Relato de viagem

A beleza da cidade de Lima, o Barranco, a orla, o Parque das Águas e a visita macabra ao ossuário

Tínhamos na cabeça de que não valia a pena ficar dois dias em Lima. Muitas vezes centros urbanos são barulhentos, estressantes, perigosos e com poucos atrativos para os turistas, especialmente para aqueles que gostam de natureza. Mas Lima não é assim. Posso dizer que a capital do Peru foi uma das grandes surpresas dessa viagem. Já na nossa passagem rápida feita quando chegamos e fomos para Cusco pudemos observar bonitas avenidas, limpas e floridas e um aeroporto também muito agradável. Quando nos dirigimos para o nosso hotel, em Miraflores, ainda no início da viagem, ficamos surpresos com o padrão do bairro, com casas bonitas, ruas bem cuidadas. Realmente um bairro de primeira. Ainda assim ficamos pensando que só esse bairro era sim, sendo um local para ricos e o resto da cidade a deixaria a desejar. Nos disseram que Lima era uma cidade perigosa e violenta e que mal se podia andar por lá com tranquilidade. Devido a tudo isso chegamos a pensar em fazer mudanças para transferir um dos dois dias que planejamos em Lima para outro local, como Cusco, mas por uma série de questões de logística isso terminou não acontecendo, felizmente.

Orla de Lima Orla de Lima

Chegamos em Lima às 13:00, na mesma estação da Cruz del Sur onde embarcamos dias antes para Cusco. Aproveitamos para comer, usar o banheiro e depois tomamos um táxi para o hostel Kusillu's, onde ficaríamos por duas noites. Essa hospedagem fica na Avenida José Larco, mais perto da orla e das avenidas principais de Miraflores em relação ao hotel anterior e esse foi o motivo da nossa escolha. Apesar de ser hostel (são alugadas camas, sendo o quarto compartilhado por pessoas que não se conhecem) conseguimos um quarto privado, já que éramos três, por o módico preço de 60 dólares para os três por duas noites. Ou seja, 10 dólares por pessoa por noite.

Quanto tomamos o táxi o motorista logo nos disse que não teria como nos deixar em frente ao hotel por que essa avenida (José Larco) estava fechada para obras. Ficamos um pouco desconfiados, pois poderia ser conversa dele para nos deixar em um lugar longe e cobrar como se estivesse ido até o endereço, já que não conhecíamos a cidade. Sendo assim tratamos de ligar o GPS e ao nos aproximarmos verificamos se realmente estávamos pertinho do nosso destino. Essa é uma dica muito importante para os viajantes: se possível tenha sempre um GPS com mapas offline (que não precise de conexão com internet) à mão. Isso pode te ajudar em muitas situações e até mesmo verificar a idoneidade dos taxistas locais.

Parque dos Amores Parque dos Amores

Ele nos deixou a uma quadra do nosso hotel e a avenida estava realmente em reformas e fechada para veículos. Andamos muito pouco e já encontramos nosso nova casa em Lima por dois dias. Já era 4 da tarde e depois de quase 3 dias viajando e parando de ônibus queríamos relaxar um pouco. Tiramos as coisas da mochila, tomamos banho, descansamos e quando já era noite saímos para dar uma volta, ali por perto mesmo. Realmente estávamos numa região muito bonita, com casinos, avenidas importantes e muitas lojas elegantes. Caminhamos algumas quadras e o que nos deu tranquilidade foi ver que as ruas estava bem cheias, com muita gente circulando. Paramos num café muito agradável e comemos uma pizza vegetariana acompanhada de um delicioso chocolate quente e gastamos 20 soles para os três. Depois desse happy-hour voltamos para nosso hotel para dormir cedo e tentar aproveitar o máximo do dia seguinte.

Nos retava um dia na cidade, e já aprendi que uma das melhores formas de conhecer um local é tomar um ônibus turístico (também conhecido como sightseeing ou pelo tipo de serviço hop on ho off). Essa modalidade de passeio te leva para os pontos mais importantes da cidade, contando a história, parando para tirar fotos e muitos ainda permitem que você salte num determinado ponto e tome o próximo, que normalmente passa de 30 em 30 minutos ou de  1 em 1 hora. Com essa ideia na cabeça fomos à caça do Turisbus, como é conhecido em Lima. Seguimos andando pela avenida José Larco seguindo também algumas dicas do recepcionista do hostel que nos deu uma cópia de um mapa e assinalou os pontos mais interessantes ali próximo para se conhecer e terminamos chegando na orla, especificamente no belíssimo shopping Larcomar. Esse ponto importante da cidade fica encravado numa montanha a beira mar e caminhando pelo mesmo temos uma vista espetacular. Sem sombra de dúvidas é um dos shoppings mais bonitos que já visitei, principalmente devido à sua localização. Ali mesmo descobrimos um guichê do Turisbus e reservamos para iniciar o passeio às 15:30, pagando 60 soles pelo tour que nos apresentava Miraflores, o Centro Histórico e dava direito à entrada em dois museus. Infelizmente esse modelo era diferente do que estamos acostumados (hop on hop off), que nos permite saltar em qualquer parada, ficar o tempo desejado e tomarmos o próximo. Isso restringiu bastante nossa liberdade de conhecer com mais calma cada local, mas devido à falta de opções decidimos comprar o ticket.

Turisbus Turisbus

Ainda era de manhã e decidimos aproveitar o o tempo para conhecer pontos pelos quais o ônibus não passava, como o Parque del Amor e depois tomamos um táxi para o Barranco, um bairro famoso por sua boemia e bares. A cada canto que íamos de Lima continuávamos surpresos com a organização da cidade. As ruas sempre limpas, muitos canteiros de flores super bem cuidados, muitos jardins e tudo conservado, podado e aparentemente feito com carinho. Andávamos quilômetros e quilômetros e sempre vendo flores, flores e mais flores, todas bonitas, limpas e cheirosas. Começamos a fazer comparações e até ali constatávamos que aquela era realmente uma cidade especial, onde dava vontade de se viver. A junção de uma cidade bonita, lima e organizada com um povo acolhedor é algo inspirador e para cada cantinho bem cuidado e zelado que eu olhava me dava amargura lembrar de Salvador, que está cada vez pior.

Para nos deslocarmos da orla (Parque do Amor) para o Barranco tomamos um táxi. Inicialmente iríamos de ônibus, mas como estávamos em três, refletimos que talvez fosse mais viável dividir o táxi por três. Colocamos a mão e parou um. Perguntamos quanto seria para o Barranco e ele pediu 8 soles. Não, muito caro! Já estávamos acostumados com os táxis baratos do Peru. Quando dispensamos esse logo em seguida parou um atrás, percebendo a situação e disse que nos levaria por 6. Dividido por três dava 2 soles para cada um, menos de dois reais e quase o preço do ônibus, e por isso topamos. O mais engraçado disso tudo foi que o taxista ficou curioso e perguntou quanto o primeiro (que dispensamos) tinha pedido. Quando dissemos que foi 8 ele deu risada e disse: "ah, 8 já é exploração, é muito!". Caímos na risada. Chegamos a nos sentir um pouco culpados, como se estivéssemos explorando os motoristas, mas com essa colocação vimos que na verdade o motorista anterior é que estava tentando fazer isso conosco. Os táxis em Lima são baratos mesmo, e sabendo disso não podíamos amolecer.

Almoço em Barranco Almoço em Barranco

Mais uma vez chegamos numa praça de armas, a do Barranco. Pagamos o táxi com moedinhas e seguimos caminhando por ruas arborizadas e muito agradáveis. Passamos por alguns restaurantes e quase sempre éramos convidados a entrar. Já estava quase na hora do almoço, mas queríamos caminhar mais e seguimos até o final do bairro e voltamos. Marcelino sempre ia perguntando preço de tudo (terreno, aluguel, carro e etc) e dessa vez não foi diferente. Até numa banca de jornais ele perguntou isso. Segundo o jornaleiro o aluguel de um apartamento de dois quartos ficava em torno de 400 soles (cerca de 350 reais). Se compararmos com a realidade brasileira é muito barato, ainda mais num barro tão bom quanto aquele.

No nosso retorno paramos num dos restaurantes que observamos o preço na ida e mais uma vez fomos atendidos com muita gentileza e cordialidade. O atendimento é tão cortês que assusta. Ficamos com a impressão que iriam pedir propina depois (proprina é gorjeta em espanhol), mas não pediram e nem se cobra os 10% que se cobra no Brasil, e mesmo assim eles atendem bem. Pagamos 13,50 soles pelo esquema do menu (com entrada, segundos e suco)  e depois toamos outro táxi (mais seis soles) e voltamos para o Larcomar para pegar o Turisbus.

Avenidas floridas Avenidas floridas

Nosso voo para o Panamá sairia na manhã seguinte, às 5 horas. Considerando as duas horas de antecedência para checkin internacional, mais o deslocamento e mais um tempo de segurança teríamos de sair do hotel para o aeroporto às 2:30 da madrugada. Como esse horário é bem inconveniente e pela difículdade de achar um táxi na rua deixamos pré-acertado com o hostel um táxi (ele disse que já tinha táxis que faziam isso). Tentamos acertar com os táxis que tomamos na rua, mas nenhum deles quis nos pegar de madrugada no hotel, e disseram que só trabalhavam de dia. Além disso, mesmo se um topasse não sentiríamos segurança, pois ele poderia falhar. Quando conversamos com o hotel eles nos disseram que se agendássemos o táxi com eles seria 100% garantido. A questão é que ficamos de ligar para ele durante o dia para confirmar e como iríamos entrar no ônibus tínhamos de ligar antes disso. Saímos pelo shopping à caça de um telefone público e depois de algumas decidas e subidas encontramos. A ligação no Peru se faz diretamente com as moedas de soles. Você primeiro digita o número e então é solicitado a você um valor específico. Digitei o número e depois coloquei a moeda de 25 centavos de sol. Confirmei, reconfirmei e o hotel disse que ficássemos tranquilos, que o táxi estaria lá no horário e que teríamos de pagar 50 soles pelo serviço.

Avenidas bonitas Avenidas bonitas

Tomamos o ônibus e seguimos ouvindo explicações turísticas sobre a história da cidade. Até ali os incas estavam presentes e deixaram suas marcas na cultura e nas construções. Não houve parada e o trajeto foi todo no segundo andar, observando as ruas bonitas, floridas e limpas que não acabavam nunca. Chegamos ao centro histórico (também muito bonito e limpo), saltamos, a guia fez explicações sobre as construções históricas,  relacionadas aos europeus que ali chegaram e destruíram tudo, para impor sua cultura, seu domínio e sua religião. Da Praça San Martin, a mais importante do Peru, seguimos para o convento, onde surpreendentemente visitamos tumbas com milhares de ossos. Parecia mais um filme de terror ou daqueles de Indiana Jones. Tudo bem que é algo curioso e histórico, mas acho que o guia foi meio infeliz quando disse: "agora vamos poder apreciar diversas coleções de ossos históricos". Eram ossos categorizados por tamanho, idade e condição. Havia um poço só de crânios onde, segundo o guia, devia haver mais de 25.000 mortos. Tudo isso era embaixo da igreja. É que a séculos atrás era comum pessoas serem enterradas nas igrejas, mas somente os mais ricos, que pagavam altos valores com a promessa dos padres-vendedores de céu que os iludia com um descanso eterno. Infelizmente não era permitido tirar fotos nessa parte.

Parque das Águas Parque das Águas

Depois desse tour macabro abandonamos o ônibus e seguimos por conta própria para o Parque das Águas (ou Parque de la Reserva), pagando um táxi de 15 soles. O ônibus faria um trajeto que passava perto desse parque, mas devido a várias regras nos disseram que não podiam parar em lugares não programados. Ficamos  meio chateados com isso, mas mesmo sob forte argumentação não cederam e o jeito foi ir por conta própria. Esse parque é muito famoso por seu conjunto de fontes, com espetáculos que unem água, música, luz  e laser. Segundo nos informaram esse parque entrou no Guiness Book por ter o maior conjunto de fontes e a fonte com jato de água mais alto do mundo. Pagamos 4 soles para entrar  e valeu muito a pena. Esse parque é, seguramente, o mais bonito que já visitei no mundo, Mais bonito e mais bem cuidado do que vários parques europeus que visitei em Londres, Paris, Holanda e outras cidades. O ambiente era muito bem cuidado, bonito e com muitos jardins floridos, com desenhos de flores e fontes enormes e lindas, tudo muito, mas muito bem cuidado, nos mínimos detalhes. Ficamos passeando por cerca de uma hora, brincando nas diversas fontes, com espetáculos belíssimos para esperar até as 19:20, quando se iniciaria o maior espetáculo, a cereja do bolo. Se você vai visitar o parque vá no final do dia para apreciar a natureza ainda com a luz  solar e depois assistir o lindo espetáculo que é apresentado a noite, quando a combinação de luz, água, laser e música criam um efeito encantador. Nesse espetáculo pudemos assistir a magia das fontes dançantes com o aparecimento de vária formas nos jatos de água, inclusive  bailarinos que são projetados no vapor d'água, como se fosse algo em 3D. Algo realmente imperdível e que não pode deixar de ser visto por que visita Lima.

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