Relato de viagem

De La Fortuna ao Panamá, o cruzamento complicado da fronteira e as compras na zona franca de Colón

A nossa jornada para voltar ao Panamá começou na rodoviária de La Fortuna, que é minúscula. Conseguimos comprar a passagem antecipadamente no dia anterior na lojinha de turismo ao lado da estação e isso nos deixou mais tranquilos em não perder o ônibus.

Estação de La Fortuna Estação de La Fortuna

Segundo a previão sairíamos às 14:30 e chegaríamos por volta das cinco em San José, onde tomaríamos o ônibus da Ticabus às 23:00 para seguir para o Panamá, chegando lá somente no outro dia às 4 da tarde. Esse primeiro trecho até a capital da Costa Rica foi tranquilo e chegamos no horário previsto. Saltamos na mesma rodoviária velha e feia que passamos quando estávamos fazendo a rota contrária e um grupo de taxistas tentou enfiar a faca na gente. Calma, isso foi no sentido figurado! É que dessa estação tínhamos de ir para a Ticabus, que tem uma estação própria e que ficava a menos de 2km dali. Logo quando saltamos do ônibus já vieram oferecendo o táxi, mas todos queriam cobrar caro (4000 colones) para o preço praticado por lá. Acho que eles combinam o preço entre si para que não haja concorrência. Eu tentei negociar mas eles não quiseram (nenhum deles). Fiquei meio zangado e Viviane e Marcelino me condenaram por eu não aceitar o preço, mas eu realmente estava me sentindo explorado. Foi então que, logo em seguida, eu vi um táxi passando na rua (que não estava mancomunado), coloquei a mão e ele disse o preço de 1200 colones, menos de um terço do preço que os outros queriam cobrar.

Estação Ticabus Estação Ticabus

Chegamos na estação da Tica sabendo que teríamos de esperar várias horas. Quando fomos fazer 'check-in' o funcionário nos perguntou se cumpríamos os requisitos para cruzar a fronteira, que era ter uma passagem de ida e volta e 500 dólares no bolso! Nossa, não tínhamos 500 dólare, mas tínhamos uma passagem saindo do Panamá para o Peru poucos dias depois. De nós três eu era o único que não tinha a passagem aérea saindo do Panamá impressa, e ele disse que era realmente necessário. Foi super gentil e disse que podia imprimir para mim, que era só enviar para o email dele, que ele imprimia. Disse também que mesmo com a passagem aérea saindo do país tínhamos de comprovar ter fundos (os 500 dólares) e completou dizendo que se não tivéssemos em dinheiro poderíamos mostrar que tínhamos no banco, com um extrato de até três dias antes. Como só nos restava essa alternativa fomos a um caixa eletrônico seguindo a indicação do funcionário da Tica para tentar imprimir um comprovante de saldo, mas para nossa tristeza esse cajero, como eles chamam em espanhol os caixas, só mostrava o saldo na tela, sem imprimir. Chegamos a tirar fotos da tela, mas achamos que podiam não aceitar e dar problema. Voltamos em poucos minutos, já que o cajero era bem próximo e então pensei em imprimir o saldo pela internet. Perguntei e o funcionário da Tica e ele disse que não haveria problema e assim o fizemos, os três. Depois de resolvida essas questões de papelada fomos comer uma pizza, já que ainda havia muito tempo disponível. Ensinaram-nos como chegar a uma PizzaHut perto dali e fomos caminhando.

PizzaHut em San José PizzaHut em San José

Tudo estava muito escuro e deserto, sem quase ninguém na rua, mas haviam dito que era tranquilo, mas mesmo assim fomos caminhando rápido e olhando para trás de vez em quando. A pizza saborosa custou quase 3660 colones para cada um, mas valeu a pena, até por que imaginávamos que a comida no ônibus não ia ser muito boa e precisávamos iniciar a longa viagem de barriga cheia. Quando saímos da PizzaHut os funcionários já estavam fechando e nós éramos os últimos clientes. Voltamos para a Ticabus e ainda assim esperamos mais um tempão. Quando chegou a hora agendada para o ônibus sair nada aconteceu. Passou uns 15 minutos e todos já estavam impacientes e então um funcionário anunciou, via microfone, que houve um problema com outro ônibus e que aparentemente a tripulação (isso foi o que entendi) não pôde chegar e que por isso a partida seria atrasada em uma hora, saindo à 00:00. Todos ficaram decepcionados e zangados, mas sem muito o que fazer continuaram esparramados nas cadeiras e no chão da estação.

Imigração da Costa Rica em Paso Canoas Imigração da Costa Rica em Paso Canoas

Pelo que detectei o perfil da maioria dos viajantes era de pessoas que estavam indo ao Panamá fazer compras. Na Costa Rica tudo é caro (se comparado ao Panamá) e muitas pessoas viajam ao país para fazer compras, tanto para uso quando para revender, e talvez por isso haja a exigência de demonstrar capacidade financeira e passagem de volta. No nosso ônibus havia muito poucos turistas do exterior, além de nós, e pelas vestimentas e comportamento dava para ver que eram pessoas sem muito recurso.

Saímos à meia noite e logo de cara já fui dormir, como quase todos que estavam cansados. Fui acordado pelo som do comissário de bordo dizendo que devíamos descer para passar pela imigração. Olhei para o relógio e era 4:50 da manhã e todo mundo já foi levantando e saindo do ônibus. Pela pressa de todos imaginei que ia ser rápido, mas ao sair já vi uma fila formada e os guichês fechados. Ficamos ali em pé por uma hora, esperando que a imigração da Costa Rica abrisse. Fiquei muito indignado com isso. Ora, se a imigração só abria às 06:00 da manhã por que chegamos tão cedo e por que todos foram instruídos a descer do ônibus? Se não tivesse ocorrido o atraso na saída de San José estaríamos ali uma hora mais cedo e ficaríamos duas horas em pé, esperando. Difícil de entender. Não puder nem reclamar por que depois de descermos o ônibus foi embora, nos esperar do na imigração do Panamá.

Atravessando a fronteira em Paso Canoas Atravessando a fronteira em Paso Canoas

Depois da longa espera fomos atendidos e a instrução era que deveríamos seguir até a imigração andando, por um trecho de 300 metros aproximadamente. A travessia ocorre na cidade de Paso Canoas, que curiosamente é uma cidade que pertence aos dois países (Costa Rica e Panamá), mas notadamente o lado Panamenho é bem mais policiado. Esta cidade não é bonita (pelo menos nesse trecho) e tudo que queríamos era passar pela burocracia para depois voltar a dormir. Chegamos na imigração do Panamá (para entrar no país) e já nos deparamos com outra fila.

Esperamos por uns 20 minutos e na minha vez eu já deixei separada a passagem de saída do Panamá, o passaporte e o estrato do banco mostrando o saldo, mas mesmo com tudo isso ele pediu para ver a tarjeta do banco (cartão da conta corrente). Ele foi educado, mas ficou meio em dúvida quando ao saldo (já que estava em reais) e dai eu expliquei a equivalência aproximada em dólares e recebi o carimbo de entrada.

Esperando para pegar as bagagens para vistoria Esperando para pegar as bagagens para vistoria

Pensando que havíamos terminado nos dirigimos ao ônibus para tentar embalar novamente o sono, mas fomos surpreendidos com a negativa do motorista. Ele não explicou direito, mas pelo que entendi ainda não podíamos entrar. Descobrimos depois que ainda precisávamos passar as bagagens por vistoria, mas elas ainda estavam dentro do ônibus e mais uma vez ficamos esperando. Só depois que todos tinham passado pela imigração é que as bagagens foram dadas a cada um dos proprietários para que então fosse feita a vistoria, que é manual.

A forma com que isso é feita é estranha e fica parecendo que estão montando uma armadilha para pegar alguém. Todos foram orientados a entrar numa sala. Quando estavam todos lá um oficial começou a fazer uma chamada, por nome, e cada um tinha de dizer "presente". Segundo observamos de todos chamados 2 não estavam na sala. Não sei se fugiram ou simplesmente esqueceram de entrar ou se perderam. Eles fazem isso para ter certeza que todos que estavam no ônibus desembarcaram e para não ficar nenhuma mala sobrando ou abandonada. Depois de finalizar essa chamada é que então um outro funcionário começou a revistar a bagagem. Na minha vez entreguei o formulário da alfândega e o passaporte.

Sala de inspeção de bagagem Sala de inspeção de bagagem

Ele viu que eu era brasileiro e mal revistou a mochila grande (e nem olhou a pequena). Ele simplesmente olhou superficialmente e abriu um pouquinho de nada o zíper principal. A vistoria é falha, mas pelo que percebi era mais intensa no pessoal da região (quem vinha da Costa Rica, Guatemala, Honduras e etc).  Depois desse procedimento colocamos a mochila novamente no ônibus e finalmente pudemos sentar nas poltronas de novo. Todos esses procedimentos, incluindo os da Costa Rica e os do Panamá nos tomaram incríveis 3 horas! É muito desorganizado e demorado. Quando o ônibus ligou os motores e voltou a andar já era 8 da manhã.

Voltamos a dormir e mais a frente fui acordado por uma policial que já estava dentro do ônibus, pedindo o passaporte. Ela conferia se cada um tinha o carimbo de entrada no país. Essa fiscalização duplicada deve ser para pegar alguém que tentar se esconder dentro do ônibus ou entrar de alguma forma irregular. Como eu já citei, o Panamá aparenta ter grande preocupação em relação às suas fronteiras e a imigração ilegal.

Café da manhã Ticabus Café da manhã Ticabus

Depois dessa abordagem tentei voltar a dormir mas não consegui e algum tempo depois foi servido o "café da manhã" da Ticabus, que pasmem, era um McChicken, do Mcdonald's, e um copo de café. Fiquei só com o café e devolvi o sandwiche, mas Viviane bradou e eu peguei novamente e doei para ela. A Ticabus é uma empresa costa-riquenha e provavelmente o comissário de bordo também, já que ele foi muito educado e gentil. O serviço e o ônibus da Tica não se comparam ao da Cruz del Sur (do Peru), mas já é de uma qualidade razoável, se comparado ao das empresas panamenhas (pelo menos nas que andamos).

Rodamos mais algumas horas e chegamos, novamente, no terminal do Albrook, onde um homem grosseiro começou a retirar as bagagens do maleiro. Ele com uma cara de mal humor simplesmente pegava as bagagens e jogava, como se fosse um saco de lixo. A bagagem de uma senhora caiu virada ele nem pra ajudar, eu que fui fazer isso. Nem olhava na cara das pessoas e nem dizia um obrigado e então nos lembramos que estávamos de volta à realidade do péssimo serviço do Panamá.

Terminal Albrook Terminal Albrook

Do Albrook seguimos de táxi (4 dólares para os três) para o hotel Caribe, que estava reservado e ficava na parte central da cidade, diferente do hotel anterior que ficava na periferia. Por isso custou mais caro (81 dólares por noite para os três) mas achamos que compensaria, já que ficava mais perto de tudo e não perderíamos tempo no trânsito infernal da Cidade do Panamá. Esse era um hotel grande, um pouco antigo, mas com boas instalações e fica a poucas quadras da orla e da parte mais bonita da cidade.

Não ficamos muito tempo no hotel, e após descansar um pouco seguimos para o Albrook Mall, para resolver a questão das compras, mas já estávamos pensando em outra possibilidade. O motorista do táxi que nos levou até o hotel nos disse que o melhor lugar para compras (em relação a preços) é Colón, a zona franca, mas nos disse também que era meio complicado chegar até lá. O que acontece é que Colón é uma zona franca restrita para estrangeiros que não podem ingressar no Panamá com os produtos adquiridos lá . Oficialmente os itens comprados lá devem ser retirados no aeroporto, quando o viajante está indo embora. Colón  fica na costa do Atlântico, enquanto a Cidade do Panamá fica na costa do Pacífico.

Trajeto para Colón Trajeto para Colón

São 70 quilômetros para cruzar todo o país no sentido mais estreito e segundo nos informamos não é seguro entrar e sair de Colón a pé, pois há assaltos. Sendo assim, os taxistas fazem o serviço de transporte de ida e volta até Colón e além disso te esperam fazer as compras e ainda servem como guia. Por esse serviço o taxista disse que cobrava 120 dólares, para os três. Tá bom, ele podia estar sendo casuístico e criando a dificuldade para vender a facilidade e foi por isso que eu pesquisei na internet se tudo aquilo relatado procedia, e tudo se confirmou. Sabendo disso perguntei na recepção do hotel se eles indicavam um serviço de táxi para o transporte até Colón e na mesma hora a funcionária ligou para uma senhora chamada Sônia (tel 507  64053284), que prestava esse serviço. Ela  disse que o preço era 150 dólares para os três e que teríamos de pagar mais 30 dólares para sair de Colón com o carro. Fiquei com o telefone dela e disse que ia decidir e depois retornava. Com essa questão esclarecida seguimos para o Albrook.

Como já disse em outro relato o Albrook é um shopping muito grande, o maior da América Central e normalmente tem o melhor preço entre os centros de compras da cidade e por isso queríamos cotar os preços lá para, em caso de irmos para Colón, termos uma referência, já que supostamente lá deveria ser mais barato, em torno de 20%, em relação aos preços da Cidade do Panamá. Para percorrer o Albrook gasta-se muito tempo, pois é imenso e com muitas lojas. Apesar de grande é um shopping mais popular e mais frequentado pela classe c e b, aqueles que procuram coisas mais econômicas. Por esse tamanho optamos por ir só em algumas lojas, as principais, e facilmente percebemos que os preços eram muito parecidos em todas elas. Não pretendíamos comprar muitas coias. Eu mesmo só pretendia comprar dois smartphones e uma câmera.

No dia seguinte fui acordado às 6 da manhã por um telefonema da Sônia perguntando se iríamos ou não. Nossa, até tomei um susto! Não reclamei por que só percebi a hora depois que terminei a ligação. Eu disse a ela que tínhamos interesse em ir, mas que tinha conseguido um taxista que faria o mesmo serviço por 120 dólares. Ela disse então que faria os 120! Mesmo assim eu disse que iríamos conversar e eu ligava para ela confirmando. Mais tarde, quando retornei, ainda disse a ela que gostaríamos de passar, na ida pra Colón, no shopping Multiplaza e na Plaza Los Angeles (nessa praça se vende muitos equipamentos náuticos), onde rapidamente verificaríamos alguns preços. Ela quis cobrar a mais, mas terminou aceitando adicionar esses pontos sem custo, mesmo eles não sendo exatamente na mesma rota.

Entrando na Zona Livre de Colón Entrando na Zona Livre de Colón

Nas minhas pesquisas na internet fui entender que os 30 dólares adicionais mencionados por Sônia era para pagar propina, já que não é permitido comprar e sair de lá com os equipamentos e o correto é retirar no aeroporto (você compra em Colón e eles enviam para o aeroporto da Cidade do Panamá em 24 horas cobrando uma taxa pequena). Não gostei disso e não me sentia nem um pouco bem em fazê-lo e pensei seriamente em desistir. Essa propina não para comprar ilegalmente ou deixar de pagar imposto, já que é uma zona livre, mas simplesmente para você poder sair com os produtos, que oficialmente só poderia ser retirado no aeroporto. Felizmente no final isso não foi necessário (pagar essa propina), já que saímos sem passar por esse problema. O trajeto até a Colón durou quase duas horas e realmente a Zona Libre de Colón é uma cidade dentro de outra cidade, toda murada e com acesso controlado. Você tem de fazer um cadastro na hora da entrada, fornecendo o passaporte. Momentos antes desse acesso descobrimos que não era possível entrar com o táxi na zona livre, mas que se "pagássemos" conseguiríamos resolver isso. Infelizmente fizemos isso por que estávamos receosos quanto à segurança, apesar de isso não ser justificativa. Foi um erro e não me orgulho disso e posso garantir que não faria (e não farei) nunca mais. Até por que essas compras passaram da cota (apesar de pouco) e tivemos de passar de modo furtivo na alfândega brasileira, quando retornamos. Quando você faz algo errado é assim, uma coisa puxa a outra e não devemos ignorar as regras quando nos é conveniente e julgar os outros quando cometem erros. Eu cometi esse erro, não me senti bem, mas aprendi.

A zona livre é praticamente uma cidade A zona livre é praticamente uma cidade

Foi a última vez. Se você quer fazer as coisas da forma correta, e é o que recomendo, você tem duas opções para comprar na Cidade do Panamá: comprar em Colón e retirar os produtos no aeroporto, quando estiver indo embora (correndo o risco de um item chegar danificado ou errado) ou comprar no Albrook Mall mesmo, pagando cerca de 20% a mais. Já se você for ignorar as regras e usar o sistema corrompido pode pagar pelo serviço de transporte de táxi, pagar para entrar com o táxi na zona livre e depois pagar propina para sair com as coisas. Tudo isso dá cerca de 160 dólares e deve ser considerado para você chegar ao preço final dos produtos, diluindo esse custo entre os itens.

Na volta demos mais 5 dólares para que ele passasse novamente no Multiplaza, onde comprei (e Viviane também, na empolgação) um lançamento da Sony, uma câmera que se acopla ao smartphone e tira fotos esplêndidas, além de ter zoom ótico de 10x. O trânsito já estava horrível e demoramos muito pra chegar no shopping e depois no Hotel Caribe, onde finalmente pudemos descansar, depois de um dia de muita correria.

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