalhava passo a passo e até que escada pegar para chegar ao escritório de vistos, que era meio escondido. Diante de todo esse arsenal de informações, decidimos que no dia posterior partiríamos para a China continental. Além da possibilidade de encontrar as coisas com preços excelentes ainda conheceríamos a China propriamente dita.

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