Relato de viagem

Vale Sagrado, Puno e Titicaca, o lago mais alto do mundo

Ollantaytambo é uma cidade pequena e fica na rota de Machu-Picchu. Por algum motivo não encontramos um ticket de trem até Poroy e planejamos ficar por ali e conhecer atrações da região. Já ao saltar do trem já noS ofereceram táxi, ônibus e um monte de serviços. A principal locomotiva da econômica da cidade é o turismo e por meio da estação de trem é que chegam a maioria dos visitantes. Eu particularmente fico meio agoniado quando vem um monte de gente em cima de mim oferecendo coisas e perguntando se quero, se quero, se quero. Gosto de ouvir as ofertas e refletir a respeito delas. Assim fizemos. Depois de ouvir um monte de ofertas saímos andando, conversamos e decidimos por um táxi. Tínhamos ali quase quatro horas  e se fôssemos tomar vários transportes e descobrir a rota de cada um perderíamos muito tempo. O primeiro ofereceu a ida até Moray (Vale Sagrado) por 120 soles para os três. Nos levaria, nos esperaria por uma hora e nos traria de volta. O segundo pediu 70 só para ir e terminou dizendo que fazia por 90, mas quem traria seria outra pessoa. Não sentimos segurança e terminamos voltando ao que pediu 100 e oferecendo 90, mas ele não aceitou e fechamos em 100 (33,33 soles para cada). O carro era novo, um Hyundai sedan de 1 ou 2 anos de uso muito confortável. O motorista sem a maioria dos dentes da frente é que não combinava com a elegância do veículo. Apesar disso, era bem educado e articulado. Falando pausada e corretamente as palavras em bom espanhol.

Táxi de Ollantaytambo para Moray Táxi de Ollantaytambo para Moray

A distância percorrida nos surpreendeu e terminamos recebendo mais serviço  do que esperávamos. Ele não só nos levou e trouxe, mas fez um verdadeiro tour, explicando o significado de cada coisa e a história envolvida. A primeira parada foi no mirante da onde pudemos ver toda a cidade de Ollantaytambo e havia também no local um mapa turístico da cidade todo talhado em pedra, uma linda obra. Depois de algumas fotos seguimos contemplando plantações e várias áreas sendo preparadas para plantio nas terras roxas e com cores bem fortes, deixando claro serem muito férteis. Nesse caminho vimos casas simples, muitas de barro e gente que vive da terra. Pelos anos de experiência e conhecimentos acumulados pelos incas era pra esse povo estar num estágio de desenvolvimento sócio-econômico bem melhor, mas a invasão dos europeus no século XVI e o extermínio (tanto das vidas quando das tradições e conhecimentos) levado a cabo por esses invasores fez com que isso não acontecesse. Se isso não tivesse acontecido provavelmente seria uma das regiões mais ricas e desenvolvidas da América.

Mirante de Ollantaytambo Mirante de Ollantaytambo

Saímos do asfalto e depois de cerca de 40 minutos e 10 km de barro serpenteando chegamos ao ponto de acesso ao Vale Sagrado. Há uma guarita onde se paga 10 soles por pessoa. Se o visitante tiver comprado o ticket completo de Cusco (aquele que relatei na nossa passagem por Cusco) não se pagaria nada, pois essa atração está dentro do município de Cusco, apesar de distante. Como não tínhamos esse ticket global pagamos os 10 soles e entramos. O Vale Sagrado é a região onde os incas realizavam estudos e testes de plantio agrícolas. Devido à região ser montanhosa eles criaram um sistema semelhante a escadas, com degraus de dezenas de metros e com estrutura de pedra que os permitia plantar num terreno plano em uma área originalmente de aclive. Além disso a cada degrau descido eles verificaram que as condições climáticas (temperatura e humidade) eram diferentes e por isso as espécies vegetais se comportavam de forma distinta. Esse conhecimento fez com que eles passassem a utilizar os degraus também como forma  de aclimatação, passando uma espécie para um nível acima ou abaixo, aos poucos, para fazer com que a mesma se adaptasse a determinadas condições, além de cultivar a mesma espécie em diferentes condições para obter resultados específicos. Segundo nosso motorista-guia hoje há mais de 3000 espécies de batata no Peru, e provavelmente isso tem relação com esses estudos dos incas. Esse era o ponto de maior altitude da viagem até o momento (3330 metros) e com o esforço da caminhada que fizemos na subida da saída do vale senti, pela primeira vez, um pouco de falta de ar, com a sensação que de que eu respirava mais não vinha muito oxigênio.

Vale Sagrado Vale Sagrado

Era um pouco desconfortável mas nada impeditivo. Eu tinha tomado a decisão, desde o início da viagem, de não tomar nenhum produto de coca para suportar a altitude. Muito se fala que é praticamente impossível caminhar ou fazer atividades nos locais de grandes altitudes do Peru sem mascar a folha de coca ou consumir algum produto da mesma. Dizem que se você não fizer isso vai ter dor de cabeça, náusea e pouca disposição. Nada disso aconteceu comigo, com exceção dessa pequena sensação de falta de ar totalmente administrável e natural devido ao oxigênio ser rarefeito nessa altitude.

Saindo de Moray retornamos Ollantaytambo e a nosso pedido o motorista nos deixou num restaurante de comida típica. O local era lindo, com um jardim exuberante e todo construído em madeira. Para nossa felicidade, além de ser bonito e típico tinha aquele esquema de menu (que já descrevi em outros relatos dessa viagem). Fizemos então nosso pedido e vieram a entrada, o segundo e o postre (sobremesa). Eu pedi uma sopa de quínoa (que estava uma delícia), depois um macarrão com verduras e ao final uma salada de frutas. Tudo isso saiu por 20 soles.

Nossa passagem para Cusco já estava comprada, há muitos meses atrás pela internet por 28 soles. Segundo nosso roteiro às 16:35 partiríamos e como chegamos meia hora antes ficamos ali na estação da Cruz del Sur. Neste local a empresa colocou uma espécie de container todo estilizado e bem bonitinho como estação. Com ar-codicionado e cadeiras para sentarmos. Só não tinha banheiro e tive de pagar 1 sol para usar o servício higiênico, que é como eles chamam os sanitários. Como o trajeto era pequeno, o ônibus também. Não era aquele super conforto que tivemos de Lima para Cusco. Foi um micro-ônibus, mas também novo, confortável e para nosso deleite veio vazio e todo o espaço ficou para nós. Chegamos a Cusco em duas horas. Quando estávamos nos aproximando da cidade ligamos o GPS e verificamos que a rota do ônibus passaria bem pertinho do nosso hotel.

Vendedora de artesanato Vendedora de artesanato

Fomos monitorando e quando estávamos a duas quadras pedimos para saltar e caminhamos até o hotel. Como partiríamos ainda naquela noite, às 22:00, para Puno não havíamos reservado hotel, pois dormiríamos no ônibus. Sendo assim voltamos ao hotel Don Marcos somente para pegar nossas mochilas e tentar tomar um banho. Nos foi cobrado 2 soles pelo banho, mas foi bom por que pudemos usar a sala, os sofás e internet para nos organizar. Decidimos sair já de vez, com as mochilas grandes, passar no câmbio, depois no restaurante onde comemos uma maravilhosa comida dois dias antes. Para nossa infelicidade o esquema do menu de 12 soles não estava disponível e só a sopa, custava 8 soles. Como tínhamos pouquíssimo tempo (os minutos estavam cronometrados) pagamos, com sofrimento, esses oito. Vale dizer que a sopa estava muito gostosa e veio uma grande quantidade que deu trabalho para tomar.

Havíamos combinado com um taxista que nos levou do Hotel Dom Marcos até a Avenida El Sol para os pegar no mesmo ponto em exatos 30 minutos. Já eram 09:33 e ele não aparecia e pegamos o primeiro táxi que apontou na rua. Pagamos míseros 4 dólares. Se há uma coisa barata no Peru é táxi. E inimaginável você pagar um táxi com moedinhas, mas em Cusco fazíamos isso todo o tempo. Voltamos para a mesma estação onde chegamos no primeiro dia em Cusco e tomamos nosso ônibus rumo à Puno, onde conheceríamos o lago Titicaca. A partir desse momento a viagem tinha ficado um pouco mais dura, pois seriam quase três dias sem hotel, só dormindo em ônibus.  A nossa rota seria sair de Cusco, viajar a noite inteira no ônibus e chegar às Cinco da manhã. Dar um tempo na rodoviária ou em outro local até as coisas abrirem. durante o dia conhecer a cidade de Puno e o lago Titicaca, depois tomaríamos outro ônibus às três da tarde indo para Arequipa, chegando lá às 20:00, onde tomaríamos outro para Lima chegando lá às 13:00. Tudo isso parecia muito cansativo no planejamento, mas na prática foi bem tranquilo.

Cidade de Puno Cidade de Puno

Os ônibus eram confortáveis, com poltronas que quase deitavam completamente, com alimentação, filmes (recentes e interessantes), wifi e até mesmo bingo. Posso dizer sem medo de errar que a melhor escolha que fizemos no nosso planejamento foi viajar com a Cruz Del Sur. É uma empresa sensacional, que realmente se preocupa com o passageiro. O tratamento dos funcionários, especialmente do serviço de bordo, é algo quase indescritível. Sempre com muita gentileza, dedicação e pronto para realmente lhe servir. Um tipo de serviço que nunca encontrei em lugar nenhum do mundo que já tive.

Chegamos em Puno e ao invés de termos de procurar opções de passeio para o lago a opção veio até nós. Mesmo sendo 5 da manhã, logo depois do nosso desembarque já veio uma pessoa nos oferecer o passeio. A pesquisa que havíamos feito nos indicava que o tour de 3 horas pelo lago custaria cerca de 30 dólares, mas quando chegamos lá nos foi oferecido por 30 soles, o que é quase a metade. De início ficamos meio desconfiados até por que um dos nossos problemas seria a mochila grande, e ele no ofereceu também guarda-las na sua loja e pegarmos na volta. Chegamos a pensar que era alguma armação para pegar nosso dinheiro e ainda ficar com três mochilas de quebra. Tiramos foto dele (escondido) pegamos recibo e concluímos que aparentemente ocorreria tudo bem, até por que qualquer coisa voltaríamos na loja dele e chamaríamos a polícia (esperando que ela agisse). O único detalhe é que o passeio se iniciava às 8:45 e ainda era 05:30. Aproveitamos para tomar um café ali mesmo na rodoviária (essa foi a primeira rodoviárias que desembarcamos, antes sempre foi estação própria da Cruz del Sur), por 8 soles, com suco, ovo, pão, geleia manteiga e café. Foi uma ótima opção e fica no segundo andar da estação de Puno.

Praça de Arma de Puno Praça de Arma de Puno

Ao invés de ficarmos enfurnados na rodoviária optamos por sair pela cidade. O combinado é que a van nos pegaria na praça de armas, e seguimos andando para lá, com calma. Pelo horário a cidade estava deserta. Notadamente Puno não era uma cidade bonita e nem chegava aos pés de Cusco. A maioria das construções eram feias, muitas sem reboco e algumas ruas com sujeira, mais ainda assim mais limpa que muitas ruas da cidade de Salvador.

Os momentos que ficamos na Praça de Armas de Puno foram interessantes. Era uma verdadeira cidade do interior, com figuras interessantes saindo para trabalhar ou passear. Ficamos por ali como pequenas mosquinhas, olhando e entendendo um pouco mais dos hábitos locais. Passaram cholas (mulheres peruanas de vestimentas e hábitos tradicionais), homens engravatados, pessoas pobres, muitos policiais e militares e gente de todo tipo. Como já disse em outros relatos parece que em toda cidade peruana há uma praça de armas. É como se fosse o marco zero. Nesta, havia a catedral imponente, demonstrando que os religiosos não praticam não ganância que pregam. Ao lado, um quartel da polícia, com muita movimentação e policiais com forte armamento e muitos equipamentos, inclusive escudos utilizados por polícias de choque, dando a entender que haveria uma manifestação intensa por parte da população em algum ponto da cidade. Nos outros lados da praça ficavam restaurantes e lojas em geral e no meio a estátua do militar herói peruano Francisco Bolognesi, com um revólver na mão.

Senhora curvada pela idade Senhora curvada pela idade

O horário estava se aproximando e a van que nos pegaria para iniciarmos o passeio pelo lago não chegava. Quando passou 5 minutos do horário combinado eu fui em busca de um telefone público para falar com a pessoa que nos vendeu o passeio. Encontrei o telefone e cheguei a colocar a moeda de um sol para fazer a ligação e quando estava chamando Marcelino apareceu dizendo que a van havia chegado. Deu tempo de interromper a chamada e consegui minha moeda de volta. Entramos na van que antes de chegar ao cais de onde partiria a embarcação passou em vários hotéis coletando turistas.

Quando chegamos ao porto de Puno um guia peculiar nos recebeu dando as boas vindas, com um inglês macarrônico e depois repetiu tudo em espanhol. Ele era baixinho, negro, com cabelos longos e encaracolados, com uns óculos estilo ray-ban e sem muitos dos dentes da frente. Era bem simpático e articulado e gostava de explicar as coisas, apesar de estar repetindo pela enésima vez. Embarcamos com ele numa lancha de fibra com 8 pessoas no total, sendo alguns alemães, outros latinos e nós brasileiros. O Titicaca é famoso por ser considerado o lago navegável mais alto do mundo (3812 metros) e por sua grande extensão (8562 km²) e está na fronteira entre Peru e Bolívia.

Visita às ilhas dos Uros no Lago Titicaca Visita às ilhas dos Uros no Lago Titicaca(vídeo)

Saímos navegando pelas calmas águas, observando uma linda paisagem longínqua e serena, com muito junco, água escura e muitas embarcações para lá e para cá com turistas querendo desvendar o mistério daquelas águas. Além da beleza o outro atrativo é a forte cultura local e também as inusitadas ilhas flutuantes construídas pelos Uros a séculos. Essas ilhas são de junco e devem ser constantemente reforçadas  (a cada 15 dias) já que os juncos antigos vão apodrecendo e devem ser repostos para que a moradia não afunde. Os juncos são também utilizados para fazer as casas, para fazer fogo, artesanato e até mesmo para comer (a parte branca do caule). Por motivos históricos de conflitos de guerra muitas famílias tiverem de fugir das terras e o que lhes sobrou foi a solução de “criar” suas próprias terras. Hoje em dia há cerca de 30 ilhas flutuantes artificiais e muitas famílias morando nelas, mas segundo nosso guia este número está diminuindo por que jovens estão preferindo terra firme, especialmente quando vão ao continente para estudar e terminam por lá ficando.

Navegando pelo lago Titicaca no Perú Navegando pelo lago Titicaca no Perú(vídeo)

Os Uros são um povo ancestral de cultura forte e ateus originariamente e isso se expressa na sua forma de vestir e viver, assim como seu artesanato. Fomos muito bem recebidos mas é claro que as famílias visitadas ganham algum dinheiro para isso. Sentados nas ilhas e em bancos também de junco o guia nos deu uma aula sobre a história e hábito do povo. Ao lado estavam as mulheres que ali residem, que impressionam pela baixa estatura e grande largura! Algo curioso de se observar. Depois disso pudemos conhecer as casas por dentro, e ao final fazer um passeio num barco tradicional de junco, com um senhor local muito simpático e com uma calma infinita. Ele nos contou que agora tem TV (o governo doou painéis solares) e que adora ver futebol. Disse que quando o Peru joga não gosta muito de ver, mas quando o Brasil joga sim, ele adora. Incrível como o futebol do Brasil chega a lugares onde muitas coisas mais importantes não chegam.

Vida e hábitos dos Uros nas ilhas de junco do Titicaca Vida e hábitos dos Uros nas ilhas de junco do Titicaca(vídeo)

Ao final desse passeio maravilhoso seguimos de volta para a Praça de Armas onde almoçamos e depois para a rodoviária, pagando um táxi de 3 soles! Embarcamos no nosso transporte preferido (o ônibus da Cruz del Sur) com destino a Arequipa, onde fizemos uma conexão de cerca de 1 hora e depois mais outro para Lima. Nesse trajeto até a capital do Peru passamos por paisagens desérticas deslumbrantes e chegamos ao ponto mais alto da nossa viagem, 4.300 metros! A maioria dos passageiros eram peruanos e tive a infelicidade de ter um obeso que roncou a noite toda! Parecia um trator e a metade do ônibus teve problemas para dormir devido a isso. Eu não conseguir dormir um minuto se quer, parecia que ele estava do meu lado. Só ao amanhecer, por volta das 4:30, quando ele acordou foi que conseguir dormir.

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