Relato de viagem

Partindo de Goa: as complicações de embarcar num voo doméstico na Índia

Este era nosso última dia em Goa, estávamos um pouco preocupados se nosso próximo destino seria tão bacana quanto este tinha sido. O combinado é que nessa manhã iríamos arrumar nossas coisas, dar uma caminhada, passar em na loja da nossa recém amiga Harshada para nos despedirmos e depois seguir para o aeroporto.

Como a loja de Harshada ficava bem pertinho do hotel, passamos logo lá. Mais uma vez as meninas olharam e compraram roupas e badulaques e depois de algum tempo chegava o momento de no despedirmos.

Um até logo com cara de adeus

Esse momento foi um pouco triste, pois apesar de conhecermos Harshada a muito pouco tempo havia se formado um lanço de amizade. Percebíamos que tanto da nossa parte quanto da parte dela havia uma tristeza no fundo dos olhos, por sabermos que provavelmente nunca mais a veríamos.

Despedida de Harshada Despedida de Harshada

Olhamos para ela, ela olhou para a gente, e terminamos todos nos abraçando. Tiramos também uma foto todos juntos e dissemos um até mais que parecia ser um adeus. É bom fazer amizades, principalmente com pessoas tão bacanas Harshada. Essa amizade nos lembra que há sentimentos e sensações que são universais e independentes de cultura e a amizade é uma delas.

Entramos no carro e começamos a nos despedir de Goa, um lugar que nos abrigou por poucos dias mas nos trouxe uma outra imagem da Índia, bem diferente da que tínhamos tido de Mumbai.

Seguindo de carro mais um vez observamos uma paisagem  muito bonita no nosso percurso. Goa fica numa latitude tropical e a vegetação é bem parecida com a da mata atlântica brasileira. As estradas eram bem conservadas, sem buracos, e em vários trechos víamos boas construções, inclusive com casas que pareciam mansões.

Um aeroporto surpreendente

Aeroporto Vasco da Gama Aeroporto Vasco da Gama

O nosso voo era doméstico, já que voaríamos do Aeroporto Vasco da Gama (sim, aeroporto com nome em português - entenda lendo isso), em Panaji, para New Delhi. Conversando com o motorista descobri que havia pouco tempo que esse aeroporto tinha passado a receber voos internacionais de algumas origens, e por isso imaginei que o aeroporto seria de qualidade média.

Chegando lá percebi que havia me enganado. Apesar de pequeno era bem novo, muito bonito e organizado. Esse seria nosso primeiro embarque aéreo na Índia, já que só tínhamos desembarcado em Mumbai na nossa chegada.

Armas para todos os lados

Logo de cara percebemos que por algum motivo há uma preocupação grande com a segurança, já que na porta de entrada principal havia alguns militares armados (e muito bem armados) e para entrar no aeroporto precisávamos mostrar passagem e passaporte para um militar, que entre outras coisas tinha uma metralhadora pendurada.

Para nós era um pouco estranho, já que pela nossa experiência até aquele momento a Índia parecia super tranquila em relação a segurança e crimes, inclusive parecia mais segura que o Brasil. Mas mesmo assim eles tinham um controle rigoroso, inclusive proibindo a entrada de quem não é passageiro, algo impensável no Brasil.

DSC07423 Militar com armas e Passageiro com turbante

Após conferência de documentos, entramos no aeroporto. Logo fomos orientados a passar nossas bagagens no scanner. Colocamos uma a uma, e quando estava passando a de Júlia um funcionário pediu para ver a passagem. Quando Júlia mostrou ele disse alguma coisa que ela não entendia e então ela me chamou, e pude entender que ele estava dizendo (num inglês ruim) que estava muito cedo, que devíamos passar a passagem no scanner mais tarde!!

A instrução que havíamos recebido era de voltar (para o scanner) dali a uma hora e meia. Resolvemos então nos instalarmos numas cadeiras disponíveis e esperar o tempo passar. Aguardamos o tempo solicitado e então nos dirigimos ao scanner novamente.

Surpresas no check-in da Índia

Passadas as mochilas fomos ao guichê da companhia aérea que ficava a poucos metros do scanner, a SpiceJet. Apresentamos nossos documentos e começamos fizemos o procedimento de checkin sem problemas. Entretanto, na vez de Júlia e Marcelino a atendente solicitou o cartão de crédito que havia sido utilizado para pagar a passagem.

Atrasos no voo Atrasos no voo

Ele não o tinha mais por que o mesmo tinha vencido, e estava com uma nova via. Segundo a regra da companhia, tinha de ser apresentado o mesmo cartão que fora utilizado na compra. Essa exigência nos lembrou que que em lugares diferentes as coisas podem funcionar de maneira diferente! No Brasil e em todos os países que eu já havia visitado nunca vi esse tipo de exigência, mas ali era  assim.

Cheguei a questionar a funcionária sobre não termos sido informado sobre essa exigência, e ela disse que vai escrito em cada passagem essa regra. O resultado é que Marcelino e Júlia tiveram de pagar a passagem novamente e a atendente disse que automaticamente o sistema faria o estorno do pagamento efetuado anteriormente. Para efetuar esse pagamento Marcelino e Júlia tiveram de ir a outro local, distante do balcão de check-in, onde seria passado o cartão de crédito. Isso demorou um pouco e ficamos lá aguardando.

Eu só queria um comprovante de estorno

Após retornarem, o processo de check-in foi finalizado e ao final a atendente deu a passagem, os comprovantes de bagagem mas nada que falasse do estorno! Marcelino me chamou e logo pediu para que eu dissesse que ele queria um comprovante do estorno. Ela disse que o sistema é que faria o estorno, e que não havia um comprovante.

Achamos aquilo muito estranho e eu insisti que precisávamos de algo que comprovasse que receberíamos o pagamento anterior de volta. Ela então pegou o comprovante do novo pagamento e escreveu de caneta que seria feito o estorno! Eu mal acreditei. De caneta? Eu posso escrever qualquer coisa no papel, isso não serve como comprovante/prova de que vou receber o reembolso, disse eu. Ela disse que não havia comprovante de estorno e que o máximo que poderia fazer era aquilo. Eu já um pouco zangado disse que não aceitava aquilo. ela então assinou, conversou alguma coisa em hindi com outro funcionário do lado e deu um carimbo abaixo da assinatura!

Pelo visto aquilo era realmente o máximo que ela podia fazer, eu disse isso a Marcelino e disse que ele tinha de acreditar que o reembolso apareceria no cartão! Terminados os processos de checkin a funcionária nos disse que o voo estava atrasado em duas horas!! Nossa, duas horas! O Jeito era levar mais um chá de cadeira.

Chá de cadeira

Cyber café em troca de tomada

Novamente seguimos para as poltronas e depois de alguns minutos sentados Júlia sugeriu que dividíssemos o custo de uma internet no cyber café que havia lá e poderíamos então pedir para usar uma tomada (já no local de espera não havia). Assim Marcelino poderia tentar escrever alguma coisa enquanto Júlia faria upload de algumas fotos  no nosso site.

Fui lá e verifiquei o preço e perguntei se pagássemos a internet se poderíamos conectar o notebook na tomada. A moça mesmo achando meio estranho aquele pedido disse que sim.

DSC07417 Panorâmica do aeroporto de Goa

Passada a meia hora de internet Júlia e Marcelino voltam e ela me diz que a internet era horrível e que nessa meia hora só foi possível fazer o upload e 3 fotos!! Sério?? :-( Que decepção, que dinheiro mal gasto, pensei.

Esperando um ataque terrorista?

Logo depois disso vimos no painel que o nosso voo acabara de atrasar mais 40 minutos! Decidimos então sair dali e seguir para um local perto do portão de embarque. Seguimos por um corredor amplo e ao caminharmos logo percebemos que o aeroporto era bem maior do que supúnhamos.

Hindi - um idioma difícil Hindi - um idioma difícil

Seguimos para os assentos próximo ao nosso portão de embarque, aguardamos um pouco e logo deu nosso horário de entrar. No acesso do portão de embarque havia uma militar, que novamente conferiu nossos passaportes e cartões de embarque. O diferente disso é que não são policiais, e sim militares das forças armadas que fazem essa segurança, e muito bem armados. Logo após passar por essa militar chegamos na área de revista, onde nossas bagagens de mão foram scanneadas e passamos por detectores de metais.

Na sua vez Viviane deu um "good night", para o militar e ele meio cisudo, sem entender, perguntou: "what??" e eu então disse a ele: "she only said good night sir". Ele então relaxou e sorriu, meio que espantado com o cumprimento. Pelo que pude perceber havia um certo clima de tensão no ar. Devido à segurança reforçada e as armas de grosso calibre dava a impressão de que algo ia acontecer a qualquer momento. Sei que já houveram alguns ataques terroristas na Índia, mas imaginei que isso não fosse uma preocupação nessa região.

Conhece um tripé?

Bom, passamos nossas mochilas, e a mochila de meu pai ficou enganchada. Eu criei o hábito de sempre ficar por último, pois nessas área normalmente é proibido ficar esperando após passar pela revista, e ficando por último eu podia ajudar os outros com a tradução em alguma dificuldade.

Pediram para Marcelino abrir a mochila, dizendo que havia algum metal. Eu fui traduzindo e dizendo ao militar que podia abrir a mochila, sem problema algum. Ele procurou, procurou e terminou achando um pequeno tripé para câmera de meu pai, que tinha um pedacinho de metal somente na ponta, onde rosqueia a câmera. Ele a princípio não reconheceu o artefato e ficou olhando meio desconfiado, mas depois terminou sacando, e para dizer que entendeu colocou-o em pé a abriu as três pernas! Demos umas risadas e tudo ficou bem quando ele também sorriu.

Preocupação redobrada com a segurança

Dali seguimos para a sala de embarque, que era um pouco pequena para a quantidade de gente que havia. Na área de revista pela qual acabáramos de passar os militares carimbavam a etiqueta que havíamos preenchido com nossos nomes e fixado na mochila. O intuito dessas etiquetas era, ao meu ver, garantir que nenhuma bagagem fosse de forma anônima, para se caso houvesse alguma com algo proibido ou perigoso o dono não deixasse de ser identificado. Acho que é algo realmente interessante, mas também nunca tinha visto em outros aeroportos pelo mundo.

Aguardamos um pouco nessa sala e poucos minutos depois o embarque foi liberado. Mais uma vez passamos por outro militar que checou o passaporte e a passagem, dessa vez antes de termos acesso à saída para embarcar no ônibus que nos levaria ao avião.

Depois de passar por esse acesso e enquanto caminhávamos em direção ao ônibus por alguns poucos metros Júlia começou a tirar fotos com o seu celular e logo apareceu um funcionário dizendo que fotos não eram permitidas naquela área!

Passageiros de turbante Passageiros de turbante

Pré-conceito ou terrorista?

Ainda quando estávamos na sala de embarque pudemos observar algumas figuras meio "estranhas". Sei que isso tem ar de pré-conceito, mas ficávamos meio preocupados quando víamos aqueles indianos com roupas muçulmanas  tradicionais, incluindo o turbante na cabeça.

A imagem que me vinha na cabeça é que eles podiam estar embarcando para fazer um atentado terrorista no avião! Essa associação é fruto inconsciente das inúmeros filmes hollywoodianos que sempre retratam os muçulmanos como terroristas e radicais.

Pré-conceito ou não essa ideia passou pela minha cabeça! Entramos no avião, e logo percebemos um imenso borborinho  Havia um grupo de jovens indianos que estavam fazendo muita algazarra e falando demais. Depois de uma longa espera para que todos sentassem e se arrumassem o avião decolou. Logo no assento da minha frente havia um passageiro com turbante bem grande, e no posterior mais outro. Esses turbantes volta e meia me lembravam dos ataques terroristas!

Eu tentava me livrar daquele ideia, mas ela insistia em voltar. Depois que passamos a decolagem e começarmos a planar essas ideias fora embora e relaxei. Seriam duas horas e pouco até  Nova Delhi, e sem nenhum lanche, já que essa passagem era por uma companhia "low cost",  tipo a Gol,  que não dão nada de comer ou beber. De qualquer forma era compreensível, já que essa passagem tinha custado somente R$ 170,00, para uma viagem de cerca de 2000 quilômetros. A nossa expectativa em relação à capital da Índia era grande e estávamos torcendo para nosso hotel não ser num lugar ruim, como aconteceu em Mumbai.

 

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