Relato de viagem

Tour nostra Itália com dia regado a vinho, passeio de maria fumaça e cultura italiana

O tour Nostra Itália percorre pontos turísticos e conta a epopeia da imigração italiana para a Serra Gaúcha e o Brasil e o escolhemos por ter um roteiro interessante, amplo, com diversas atrações e com um preço justo. Pagamos por esse passeio, incluindo almoço, R$ 169,00 por pessoa. E melhor, comprando esse tour ganhamos de graça o tour Gramado e Canela (que custaria normalmente R$ 60,00 ). A única custo não incluso nos 169 foi o ticket do espetáculo da Epopeia Italiana, que foi R$ 15 reais. Esse foi um dia especial, com muito vinho, risadas, passeio de trem, cultura e comida boa, partindo de Gramado, passando por Nova Petrópolis, Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Carlos Barbosa.

Café farto na Casa da Juventude Café farto na Casa da Juventude

O café surpreendente e o início do passeio

Levantamos às 06:30 da manhã e descemos para esperar a van da agência GA Turismo. A orientação é que estivéssemos prontos meia hora antes do horário marcado para saída, 07:30. Havíamos conversado na noite anterior na recepção do hotel Casa da Juventude e nos disseram que iam preparar um café para nós, apesar de o horário normal do café ser a partir de 07:30.

Quando descemos nos deparamos com uma linda mesa, com inúmeras variedades. Dava vontade até de desistir do passeio somente para tomar um café da manhã com mais calma. A van chegou um pouco atrasada (felizmente, já que assim conseguimos tomar café)  e partimos para um passeio com uma guia bem humorada que nos recebeu e explicou o roteiro, dizendo que a primeira parada seria na vinícola Tonet. Entretanto, do nosso ponto de partida até a vinícola seria cerca de uma hora e por isso a orientação era cochilar já que estava cedo e o dia seria longo.

Acordando com a guia Acordando com a guia

Conhecendo a vinícola e saboreando muitos vinhos

Já próximo à vinícola, ainda dentro da van,  fomos acordados e foi iniciada a explicação sobre a potência de fabricação de vinhos que é a Serra Gaúcha. ela complementou dizendo que visitaríamos uma vinícola familiar e que produz vinhos finos, que segundo ela não são vendidos em mercado e adegas, mas somente diretamente pelo produtor.

A Tonet é uma vinícola familiar que produz vinhos desde 1897 e a tradição e conhecimentos vem passando de geração em geração. Ao chegarmos fomos recebidos por um membro da família Tonet que contou um pouco sobre a história da região e demonstrou conhecimento sobre os vinhos, apesar de seu jeito simples.  Explicou como as videiras são cultivadas, as técnicas utilizadas,  os tipos de uva , como é o cultivo em relação à posição e como o tipo de poda influencia no teor alcoólico de cada vinho. Depois da explicação fomos conhecer os locais onde os vinhos ficam armazenados e são envelhecidos, os chamados barris.

Conhecendo a vinícola Tonet (vídeo) Conhecendo a vinícola Tonet (vídeo)

 

Aprendendo sobre o processo de planto e fabricação de vinhos

Ainda havia entre os imensos recipientes um de carvalho, mas os outros dois mais novos eram de inox. Segundo o nosso anfitrião o carvalho (um tipo de madeira) praticamente se extinguiu e o preço o tornou proibitivo. Os barris eram bem altos, chegando quase até o teto e ele explicou que os vinhos podem ficar ali até por anos, dependendo do tipo da uva e da safra.

Deixando o local de armazenamento seguimos para o local mais desejado: a adega. Lá seria onde degustaríamos inúmeros vinhos. A adega era muito bem cuidada, aconchegante, toda de madeira e com uma linda decoração. Ao longo de um comprido balcão havia cerca de 20 tipos de vinho (e mais duas garrafas de suco de uva), um do lado do outro e segundo o nosso anfitrião teríamos a oportunidade de conhecer e provar cada um deles. Ele iniciou a apresentação do suco de uva e falou sobre as propriedades, a qualidade, como era produzido.

Adega  Tonet Adega Tonet

Convidou todos a experimentar e seguiu a explicação passando para os vinhos, falando também sobre o teor alcoólico e sobre as harmonizações (com o que seria bom combinar o vinho). Obviamente eu e as outras pessoas não conseguimos provar todos, até por que sairíamos de lá bêbados, mas gostei especialmente do Moscato Suave. Acho que todos compraram vinho.

Viviane e eu compramos 9 garrafas ao todo, incluindo os que eram para presente. Os preços são bem legais. Na média cada um saiu por cerca de 18 reais. Vinhos dessa qualidade, se comprados numa loja custam muito mais. Se você fizer essa visita e quiser comprar muitas unidades eles tem a opção de mandar entregar em casa, por uma taxa adicional. Isso é especialmente útil para aqueles que vão se deslocar de avião, já o que limite legal para voos domésticos é 5 litros por pessoa.

Vinhos para degustação Vinhos para degustação

 

Visita à fábrica da Tramontina

Depois da vinícola Tonet seguimos para a fábrica da Tramontina. Antes de chegarmos lá foi explicada toda a história da marca que começa em 1911, quando Valentin Tramontina, filho de italianos chega à cidade de Carlos Barbosa, RS, e abre a ferraria Tramontina, uma pequena oficina.

Ao longo do tempo a qualidade dos produtos feitos pela ferraria se torna conhecida e a marca cresce até se tornar um dos maiores fabricantes mundiais de utensílios de cozinha e inúmeros outros itens ligados à área de ferragens. Hoje a empresa tem cerca de 6.000 funcionários, exporta para mais de 120 países e é o maior empregador da cidade de Carlos Barbosa. O nosso tour parou na loja de varejo da Tramontina e pudemos conhecer uma grande variedade de produtos, mas devido aos preços altos não compramos um item se quer. Imaginamos que por estarmos numa loja realmente de fábrica os preços seriam melhores, mas não foi isso que encontramos. Acho que a fábrica se tornou tão turística que os preços foram elevados.

Loja da fábrica Tramontina Loja da fábrica Tramontina

A loja e o teatro dos queijos

Saindo da Tramontina visitamos, do outro lado da rua, a Fetina de Formaio, uma loja de queijos e produtos relacionados. Lá pudemos encontrar queijos especiais e, para aqueles que gostam (não é o meu caso), embutidos, como salames e outros. Entretanto, o mais interessante dessa loja não eram os produtos, mas sim os vendedores. Havia um que ficava na parte dos queijos que era uma atração à parte. Ele contava histórias, piadas e provocava os clientes, incitando-os a provar os petiscos de  queijo que ele cortava na hora e oferecia. Ele ficava com uma série de tipos de queijo no balcão e explicava, de forma muito engraçada e teatral, o sabor e a composição de cada um. Terminamos comprando um pedaço de um queijo que provamos e gostamos. Não havia muito tempo, segundo o cronograma, e logo em seguida voltamos para a van e seguirmos para a próxima parada.

Vendedor de queijos comediante Vendedor de queijos comediante

 

A espetáculo da Epopeia italiana

A Epopeia Italiana, em Bento Gonçalves é um espetáculo diferente. A história da imigração italiana é contada através de vários cenários, que não ficam num palco.

A platéia vai acompanhando um ator que guia os visitantes por diversos cenários que visam reproduzir contextos da história relatada e em cada um deles o ator conta um trecho da epopeia que foi, a mais de 100 anos atrás, vim para o Brasil em embarcações velhas e sujas, sacolejando por meses no mar  (muitos morriam), com a esperança de chegar na terra que na Itália era "vendida" como um paraíso.

Naquela época o Brasil carecia de mão de obra, mas ao invés de empregar os recém libertados escravos foi feita uma propaganda institucional do Brasil em diversos países da Europa, que passavam por dificuldades e guerras. A propaganda atraiu centenas de milhares de imigrantes, que vinham com a promessa de ter aqui sua própria terra.

Do lado do governo brasileiro e da elite branca esse estratégia foi traçada também com o objetivo disfarçado de "clarear" a população brasileira, que era, e ainda é, na maior parte negra. Através dos diversos cenários que retratavam moradia, embarcação, alojamentos e plantações pudemos conhecer mais detalhes dessa sofrida imigração.

Epopeia Italiana Epopeia Italiana

O espetáculo é muito interessante e crítico, mostrando o ponto de vista de quem sofreu na pele as dificuldades, a fome e a morte. A peça é baseada na história de Lázaro e Rosa, que foram imigrantes reais que passaram por todas essa epopeia.

Almoço farto e gostoso no tour

Terminando de assistir a epopeia fomos almoçar no restaurante Bene Mangiare, em Bento Gonçalves, na rua Dr. Casa Grande, 473. Nós simplesmente adoramos o lugar. A comida era bastante variada e gostosa e também sobre-mesa. O melhor era que o almoço estava incluído no tour.

O restaurante trabalha com buffet a quilo, então a orientação era que nos servíssemos à vontade e a cada pesagem guardasse a comanda que no final a guia acertaria tudo. O valor do quilo era 30 reais e como eu como muito minha comanda deu mais de 45 reais! Saímos de lá todos satisfeitos e em seguida fomos para a estação ferroviária de Bento Gonçalves, onde tomaríamos o trem para fazer o passeio de Maria Fumaça. Durante esse almoço tivemos a oportunidade de conhecermos melhor uns aos outros e a conversa principal ficava em torno da caçula do grupo, a menina Vitória, de cerca de 8 anos. Ela era muito simpática, esperta e conversadora e se tornou o xodó do grupo.

Maria Fumaça Maria Fumaça

 

O passeio no trem Maria Fumaça com teatro e vinho

O passeio de trem a vapor figura entre as principais atrações da região e é realmente imperdível. O percurso inicia-se na estação Bento Gonçalves, para na estação de Garibaldi e depois prossegue até a estação de Carlos Barbosa (as três fundadas a quase 100 anos atrás ).

As estações e a rede férrea, há muitas décadas atrás, eram utilizadas para transporte de carga e passageiros e em 1976 esse ramal foi desativado, voltando a ser ativado em 1978 pela Rede Ferroviária Federal como trem turístico, ficando conhecido como trem do vinho.  Em 1993 o mesmo ramal passa a ser operado por uma empresa privada de turismo.

Até hoje esse percurso é feito somente com propósitos turísticos e por isso procura-se recriar todo um ambiente da época. As vestimentas dos funcionários, a decoração das estações as composições e até mesmo o interior dos trens é mantido ao máximo de acordo com a época em que o trem operava como trem de passageiros. Me surpreendeu a organização e dos detalhes que são preparados para que o visitante realmente se sinta num trem de época. Cada passageiro recebe uma taça e pode, apresentando seu "cartão de embarque" ser servido de vinho.

Dentro dos trens, do lado de cada assento há duas estruturas de metal (uma para cada um dos dois assentos) para que os viajantes possam colocar suas taças. Até mesmo esse item foi mantido como original e é realmente muito útil. Isso mostra que desde aquela época era hábito se tomar vinho nos trens. Nós estávamos desde cedo tomando vinho (na vinícola, depois Epopeia Italiana e agora no trem) e já estávamos todos um pouco alegres :-).

Teatro no trem Maria Fumaça da Serra Gaúcha Teatro no trem Maria Fumaça da Serra Gaúcha(vídeo)

O trem vira um teatro de alegria

Todo o passeio é acompanhado por comissárias de bordo, vestidas à caráter e que vão explicando cada detalhe e apresentando os artistas que alegram o percurso. Há comediantes muito engraçados, músicos e dançarinos. O melhor de tudo é que os dançarinos são todos senhores e senhoras, já com mais de 60 e 70 anos.

Eles chegam também com roupa de época, muito animados e começam a chamar, um a um, os passageiros e passageiras para dançar a música típica que vai sendo tocada ao vivo. As comediantes encenam duas solteironas que estão à procura de marido, e fizeram todos nós rirmos muito.

Depois de cerca de 40 minutos de trajeto o trem parou na estação de Garibaldi, onde pudemos, mais uma vez, encher a taça de vinho e tirar algumas fotos. Reembarcamos no trem após 15 minutos e para nossa surpresa, os senhores e senhoras que haviam dançado conosco no trem estavam do lado de fora, com pedaços de pano na mão e assim que o trem começou a andar eles acenaram com os panos, imitando propositalmente o gesto que era feito a muitas décadas atrás quando os trens partiam da estação.

Adeus à antiga Adeus à antiga

Viviane foi quem percebeu que isso ia acontecer e me alertou de forma que tive tempo de tirar algumas fotos dessa linda cena.

Trajeto histórico

Na sequência do trajeto passamos por pontes, montanhas, áreas rurais e urbanas e fora alguns detalhes da paisagem, seria fácil um desavisado achar que tínhamos voltado no tempo. As fazendas, os pequenos sítios e a área rural como um todo preservavam ainda aspectos que pareciam não terem sido levados pelo tempo.

Essa paisagem e o interior do trem são tão similares ao que se via  há muitas décadas atrás que cenas do filme O Quatrilho, que foi indicado ao óscar, foram filmadas nesse mesmo Maria Fumaça que estávamos passeando naquele momento.

Completamos o resto do trajeto e chegamos à estação de Carlos Barbosa, onde a van da agência já nos esperava. Todos saímos sorridentes e um pouco tontos (de tanto beber vinho).

Trem em movimento Trem em movimento

Parada para compras

A próxima parada seria num shopping de malhas em Nova Petrópolis. Segundo a guia os preços eram bons, mas não foi o  que encontramos. Não se engane. Sempre que um guia leva um grupo a um local de compras não significa que o local seja necessariamente bom ou barato, mas significa, com certeza, que a agência ou o guia tem um acordo comercial para eles ganhem uma comissão de cada compra realizada pelos turistas.

Como o preço não estava nada bom e eu não precisava comprar nada, só acompanhei Viviane, que comprou meias. Essa foi a nossa última parada e dali fomos deixados no hotel. Nesse trajeto de retorno conversamos um pouco com os outros turistas e descobrimos que alguns deles fariam também o tour Gramado e Canela que havíamos ganhado de cortesia. Como alguns já tinham feito e outros ão fariam ficou combinado de, no dia seguinte, no final da tarde, nos encontrarmos na Rua Coberta, uma das atrações de Gramado.

passeios temáticos são ótimas opções

Existem diversos passeios turísticos na Serra Gaúcha e a maioria foca ou na cultura italiana ou na alemã.  O nosso foi voltado à italiana e não teríamos tempo para fazer outro focado na alemã, que deve ser também muito interessante. De qualquer forma deixo aqui o conselho para você não faça esse trajeto (Gramado, Caxias do Sul, Garibaldi, Carlos Barbosa e etc) por conta própria com o objetivo de visitar os lugares de forma independente.

Eu costumo fazer isso em muitas viagens mas felizmente percebi que essa não seria a melhor opção nesse caso. As agências já tem toda a logística montada e o preço está bem justo, considerando que o almoço custa no mínimo R$ 30,00 e o ticket do Maria Fumaça 79,00. Se fizermos essa conta podemos verificar que a diferença é de 60 reais para ter um transporte completo, orientação, planejamento e informação. Além disso, alugar um carro não é uma boa opção (nós chegamos a reservar um e depois desistimos) por que como é comum tomar vinho durante vários momentos dos passeios a combinação com a direção além de ilegal seria perigosa e por outro lado fazer esse passeio e não degustar os vinhos seria um desperdício.

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