Relato de viagem

Auli Ski Resort, no alto dos Himalayas

No terceiro dia em Auli Júlia e Marcelino nos chamaram bem cedo, dizendo que estavam indo na internet. Como estava muito cedo e frio decidimos ficar debaixo do nosso edredom e dormir até mais tarde.

Só os lembrei que tinham de estar de volta no máximo até meio-dia pra nos "mudarmos" para o  Auli Resort, que ficava num local muito mais bonito, no topo das montanhas, tinha um restaurante maravilhoso e barato e a diária da hospedagem também era a metade do preço!

Quarto do Hotel Nature Inn em Auli Quarto do Hotel Nature Inn em Auli

Um hotel no Himalaya

Apesar de o resort ter uma infraestrutura gigante, ele tinha uma grande gama de quartos a acomodações, e uma das opções era um quarto quádruplo, que custava a metade do preço, 562 rúpias (20 reais por pessoa) em quanto estávamos pagando 1000 rúpias (38 reais por pessoa) no Nature Inn.

É claro que esse quarto quádruplo não teria o conforto que dois quartos espaçosos, mas havia outras vantagens, como o preço e a beleza do local. Pesamos também o fato de o resort ficar isolado, longe de tudo. Isso poderia nos trazer um custo extra com táxi, mas mesmo assim, fizemos as contas e verificamos que economizaríamos.

Quando Júlia e Marcelino chegaram disseram que se perderam e que passaram por lugares muito interessantes. Nos contaram que viram muitas plantações locais e a vida rotineira dos agricultores nativos e disseram que tiveram de subir quilômetros e quilômetros de escadaria, que não acabavam nunca. foi então que decidiram ir para a estrada onde por sorte conseguiram uma carona salvadora, pois sem ela não teriam chegado a tempo.

Escadaria de Auli Escadaria de Auli

Além disso, apesar de toda a correria não tinham conseguido acessar a internet, pois ao chegar no cyber café foram informados de que estavam sem conexão.

Negociando a volta par Nova Déli

O proprietário do Nature Inn havia me perguntado se eu precisava de táxi para voltar a Delhi (500 km). Eu disse que tinha algumas propostas, mas que estava interessado em ouvir a dele.

Ele consultou o proprietário do táxi e me disse que ficaria 350 dólares, o que já era menos dos que os 375 que havíamos pago com para fazer o caminho inverso. Eu disse que tinha encontrado um por 300 dólares e que se ele fizesse o mesmo preço fechava com ele. Ele fez uma ligação, falou com o dono do carro e disse que estava fechado!

Eu combinei de pagar a metade naquele momento e a outra metade na chegada a Delhi, e disse a ele que fizesse um recibo dizendo claramente que esse valor de 300 era para pagar o carro, o motorista para quatro pessoas e que não haveria nenhum custo a mais e só restaria a pagar os 150 dólares restantes.

Terminamos esse acerto e ele nos fazer o favor de chamar um táxi para nos levar até Auli, Pagamos 600 rúpias para o trecho de cerca de 14 km. O táxi desta vez foi um jipe estilo off-road, com tração nas quatro rodas com bagageiro e tudo. No trajeto entre Joshimath e Auli não nenhum tipo de transporte além de táxis ou caminhada.

Auli Ski Resort Auli Ski Resort

Mudança para o resort da montanha

Ao chegarmos no resort fomos direto para a recepção fazer os procedimentos do check-in, onde novamente tivemos de preencher uma ficha cheia de detalhes. A mesma indiana que havia me dado informações no nosso primeiro dia em Auli nos atendeu. Após preencher a papelada seguimos um caminho longo de escadarias, com várias guinadas e patamares até chegar no nosso novo lar temporário.

O quarto realmente não era comparável ao que tínhamos lá na Nature Inn, mas atendia a nossa necessidade. Havia um aquecedor,  água quente e duas camas de casal, com colchas também bem grossas, mas sintéticas. Após largar as tralhas fomos direto para o nosso restaurante favorito, e único. Mais uma vez nos deleitamos com os itens que já estavam memorizados nas nossas cabeças: hot chocolate, noodle soup, lemon tea e parantha. Estava tudo uma delícia e foi maravilho comer e relembrar a sensação de barriga cheia depois de muitos dias comendo mal.

Gulosos, pedimos outra rodada de sopa e de hot chocolate e ao final Júlia, Marcelino e eu pedimos mais outra sopa. O rapaz que nos atendia, que era muito simpático, mal falava inglês mas estava sempre sorrindo. Ele só conseguia entender o nome dos produtos, como hot chocolate, por exemplo. Ele estranhava a gente pedir tantas sopas e tantos chocolates, mas sempre os trazia sorrindo.

UMA ESTAÇÃO DE SKI SEM NEVE

Apesar de estarmos no ponto mais alto onde é possível chegar andando ou de veículo, ainda era possível subir mais um pouco utilizando o teleférico da estação. Após a comilança Viviane e eu nos dirigimos então para a área de embarque do teleférico (300 rúpias por pessoa), pois queríamos muito ter o prazer de ver a vista que devia ser ainda mais deslumbrante lá de cima. Apesar de não estarmos ainda no período da neve o teleférico estava funcionando e aberto a uso. A única diferença é que ele era ligado somente quando havia passageiros, o que naquela época realmente eram bem poucos.

Uma estação de ski é algo muito bonito de se vê, com todas aquelas pessoas praticando esportes, com os equipamentos, subindo e descendo e se divertindo na neve. Esse não era nosso cenário naquele momento, pois não havia neve e consequentemente nem os esquiadores, crianças, equipamentos e tudo mais. Todo o solo que normalmente fica coberto de neve estava nu, com a terra exposta, e sem o glamour do “chantilly” caindo e cobrindo tudo, tornando tudo branco e calmo.

Mesmo assim a paisagem apesar de insólita era bela, pois as montanhas eram lindas e conservavam seus picos brancos. Além disso a vista do teleférico era ainda mais sensacional, já que ficávamos elevados, sem barreiras e árvores atrapalhando a observação. Acompanhado da linda vista tinha vindo um frio ainda mais intenso.

O vento era forte no trajeto do teleférico, trazendo uma sensação térmica que deve ter chegado a -5 ºC. Infelizmente não foi possível medir com precisão por que o meu relógio com termômetro estava muito bem acalentado debaixo da manga da blusa,  do casaco e da luva que estava por cima disso tudo, e eu não ia tirar tudo isso com aquele frio.

Teleférico da estação de ski de Auli na Índia Teleférico da estação de ski de Auli na Índia(vídeo)

Após uns vinte minutos observando e tirando muitas fotos pegamos o teleférico para voltar e fomos correndo para nosso quarto, tentar nos aquecer. Apesar do aquecedor elétrico que havia no quarto o frio era  intenso e tivemos a ideia de fazer um chocolate quente improvisado, utilizando umas barras de chocolate que tínhamos, um leite líquido e um aquecedor elétrico portátil. O chocolate não ficou que nem o do restaurante, que era delicioso, mas nos esquentou bem, e ajudou a diminuir a tosse que nos afetava.

Marcelino contaminando todo mundo

Marcelino tinha vindo do Brasil já com uma tosse chata e aos poucos foi transmitindo o vírus para os outros. Júlia foi a primeira a se contaminar e tossia o tempo todo. Eu no terceiro dia também me contaminei, e Marcelino nesse mioe tempo já tinha ficado bom.

 Além da tosse eu estava com moleza no corpo, mas isso não chegou a me impedir de fazer nada, pois não me deixei vencer fácil. Com esse clima de montanha e gripe nos assolando fomos dormir, mais uma vez bem enrolados nas grossas cobertas e edredons.

No dia seguinte pela manhã Marcelino estava determinado a acessar a internet. Ele queria descer a montanha de táxi e ir direto para Joshimath. Estávamos discutindo isso enquanto tomávamos nosso café no restaurante do hotel e eu argumentava que podíamos descer andando e voltar de táxi, pois descer era mais fácil e subir exigia bem mais esforço. Ele não queria de jeito nenhum e eu e Viviane decidimos então não acompanhá-los Foi então que eu sugeri que ligássemos para o cyber café para perguntar se efetivamente a internet estava funcionando, pois caso contrário toda aquela discussão estaria sem sentido.

Perguntei se eles tinham o número e me disseram que não. Fui então a um rapaz que parecia ser uma espécie de gerente do restaurante, expliquei a ele a situação e perguntei se ele tinha o telefone e podia ligar para lá.

Felizmente parece que as ligações na Índia, mesmo as originadas ou destinadas a celulares são muito baratas e eu até já tinha acostumado com o fato de que eles ligavam sem problema, e não foi diferente dessa vez.

Ele ligou e conseguiu a informação de que o cabo de dados, provavelmente uma fibra-ótica que conecta toda a cidade, havia partido, e por isso não havia internet em lugar algum e não havia previsão para o retorno. Depois dessa informação a discussão cessou e resolvemos sair todos juntos caminhando para passear.

Contato com os nativos da montanha

Criancas indianas sorridentes Criancas indianas sorridentes

A nossa caminhada tinha como meta revisitar os locais pitorescos que Marcelino e Júlia disseram ter visitado na manhã do dia anterior e nos quais poderíamos observar de perto a cultura e hábitos locais.

Devido a isso resolvemos pegar alguns atalhos, que além de encurtar o caminho serpenteado das estradas nos daria a oportunidade de passar por locais diferentes. Pegamos uma trilha pelo meio da mata e depois de algumas preocupações de estarmos perdidos chegamos a uma área aberta onde podemos observar meninos indianos locais praticando o jogo mais popular da Índia: o críquete.

Esse jogo tem muitas semelhanças com o baiseball, e também usa tacos e bolas que são rebatidas. Os meninos carregavam tacos que visivelmente eram improvisados e feitos à mão. Eles rapidamente se organizaram e começaram o jogo. Marcelino de início não sabia do que se tratava e eu tratei de explicar sobre o críquete.

Chegamos a trocar algumas palavras com os garotos que foram muito simpáticos e falavam inglês. Após o descanso seguimos em frente e alguns minutos depois começamos a avistar a estrada e optamos por novamente caminhar por ela e sair da escadarias. Gastamos muitas horas caminhando entre casas, plantações, tirando fotos e e vendo hábitos locais. Até reencontramos um rapaz local com o qual Júlia e Marcelino haviam encontrado na manhã anterior. Ele falava muito bem o inglês, estava bem arrumado e parecia muito educado.

Nessa conversa estávamos sentados ao lado de um pé de laranja e estávamos curiosos para experimentá-los.  Ele gentilmente arrancou e nos deu. Dissemos a ele que estávamos gostando de poder conhecer de perto o dia-a-dia da cultura de Auli e ele disse que ficava muito orgulhoso de ouvir disso.

Viviane deitada em Auli Viviane deitada em Auli

Continuamos nossa caminhada e chegamos muito perto da pousada Nature Inn e até cogitamos andar no sentido do vale das flores, mas por ser cerca de 15 quilômetros de caminhada e devido ao horário terminamos achando que não seria uma boa alternativa.

Abordagem militar

Essa ideia surgiu depois que dois militares que faziam patrulha e passavam por nós nos abordaram. Inicialmente pensei que seria algo em relação a nos identificarmos e ver documentos, mas não era nada disso.

Um dos dois, que parecia ser o mais graduado e era mais simpático, estava curioso e queria simplesmente bater papo. Perguntou de onde éramos, o que estávamos achando da Índia e outras coisas do gênero.

Ele ficou bastante surpreso quando dissemos que éramos do Brasil. Acho que ele nunca tinha visto um brasileiro na vida. Em todas as outras viagens que fazíamos sempre encontrávamos inúmeros conterrâneos e era hábito entre nós dizer que havia brasileiros em tudo que é lugar.

Estávamos enganados! Pois já estávamos no décimo segundo dia de viagem, havíamos passado por vários lugares e não tínhamos visto nenhum brasileiro! Eu então perguntei o que ele sabia sobre o Brasil. Para minha tristeza ele falou do futebol (sempre esse estereótipo) e, me surpreendendo, da cana-de-açúcar! Isso mesmo, ele me disse que sabia que o Brasil era um dos maiores produtores mundiais de cana-de-açúcar! Ele era muito sorridente e simpático, enquanto o outro que o acompanhava só ficava de longe, meio tímido.

Longas horas subindo andando

Instituto de montanhismo e ski de Auli Instituto de montanhismo e ski de Auli

Saímos da estrada, caminhamos um pouco numa trilha e paramos para relaxar e tirar fotos. Aquele seria nosso último ponto antes do começarmos a retornar.

Apesar da ideia original ter sido voltar de táxi, o local estava muito ermo (e era sempre assim) e não vimos nenhuma possibilidade de encontrar algum por ali. Então simplesmente começamos a andar de volta. A esperança era que passasse algum por nós.

A caminhada de retorno exigiu bastante esforço. Viviane não estava se sentindo muito bem e eu então fiz algumas tentativas de pedir carona. Apesar do cansaço tivemos a oportunidade de ver muitas mulheres locais, com vestimentas bem características nessa caminhada.

Elas olhavam para nós de forma curiosa. Nós eramos a atração ali, e não elas. Chegamos a tirar fotos com vários grupos e Marcelino “conversou” com algumas. Muitas estavam indo colher a plantação e carregavam junto com suas roupas coloridas cordas e facões.

A carona friorenta

Depois de quase três horas subindo e quando só faltava cerca de 4  quilômetros, depois da terceira tentativa, eu consegui uma carona. Já estava desanimado de colocar a mão, mas devido a Viviane não estar bem insisti, e fiquei muito feliz quando uma caminhonete parou.

Carona para Auli Carona para Auli(vídeo)

Ela estava com a carroceria vazia e Marcelino foi na frente e Júlia, Viviane e eu atrás. O veículo começou a andar e foi então que começamos a sentir um vento geladíssimo! Nossa, acho que foi o momento que senti mais frio, mais inclusive do que no teleférico! Mesmo assim eu fiz uma filmagem da nossa carona e me mantive ali, recebendo o vento na cara.

Ao chegarmos ao resort fomos direto para o nosso local preferido: o restaurante. é claro! Novamente pedimos nossas rodadas já conhecidas e mais uma vez o nosso sorridente garçom nos trouxe chocolate quente, parantha, sopa e chá de limão. Aquele era nosso último dia em Auli, pois no dia seguinte às seis da manhã seguiríamos para Delhi, para depois pegarmos nosso voo para a Tailândia.

 

Um quarto frio e uma internet surpreendente

Tínhamos de deixar tudo pronto para o dia seguinte. Como Marcelino não tinha conseguido acessar a internet naquele dia, ele estava até aquele momento sem conseguir verificar se a sua passagem de volta que deveria ter sido remarcada tinha sido ou não enviada para seu email.

Pensamos em várias formas de fazer essas verificações. Cada possibilidade tinha seu problema. As mensagens as vezes chegavam e as vezes não. Outras vezes chegavam dias depois de enviadas. As ligações custavam cerca de dez reais por minuto e a internet não estava disponível. Marcelino terminou decidindo ligar para sua irmã Fátima, e falou dois minutos e Júlia também tinha feito uma ligação no dia anterior.

Quarto na montanha Quarto na montanha

Foi então que eu disse a Marcelino que se ele quisesse, poderia acessar a internet a partir do meu celular. Segundo a informação que eu tinha o pacote para a conexão por 24 horas custava 70 reais, independente do tráfego realizado. Ele terminou se convencendo que essa era a melhor opção, pois com internet faria tudo  que precisava. Além disso, como o pacote valia por 24 horas poderia ser utilizar até o dia seguinte, durante a viagem de carro de retorno.

O bom disso é que além dele, Júlia, Viviane e eu também acessamos a internet. Era bem lenta, conforme previsto. Apesar da baixa velocidade, para nossa feliz surpresa, Júlia conseguiu falar pelo Skype por voz e Viviane também, e as duas simultaneamente! Aquela conexão alegrou nossa última noite, pois todos pudemos acessar Facebook, e-mail, atualizar informações e nos comunicarmos, no conforto de nossas camas e sem fio!

Do ponto de vista de cobertura eu realmente não posso reclamar da TIM, pois meu celular funcionava, inclusive com conexão de dados, em praticamente todo lugar que estivemos, inclusive naquele local super-remoto, nos himalaias, na fronteira da Índia com a China.


Como chegar em Auli

O aeroporto mais próximo é o Jolly Grant, que fica a 270 km de Joshimath/Auli. Desse aeroporto você terá de ir de carro até Auli.

Há trens, mas nenhum deles leva até Auli. a única forma de chegar lá é realmente de carro e numa viagem que exige disposição. Apesar da dificuldade vale a pena.

Nós contratamos um táxi turístico e pagamos 375 dólares para ir 4 pessoas  (94 dólares americanos para cada). Para contratar esse serviço fale com Ajay Sharma:

Facebook de Ajayfacebook.com/ajay.sharma.127
E-mail: ajay1933@hotmail.com
Telefones: +91 9910609111, +91 8527105493

Hospedagem em Auli

Não é fácil encontrar hospedagem em Auli pela internet. Em sites como o Booking, por exemplo, nenhum hotel é listado.
Você pode encontrar uma lista de opções com preços neste site: makemytrip.com/hotels/auli-hotels.html

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