Relato de viagem

O primeiro dia em Hong-Kong: a chegada, os perigos, a falta de espaço e a beleza da cidade

O nosso voo durou cerca de 4 horas e foi bem tranquilo. Devido a ser uma companhia low cost, não houve alimentação a bordo, mas tínhamos nos preparado para isso, comprando um lanchinhos ainda em Bangcoc. Com o atraso, o nosso pouso em Hong Kong terminou sendo feito cerca de 10 da noite.

Aeroporto de Hong-Kong Aeroporto de Hong-Kong

Eu não sei quanto a vocês leitores, mas eu sempre tive certo receio de entrar na China. O regime político chinês é duro, autoritário e tem certa aversão a ocidentais. Sei que nos dias atuais, com uma imensa globalização e fluxo frenético de pessoas pelo mundo é comum e constante a entrada de estrangeiros e ocidentais em terras chinesas, mas sei também que a justiça e o direito individual não são pilares que balizam as autoridades desse país.

Por mais que estivesse tudo certo comigo e minha documentação e, em teoria, eu não tivesse nada a temer, eu tinha certo medo. Não medo de violência ou algo parecido, mas medo de que houvesse algum mal entendido ou problema na entrada e eu ficasse retido por alguma questão dessas ou mesmo que a nossa entrada não fosse autorizada.

Esse receio não era consciente e analítico, mas sim um pouco fantasmagórico. Talvez, mais uma vez, devido às histórias "contadas" de forma unilateral pelo cinema enlatado americano. Como sempre digo aos às pessoas com as quais converso, devemos fazer as coisas apesar do medo. Claro que esse receio específico não era latente e frenético. Era algo que ficava lá, em algum cantinho do meu subconsciente, e que o meu consciente pragmático me dizia para desconsiderar.

Entrando em Hong-Kong

Felizmente pude constatar que não havia motivo algum para esse receio. Chegamos, desembarcamos, pegamos nossas passagens e fomos em direção à imigração. Já havíamos preenchido o formulário de imigração no avião e devido a isso o processo foi bem rápido.

Após passar pelo oficial de imigração tivemos acesso ao saguão principal do aeroporto internacional de Hong Kong, que é imenso. Um grande pé direito, muito espaço e todo tipo de conexão de transporte estava disponível. A primeira coisa a fazer, depois da imigração era cambiar e colocar as mãos nos Hong Kong dólares, a moeda de Hong Kong.

Hong-Kong é um país ou uma cidade?

A definição exata do status de Hong Kong é um pouco confusa. Essa região riquíssima da Ásia foi colônia do império britânico depois da guerra do ópio (1842) até 1997. Inicialmente essa colônia se limitava somente à ilha de Hong Kong, mas terminou se expandindo para a península de Kowloon, que fica no continente chinês.

Mapa: laranja, amarelo e vermelho é Hong-kong Mapa: laranja, amarelo e vermelho é Hong-kong

Atualmente faz parte da República Popular da China (RPC), mas tem autonomia e independência em várias questões. Por exemplo, Hong Kong tem sua própria moeda (Hong Kong dólar), sua própria política de imigração além de sistema legal e judicial independentes da China. Oficialmente Hong Kong é definido como Região Administrativa Especial da China. Apesar de pertencer à China tem grande autonomia, e na maioria dos aspectos se comporta como se fosse um país independente, tendo, inclusive, sua própria bandeira.

Devido à excelente condição econômica, índice de desenvolvimento social, densidade populacional e independência nem mesmo os chineses podem residir em Hong Kong se não tiverem uma permissão de trabalho. Ou seja, mesmo pertencendo à China os chineses não podem escolher livremente  viver lá e há um rigoroso controle de fronteira por todos os meios de entrada. Hong Kong hoje é um centro financeiro internacional, tendo uma infraestrutura urbana de primeiro mundo e elevado custo de vida.

Câmbio automático, direto na máquina Câmbio automático, direto na máquina

Um câmbio diferente

Segundo eu havia pesquisado um real equivalia a cerca de 3,7 Hong Kong dólares (HKD). Depois de ter acesso ao saguão principal eu estava à procura de uma casa de câmbio quando, de repente, encontrei uma máquina de câmbio!

Nela bastava eu inserir, no meu caso dólares americanos, que seria expelido o equivalente em HKD. Inseri então 100 dólares e recebi cerca de 740 HKD. Nossa, que praticidade!. Adorei essa invenção. Não tinha visto esse tipo de máquina em nenhum dos outros países que  já visitei e fiquei feliz com a inovação, apesar de não saber se foi inventado por lá.

do aeroporto ao centro

Após o câmbio a nossa próxima tarefa era descobrir mais detalhes sobre os meios para irmos do aeroporto até o nosso hotel, que ficava em Kowloon. Como eu já tinha pesquisado sabia que havia metrô, ônibus e táxi. Devido ao grande volume de mochilas, e ao custo do metrô (100 HKD por pessoa para a linha especial do aeroporto até Kowloon) terminamos optando por irmos de táxi mesmo, pois dividindo por 4 imaginamos que sairia mais barato que o metrô.

O aeroporto era imenso de início tivemos certa dificuldade de saber por onde sair, mas depois de poucos instantes e da leitura de algumas placas encontramos o caminho que nos levou a um organizado ponto de táxi dentro do aeroporto. Esse ponto não era como no Brasil, onde há mais táxis do que passageiros. Na verdade havia muitos passageiros e poucos táxis e por isso havia uma fila, com curral e tudo.

Fila de táxi no aeroporto - foto: Stephen Cooper Fila de táxi no aeroporto - foto: Stephen Cooper

Não havia nenhum guichê para pagarmos pela corrida e nem funcionário que organizasse isso. Simplesmente as pessoas entravam na fila e iam caminhando pelo curral até chegar sua vez. Nós que estávamos visitando pela primeira vez não sabíamos o preço do táxi e seguímos na fila mesmo assim.

Hong Kong tem grande parte do estilo inglês e assim como em Londres, as pessoas estão quase sempre com pressa, e por isso assim que o táxi parava os passageiros já entravam, bem rapidamente, e o veículo já saia, tudo de forma bem ágil, sem o motorista saltar do carro. Vendo este cenário ficamos preocupados de entrarmos no táxi e no meio do caminho descobrir que o preço era muito além do que imaginávamos. Assim, combinamos que enquanto íamos colocando as malas no veículo Júlia perguntaria ao motorista quanto sairia, mais ou menos, a corrida para o nosso hotel.

Como estávamos com a reserva do hotel impressa, bastava mostrar e perguntar mostrando o papel com o endereço. Assim foi feito e para nossa tranquilidade o motorista disse que seria em torno de 250 HKD, bem mais em conta do que os 400 que gastaríamos os 4 se fôssemos de metrô.

uma cidade frenética e rica

Hong-Kong: uma cidade agitada Hong-Kong: uma cidade agitada

Hong Kong é um arquipélago composto por inúmeras ilhas, duas maiores e outras menores. Uma dessas ilhas se chama Hong Kong Island, ou Ilha de Hong Kong.

O aeroporto em que pousamos ficava em outra ilha chamada Lantau. A circulação entre as diversas ilhas é feita de diversas formas, incluindo pontes, barcos e túneis sub-marítimos. O nosso táxi fez o trajeto pela ponte, o que nos permitiu observar o visual que deixava claro que estávamos em um local de primeiro mundo.

Podíamos ver muitos arranha-céus, infraestrutura urbana de primeira e tudo que um país com alto índice de desenvolvimento social e econômico tem. O nosso hotel ficava numa das áreas mais nobres de Hong Kong, chamada Sham Shui Po. Chegamos lá depois de cerca de meia hora cruzando lindas avenidas e observando a beleza noturna da cidade-estado.

Ao parar o taxista imprimiu o nosso recibo (constava na plaquinha de autorização de circulação do táxi que era um direito do usuário solicitar o recibo), pagamos e já ficamos impressionados com o visual. Parecia que estávamos na 5th avenida, em Nova Iorque, devido ao alto adensamento de construções, altura dos prédios, e painéis eletrônicos nas fachadas dos prédios.

A SURPRESA DO HOTEL: Um gueto no meio da área nobre

Chuncking-Mansions na Nathan Road Chuncking-Mansions na Nathan Road

O nosso hotel chamava-se The Day and Night, e segundo o endereço ficava no edifício Chuncking Mansions, que logo observamos estar a poucos metros de nós. Devido ao horário (já quase onze da noite) os portões do edifício estavam fechados, só restando uma pequena portinha que permitia que apenas uma pessoa entrasse ou saísse de cada vez. O prédio era imenso, tanto em largura quanto em altura e tinha vários blocos, e por isso precisamos perguntar onde ficava o hotel e logo um funcionário de blusa branca e gravata preta nos disse que dobrasse a direita e depois à esquerda e esperasse o elevador.

Esse roteiro era dentro do prédio, que tinha uma área comercial nos dois primeiros pisos. Já era bem tarde e mesmo assim o volume de pessoas circulando na rua e dentro do edifício era bem grande. Mais do que o volume o que nos espantou um pouco foi a condição social das pessoas que circulavam dentro do edifício. A impressão que tínhamos era estávamos numa espécie de gueto.

O choque de realidades: rua rica e gente pobre

Apesar de não ter a intenção de pré-julgar ninguém, visivelmente naquele ambiente circulavam mais pessoas de menor poder econômico e algumas delas tinham umas caras assustadoras. É comum em locais muito desenvolvidos haver guetos, que é a concentração de imigrantes de determinada nacionalidade ou região, e é o que parecia ser ali. Havia muitos indianos, muitos africanos e poucos ocidentais. Ou seja, basicamente estava ali a classe trabalhadora que pega no pesado, trabalha na informalidade ou tem os empregos com menor remuneração.

O choque entre o visual da rua e de dentro das áreas do prédio era grande, pois lá fora parecia que estávamos na região mais rica da cidade e lá dentro parecia que estávamos num gueto. Mesmo naquele horário havia uma grande fila para pegar o elevador, e tivemos de esperar pacientemente nossa vez. Cada bloco tinha dois elevadores, e no acesso ao elevador havia monitores mostrando a câmera interna do elevador e havia um funcionário organizando a situação.

Entrando no hotel: um cubículo apertado

Depois de algum tempo chegamos ao andar do nosso hotel, o décimo. Apesar de o prédio ser bem antigo o hotel, internamente, tinha um acabamento impecável e em contra partida  um espaço mínimo. Desde quando comecei a planejar essa viagem eu tinha visto que hotel em Hong Kong era caro, difícil de encontrar e com tamanhos minúsculos. É claro que há hotéis espaçosos com tudo que se desejar, mas os preços são muito altos, totalmente fora do nosso orçamento.

No aperto do hotel de Hong Kong No aperto do hotel de Hong Kong

Ciente desse contexto, já estava um pouco preparado para dar de cara com um quarto pequeno e apertado, mas a realidade conseguiu superar todas as minhas expectativas negativas. Havíamos reservado, nessa primeira noite, um quarto para 4 pessoas. Logo que chegamos havia algumas pessoas na recepção fazendo check-in e por isso tivemos de esperar e fomos orientados  a ficar numa minúscula sala, que parecia ser o escritório do proprietário.

Ao entramos os quatro na sala com as mochilas não sobrou espaço nem para respirar. Ali já foi possível ter uma ideia de como espaço vale outro em Hong Kong. Quando chegou a nossa vez tivemos um grande inconveniente. A funcionária da recepção disse que não constava para ela que havíamos pago e por isso teríamos de pagar o valor total naquele momento.

Protestamos e tivemos de acessar a internet e mostrar a cobrança no cartão com o nome Day and Night. Feito isso ela chamou outro funcionário que parecia ter maior autonomia e disse então que fôssemos para o quarto, pois já era tarde, e que no dia seguinte veríamos isso.

Enlatados como sardinha

Depois de algum tempo esperando na recepção, que também não tinha quase espaço, finalmente fomos levados ao quarto e ao abrir a porta vimos que a questão de espaço era bem mais séria do que imaginávamos. O quarto tinha cerca de 3m² de largura por 3m² de comprimento, com duas camas de “casal” e um banheiro.

Aperto do quarto em Hong-Kong Aperto do quarto em Hong-Kong

É bem verdade que o acabamento do interior do quarto era de excepcional qualidade. Como o proprietário era um indiano, todo o tema era baseado na cultura indiana, com azulejos lindíssimos e acabamentos bem característicos. Mesmo com toda essa beleza, mal podíamos nos mexer, literalmente.

Devido às duas camas, uma pequena parte do piso ficava visível, e dessa forma praticamente só tínhamos como ficar dentro do quarto se ficássemos sentados ou deitados na cama. O banheiro, também era muito bonito, mas da mesma forma minúsculo. Tinha 1m² por 1m², e para tomarmos banho tínhamos de fechar o vaso e usar um chuveiro destacável, semelhante aos existentes em barcos.

Encontrar comida, uma aventura perigosa

Como estávamos com fome resolvemos, depois de nos acomodarmos, descer para tentar comer alguma coisa. Seguimos todo o trajeto reverso, e alguns minutos depois estávamos lá em baixo, na rua principal. Neste momento já era cerca de meia-noite e por isso aparentemente tudo estava fechado. Já havia bem menos gente nas ruas e isso nos preocupou um pouco.

7-eleven na Mody Road 7-eleven na Mody Road fonte: streetview

Tudo ficou mais tenso quando alguns locais nos ofereceram drogas, baixinho (sussurrando) . Eles ficavam falando alto “Rolex copy” (cópia de Rolex) e quando a gente passava perto deles falavam baixinho o nome de algumas drogas. Eu comentei isso com os outros e já preocupados  andamos um pouco mais rápido. Numa rua lateral observamos que havia um supermercado, pequeno, coincidentemente da rede 7 eleven, que já tínhamos visto na Tailândia.

Não havia muitas opções e devido ao avançar da hora não queríamos ficar muito tempo por ali. Escolhemos então um pão de forma fatiado, mas não conseguíamos encontrar um queijo. Os pacotes que estavam no refrigerador e pareciam ser queijo não tinham nenhuma parte transparente e tudo estava escrito em cantonês (língua falada em Hong Kong), e não tinha jeito de decifrarmos.

Tentei então perguntar à única funcionária da loja se ela tinha queijo, e para minha surpresa ela não falava inglês! Parecia que não ia rolar queijo naquela refeição até que então um morador local caridoso viu a nossa dificuldade e nos mostrou qual era o queijo (ele falava inglês) e terminou por salvar a nossa refeição da noite e do dia seguinte de manhã! Depois da nossa compra voltamos para o nosso hotel, tomamos banho, conversamos um pouco e dormimos, quase um em cima do outro.

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