Relato de viagem

Brasileiros fazendo compras na China continental: uma visita a Shenzhen e as dicas da imigração

A China é famosa por seus produtos baratos e depois de três dias Em Hong Kong e de alguma frustração com os preços dos produtos decidimos matar duas vontades de uma vez só: visitar a China continental e tentar encontrar esse tão falado paraíso dos preços baixos. Iniciamos a nossa viagem tomando um simples metrô na estação de Tsin Tsa Tsui, em Hong Kong.

Apesar de pertencer à China Hong Kong tem um status diferente e tem seu próprio controle de fronteira. Apesar disso a cidade de Shenzhen, que fica na província de Guangdong, é ligada via sistema de metrô à Hong Kong. O mais estranho dessa viagem foi tomar um metrô que para na estação para procedimentos de imigração! Pegamos a linha West Rail Line, saltamos na estação Hung Hom e lá pegamos a linha azul, a East Rail Line e finalmente saltamos na estação Lo Wu, onde há a fronteira entre Hong Kong e Shenzhen.

Trajeto de Tsin Tsa Tsui até Shenzhen de metrô

Comportamento estranho

Nesse segundo trecho, com destino a Lo Wu, nós presenciamos algo interessante: numa dada estação entrou um grande grupo de pessoas, todas locais e com mochilas e sacolas. Num determinado momento todas elas começaram a tirar suas mochilas de forma rápida, espalharam no chão o conteúdo das sacolas, desembrulharam dos jornais quenos quais estavam e colocaram na mochila ou mala de viagem. Todos fizeram isso muito rapidamente e ao mesmo tempo, até parecendo sincronizado.

Visita a Shenzhen na China continental Visita a Shenzhen na China continental(vídeo)

Depois se livraram dos jornais que embrulhavam o conteúdo e passaram e se comportar como se nada houvesse acontecido. Não conseguimos saber ao certo o porquê de  tudo aqui, mas parecia muito ser algo ilegal ou no mínimo irregular.

Parecia que eles estavam comprando algo que não era permitido ser levado para Shenzhen e por isso colocavam em malas que disfarçavam. Apesar de toda essa desconfiança pode ser que não estivessem fazendo nada errado e que isso fosse um hábito, mas não foi isso que pareceu.

 

As manhas para passar pela imigração

Seguindo a instrução que havia lido na internet nós passamos pela imigração dando saída de Hong Kong, e antes de passar pela imigração de Shenzhen para entrar na China subimos uma escada, que ficava à esquerda, para termos acesso ao escritório onde poderíamos tirar o visto rápido para a zona econômica de Shenzhen, ali na hora, no mesmo momento.

Ao subir a escada nos deparamos com uma sala ampla com guichês e uma pequena fila de espera. O problema que tínhamos de resolver agora era o dinheiro. Em Shenzhen, como já estávamos na China, a moeda era outra, o Yuan, que é mais valorizado que a moeda de Hong Kong (HKD). Devido a isso tivemos de nos virar para fazer câmbio e pagar o custo do visto (300 yuans) na moeda local, o Yuan. Como não tínhamos tivemos de fazer o câmbio por ali mesmo na zona de imigração com uma taxa bem ruim.

De metrô até Shenzhen Estação de Lo Wu (vídeo)

Resolvida a questão da moeda, todos conseguimos o visto e seguimos para cruzar a fronteira e finalmente entrar na China continental.

Logo na saída da imigração, já nos deparamos com uma grande praça com um Shopping. Entramos nesse shopping e já pudemos perceber uma grande diferença na relação de venda. Em Hong-Kong, de uma forma geral os funcionários das lojas não insistem e não estão muito preocupados se você compra ou não o produto. Não ficam insistindo.

Já em Shenghen é totalmente o oposto. Os vendedores praticamente te puxam pra dentro da loja, insistem, tentam convencer e te vender a todo custo. Se você não dá bola ele vai atrás (literalmente) e já vai logo baixando o preço. Pergunta quanto você quer pagar e continua insistindo. Chega a ser chata a insistência. Fica parecendo que eles estão passando fome, o que se vê que não é nem de longe verdade.

Praça principal da entrada de Shenzhen Praça principal da entrada de Shenzhen

Muito cuidado com as compras na China

Como as pessoas tinham interesses de compra diferentes, se formou dois grupos. Junior e Júlia foram para um lado e Marcelino, Viviane e eu fomos para outro. Combinamos de nos encontrarmos num determinado ponto depois de uma hora e seguimos.

No shopping  logo após a fronteira havia de tudo, desde eletrônicos, roupas até brinquedos. Os preços pareciam excelentes, mas o receio de levar gato por lebre era grande. Em Hong-Kong quase não se via produto falsificado ou de má qualidade, com exceção do bairro de Sham Shui Po.

Já ali em Shenzhen quase tudo era falsificado, os famosos xing-lings. Foi então que decidimos sair do shopping e dar uma olhada em outras lojas, do lado de fora. Havia uma galeria com lojas muito bem instaladas e com equipamentos de última geração. Foi então que eu observei uma com o letreiro China Mobile, que é o nome de uma das maiores operadoras de telefonia da China.

Shopping de Shenzhen Shopping de Shenzhen

Entramos na loja e observamos que diferente das lojas do shopping, os produtos não eram todos apinhados e mal organizados. Havia expositores elegantes, e produtos que pareciam refinados. Começamos a ficar em alguns aparelhos específicos até que vi o Galaxy SIII, que naquele momento era o melhor smartphone do mercado mundial. Perguntei a ela se era original, insisti na pergunta e ela disse que sim. O preço era chamativo: 2500 yuans. Além disso, diferente das lojas do shopping, a vendedora não era esbaforida e nem ficava insistindo. Conseguimos negociar um desconto, mas nada comparado aos descontos das outras lojas, que chegavam a dividir o preço por 3, na oferta final.

Caímos num golpe, não caia você

O que conseguimos foi chegar a um preço de 4.200 yuans se comprássemos 2 (saindo cada um por cerca de R$ 750,00). Olhei o aparelho, vinha na caixa, com todos os selos e estávamos contentes por estar fazendo um excelente negócio, já que conseguimos colocar esse valor no cartão de crédito.

Fechamos o negócio, passamos o cartão e voltamos para o shopping, encontramos com Junior e Júlia e mostramos o que havíamos comprado. Junior olhou a caixa e disse que estava achando que a caixa não parecia ter tanta qualidade. Eu disse que para mim parecia “normal”.

Calçadas largas na praça de Shenzhen Calçadas largas na praça de Shenzhen

Dirigimo-nos então para uma loja que tínhamos passado antes para ver outros eletrônicos mais baratos, como pen drives e semelhantes. Quando o dono da lojinha nos viu com a caixa perguntou qual era o aparelho, e eu disse que era SIII. Ele pediu para olhar, tirou a capa da bateria e me disse: “Você sabe que não é original né?”. Eu Gelei! Fiquei revoltado e perguntei a ele como sabia. Ele disse que era uma falsificação de qualidade, mas ainda assim não era original, e que havia pequenos detalhes visíveis para aqueles que conheciam.

Eu disse a ele que tinha sido enganado, que tinha perguntado se era original e que a vendedora mentiu. Ele então, num tom de dica disse: “não há nada original aqui, nada”. Para finalizar e nos frustrar ainda disse que nos venderia o mesmo aparelho por 1300 yuans (havíamos pago 2100 por cada um!).

Nossa, a raiva subiu. Imediatamente eu disse que ia voltar lá na outra loja. Saí já num passo rápido, injuriado. Marcelino veio andando do meu lado e Viviane que também me acompanhava dizia “calma Amon, calma. Vê lá o que você vai fazer.” Eu disse a ela que ficasse tranquila, que ia somente chegar lá e exigir o estorno e a devolução do meu dinheiro.

Brigando para ser ressarcido

Cheguei lá com uma cara de raivoso e só ao eu entrar na loja e vendedora já deduziu do que se tratava. Abaixou a cabeça e ouviu-me dizer que queria meu dinheiro de volta. Ficou bem quietinha porquê sabia que tinha me enganado. Ela então chamou outra pessoa, que parecia ser o dono ou gerente.

Eu de modo curto e grosso disse que tinha sido enganado e que queria meu dinheiro de volta, naquele momento. Podia ser o estorno ou em espécie. Ele tentou criar alguma dificuldade, mas diante da minha posição de indignação e até certa rispidez percebeu que a situação era série. Eu disse a ele que se não fosse devolvido o dinheiro ia chamar a polícia, e ele então disse que desfaria o negócio.

Ele disse que não tinha como fazer o estorno, mas podia devolver em espécie, mas que teria de abater o custo do cartão, que era 100 yuans. Como eu queria resolver e ir logo embora dali, aceitamos, pois o prejuízo seria de 50 yuans para cada, já que eu e Viviane compramos 1 aparelho cada um. Saímos da loja com uma maçaroca de dinheiro e seguimos novamente para o shopping.

Fomos para a loja que tinha nos dado a dica, dizendo que o aparelho não era original. Lá, sabendo que tudo era falsificação, Viviane decidiu comprar o mesmo aparelho, agora por 1300 yuans, como o dono da loja havia nos oferecido. Já eu decidi que não queria comprar mais, pois realmente estava à procura de aparelhos de qualidade, originais. O aparelho mesmo sendo falsificado parecia bom, mas não era isso que eu procurava.

Além do smartphone Viviane comprou um pen-drive de 512GB! Parecia algo incrível e já desconfiado, eu pedi para testar o dispositivo. No computador do vendedor eu espetei o pen-drive e copiei quase 32GB, o que demorou um pouco. Depois de copiar, e abrir arquivos tudo parecia certo e Viviane então pagou.

Nosso "amigo" Lin Nosso "amigo" Lin

 

A curiosa e divertida negociação com chineses

Saímos da loja, seguimos para o ponto de encontro com Junior e Júlia e os encontramos em outra loja, onde eles negociavam várias coisas, inclusive pen-drives de 512GB (em atacado), caixas de som, e vários outros itens.

Foi nessa loja que conhecemos Lin. Um chinês cheio de humor, risonho e brincalhão. Ele era muito engraçado na negociação. Conhecia somente uma palavra em português: “amigo”. Quando nós não aceitávamos um preço e chorávamos, ele dizia: “amigooooo” e dava um abraço, como que dizendo: “o que é isso, me ajuda”.

Mas isso acontecia já no final de cada negociação, por que assim como as outras lojas ele pedia um preço e depois de uma longa negociação o preço saia muitas vezes menos da metade do que ele tinha pedido.

Ao ver o smartphone que Viviane havia comprado ele pediu para olhar  e disse que vendia muito mais barato. Viviane havia pago 1300 yuans (o mesmo que inicialmente compramos por 2100) e ele disse que venderia do mesmo por 800 yuans! Estava virando piada aquilo, pois em cada lugar que íamos eles olhavam e diziam que vendiam bem mais barato. Parece que eles se divertiam com isso! Viviane empolgada comprou outro smartphone, para dar de presente à sua mãe. Eu comprei um tablete (não para mim, mas para repor um que eu quebrei de outra pessoa) e um PC-TV, que é um microcomputador do tamanho de um pen-drive que se conecta à porta HDMI da TV transforma-a em uma Smart-TV.

Shenzhen uma cidade bem estruturada Shenzhen uma cidade bem estruturada

Depois de horas fazendo negociação e comprando produtos, finalmente no final do dia, começamos a voltar. Passamos pela imigração no sentido inverso, entramos novamente em Hong-Kong e de metrô voltamos para Tsin Sha Tsui, onde ficava o nosso hotel. Era meio estranho cruzar uma fronteira internacional de metrô urbano. É o tipo de coisa que só se vê na China, um país complexo.

Chegamos à região do nosso hotel e eu comuniquei aos outros que iria ao Harbor City shopping pegar o smartphone lumia 900 que eu havia encomendado. Era um lançamento e eu havia feito um pagamento parcial numa loja para, no dia do lançamento do aparelho na China ter o direito de compra um. Era uma loja de alto nível, que como em quase todo lugar em Hong-Kong só vende produtos de qualidade.

Fomos todos juntos, e ao voltarmos fomos comer num restaurante, cheio de compras e com a barriga desesperada de fome. Do restaurante seguimos para o hotel onde passaríamos a nossa última noite na China.

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